JOAQUIM BARBOSA E A POSSIBILIDADE DE UM IMPEACHMENT. Existe viabilidade técnica jurídica para o afastamento, porém este fato político só alimentaria o entusiasmo de paladino da moralidade de Sua Excelência.

Antes de o ministro Joaquim Barbosa assumir a Presidência do STF comentei com um amigo que ele não completaria o mandato, porque sofreria impeachment em razão de sua forma atropelada e arrogante com que conduz um processo e por certo, o que faria no comando da mais alta Corte. Na análise correta do meu interlocutor, disse-me que isso não aconteceria porque o ministro era útil a grande mídia e as elites brasileiras, em razão da relatoria da AP 470 (pouco conhecida como tal, mas com a ação penal do “mensalão”) onde se apresentou como o paladino da moralidade e ética pública e o destemido caçador de corruptos. Assenti com seu complemento e não mais toquei no assunto.

Porém, a conversa do impeachment foi recentemente pronunciada. Não se trata de manifesto de parte dos movimentos de esquerda, dos partidos que tiveram membros condenados e presos no processo do mensalão, não consistindo porquanto vindita daqueles politicamente mais ligados aos condenados na referida ação penal. Na verdade este discurso já ressoa na boca de muitos analistas políticos, em alguns segmentos da OAB e, principalmente, na fala técnica e coerente de muitos juristas de renome.

O fato é que a cada extravagância o Presidente do STF se enforca na sua própria arrogância. O paladino da moral e destemido julgador que levou a ferro e fogo a relatoria da AP 470 (denominada mensalão), já cumpriu o seu papel e não interessa mais a mídia e as elites nacionais, que a muito custo tiveram que engoli-lo. Só que ele ainda não se deu conta de sua efemeridade no posto, seja porque a temporalidade do cargo o devora, seja porque o trabalho a ser feito já foi executado, não interessando mais sua presença.

Nesse meio tempo, aqueles que o cortejavam e o elogiavam como a expressão pura da anticorrupção – simplesmente para satisfação de seus interesses políticos, porque no fundo muitos enlameados até o pescoço – levaram também sopapos e tiveram que engolir em seco as deselegâncias sintomáticas de sua Excelência e que não eram fruto de arroubos de intolerância e impaciência, mas conduta de quem se viu muito maior do que o próprio cargo que ocupa. Nisso se sentiu no direito de sair dando na canela de todos que estavam próximos e o contrariavam, ou que, por algum momento, discordaram ou o indagaram sobre seus atos. Levaram caneladas colegas do Supremo, repórteres da grande mídia que o cortejavam, advogados, juízes, parlamentares, a própria Presidenta (num gesto de extrema falta de educação e cortesia, quando deixou de cumprimenta-la numa recepção conjunta ao papa Francisco, em Brasília). Ao que parece só se safaram os integrantes do Ministério Público, de onde é egresso.

Até então a resiliência se fez necessária em face da evidência e notoriedade que ganhou o ministro na opinião pública. Qualquer posição contrária soaria como uma tentativa de contenção daquele que se propunha fazer uma faxina nos atos de corrupção e dar uma nova cara ao país. Era melhor sufocar a magoa, a humilhação e arredar de cena para não ser novamente alvo dos disparos incontidos e injustificáveis do então ministro.

Mas isso tudo criou um caldo em fervura gerando animosidades que não se apagam. As ofensas são depositadas num repositório que se abriria no futuro. Com isso as vicissitudes do ministro começaram a aparecer. Desde o questionamento de licenças médicas, quando foi visto em companhias de amigos nos bares da Lapa do Rio de Janeiro, a utilização de quase R$ 100.000,00 para reparar banheiros de apartamento funcional em Brasília, a utilização de aeronaves da FAB para viagem de finais de semana, a contratação de seu filho pelo direção do programa do Luciano Hulk na Globo, o mesmo apresentador que depois abrigou o ministro num camarote vip em jogo do Brasil na Copa dos Campeões, a existência de apartamento em nome de uma pessoa jurídica em seu nome, no exterior, com o ente fictício tem endereço no seu apartamento funcional em Brasília.

Ao que parece, sua Excelência também tem teto de vidro, embora isso não possa ser motivo para aquietá-lo como ministro, mas no mínimo para ter uma postura coerente.

Desdenhados esses fatos de sua vida privada (embora se exija de qualquer indivíduo coerência de conduta com o que diz e professa, ao julgador mais do que ser, tem que, também, aos olhos de todos, parecer coerente), sua atuação no julgamento da ação penal 470, atropelando o devido processo na fase executória (não existe ainda condenação definitiva com seu trânsito em julgado; não se expede mandado de prisão para condenados em liberdade para o regime semiaberto, e, mesmo que alguém diga que sim, é premente que esteja acompanhado da guia de execução; não se escolhe, entre diversos condenados, que deverá começar a cumprir a pena primeiramente; não se elege, ao seu exclusivo comando, ferindo o princípio do juiz natural, qual o magistrado que deverá acompanhar a execução da pena, e outras mais).

Qualquer outro magistrado,  de um órgão jurisdicional hierarquicamente abaixo do STF (ouso dizer que até mesmo outro ministro do STF que não tivesse com tamanha evidência), em situação de tais desmandos e ofensas ao princípio do devido processo, estaria sujeito as sanções correcionais e administrativas no CNJ. Por muito menos, diversos magistrados foram afastados e aguardam julgamento.

De fato o ministro Joaquim Barbosa se deixou levar pela honraria do cargo, desonrando-o. Mais do isso se deixou embriagar pela glória momentânea da relatoria do caso do mensalão, do qual a grande mídia se apoderou em prol de interesses oposicionistas, com o fito de atingir o governo da Presidenta Dilma. Por certo, tivesse sido conduzido o processo com toda serenidade que se exige de um juiz, ainda que ao final resultasse em condenações, o desfecho não seria tão contestado como o que se vê agora, quando todas as evidências deixam claro que houve nítida condução política no julgamento.

Certamente não ocorrerá o impeachment, embora sob a perspectiva do mote jurídico existam todos os elementos para isso, mas por depender de uma série de fatores políticos, inclusive para que o alcançado por esse afastamento não saia como vítima daqueles que supostamente não suportam o combate a corrupção. De repente de personagem que já esgotou seu acervo de estripulias, renova-se como um verdadeiro perseguido, pronto para disputar com reais condições de vitória à Presidência da República.

Particularmente prefiro que o ministro, envaidecido pela evidência de seu posto, e achando que postar de paladino da moralidade basta para uma candidatura presidencial, deixe-se levar, novamente, por mais esta fantasia, e assim afaste do STF com intenção de se candidatar. Só assim perceberá que era um mal necessário e que fora do posto não terá mais prestígio. De uma só vez serão eliminados dois problemas: o afastamento de um jurista vingativo, que se sente no direito de sobrepor à própria Constituição Federal – quando seu dever é de proteção – e uma fragorosa derrota na corrida presidencial, cuja disputa não é para amadores.


DO ESTADO DE INOCÊNCIA. Do Arroyo Chui (RS) ao Monte Caburai (RR), da Ponta dos Seixas (PB) à Nascente do Rio Moa (AC), a mídia no Brasil expõe publicamente os acusados e os tornam condenados antes de processo.

O subtítulo deste texto faz uma paráfrase à matéria publicada na Folha de São Paulo no dia de hoje (03/12/2013), com o título “De Moscou a Paris, tribunais exibem réus em jaulas” (vide: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/12/1378835-de-moscou-a-paris-tribunais-exibem-reus-em-jaulas.shtml). Nossas jaulas podem até não terem sido levadas para as salas dos tribunais. Mas isso, porque são mantidas fora do alcance dos nossos olhos e representam muito mais as masmorras medievais do que a jaula de um zoológico, como compara à matéria.

Sem ser conivente e concordar com qualquer forma de execração pública, o que me chama atenção é a preocupação dos nossos jornais em demonstrar a exposição púbica e humilhante de acusados nos países em que faz referência. Conquanto, o mesmo jornal (como de resto toda a mídia brasileira) é ávido por expor suspeitos e acusados – aqueles que ainda não foram condenados definitivamente – ao escárnio público, exigindo nesses casos imediata punição e fazendo questão de apresenta-los, preferencialmente, algemados e sendo enfiados nos camburões da polícia.

Na mesma matéria, assinado por David M. Herszenhorn, do New York Times, registra-se que críticos dizem que a exibição de réus trancafiados na corte é uma presunção de culpa, dificulta a defesa e, com frequência, não tem nenhuma base legal, decorrendo de normas administrativas. Pergunta-se, o que difere esta conduta, em termos de ofensa aos princípios básicos do devido processo, em especial da condição de inocência antes do trânsito em julgado de sentença condenatória, com a exposição e imposição condenatória feita pela mídia – principalmente da grande mídia, em razão do seu alcance – em relação aos acusados no Brasil?

É bom que se repita que o princípio constitucional é do estado de inocência. Todos nós somos inocentes até que se prove nossa culpa, e não presumidamente inocente que pode trazer consigo uma carga de presumidamente culpado. Somente num Estado Democrático de Direito se é possível conceber tal garantia, que é a certeza de que não haverá pena sem processo e que não haverá processo sem garantias (juiz natural, ampla defesa, contraditório, etc.).

Retomando a postura da mídia e o juízo de valores que se dão o direito de fazer, lembro-me, alguns anos atrás, da história de um brasileiro preso e que provavelmente seria condenado à pena de morte na Indonésia, em razão sua aplicação naquele país ao caso de tráfico de entorpecentes, quando foi apanhado na sua chegada ao aeroporto com uma prancha de surfe recheada de droga. A impressa brasileira tratou-o com piedade – não que não pudesse ou devesse fazê-lo – quase que conclamando a opinião pública a um pedido oficial de clemência ao governo indonésio. Um nacional que será literalmente degolado no exterior, que horror! Contraditoriamente, na mesma época, a figura de Fernandinho Beira-Mar (condenado no Brasil por tráfico de drogas) era exposta nos veículos de comunicação a exaustão com a incitação popular para penalidades mais severas, inclusive instigando da população a manifestar favoravelmente quanto à possibilidade do Brasil adotar a pena de morte.

Citando Lnda Mulcahy, professora de direito na London School of Economics, o autor da matéria registra que assim que você coloca alguém em uma jaula, você começa a transformar o processo em parte da punição. Isso é fato.

Porém, a despeito dessa realidade jurídica, há um clamor e incentivo midiático para que ocorram prisões cautelares, como se o aprisionamento fosse uma regra necessária que antecede a todo processo penal. Mais do que isso. Quer-se que essa pena antes do processo se dê, preferencialmente, de modo bastante humilhante, com a máxima exposição pública do aprisionado para o simples o deleite de boa parcela (boa parcela porque rende audiência) da população (da parcela que adora esse tipo de encenação e espetáculo). Quando isso não se dá, e dependendo do interesse que se tem no caso em específico, avilta-se a dinâmica processual – omitida ou obscurecida nas informações dadas – atiçando a ira popular contra aqueles agentes públicos e ao próprio sistema punitivo, pela liberdade do infrator, até então inocente na acepção das garantias constitucionais.

A matéria da Folha termina com uma indagação de Mulcahy e que serve com precisão para o desfecho deste texto: Por que motivo queremos marginalizar dessa maneira alguém que é presumivelmente inocente? Acrescento: Por que a ojeriza e repúdio ao que ocorre no exterior não se dá internamente, quando situações inclusive mais aviltantes acontecem no sistema de punição?


LIMITES DO JUÍZO DEPRECADO NA SUSPENSÃO DO PROCESSO NOS TERMOS DO ART. 89 DA LEI 9.099/1995. Só poderá haver suspensão do processo depois de recebida a denúncia, no juízo deprecante.

 

Autos:       33-25.2013.6.09.0147

Denunciada: HELENA ROSA VIEIRA

Natureza:     CARTA PRECATÓRIA – SUSPENSÃO PROCESSO Art. 89, Lei 9.099/1995

 

DECISÃO

Trata-se de ação penal eleitoral, ajuizada em face da ré acima nominada, no juízo Eleitoral de Anicuns – GO, por crime descrito no art. 350 do Código Eleitoral.

Expediu-se Carta Precatória a este juízo para proposição de suspensão do processo, nos termos do art. 89 da Lei 9.0999/1995.

Autuada, vieram-me os autos para despacho. Constatei então a ausência de decisão de recebimento da denúncia. Por conseguinte, determinei fosse oficiado ao juízo deprecado solicitado à decisão neste sentido e, concomitantemente, designei audiência para se ouvir a denunciada.

Antes da data da audiência chegou a resposta, na qual o juízo deprecante afirma que não havia ainda recebimento, porque o ato haveria de ser cumprido neste juízo deprecado, porque o art. 89 da Lei 9.099/1995 determina que antes se apresente a proposta de suspensão.

Abertos os trabalhos da audiência e presente a denunciada e o Ministério Público, antecipei, em resumo, os termos desta decisão, explicitando que não haveria como propor a suspensão do processo.

Esta posição foi acolhida pelo Ministério Público neste juízo deprecado.

É o relatório.

Decido.

Como já antecipado, não há como apresentar a denunciada presente qualquer proposta de suspensão do processo, como passo a justificar.

Permissa venia ao entendimento esposado no juízo deprecante, não corroboro com a posição tomada e informada. O juízo deprecado tem incumbências meramente de cumprimento das determinações do juízo deprecante, não podendo fazer-lhe às vezes.

O ato de recebimento da denúncia é exclusivo do juízo da causa, do foro competente para processar e julgar. Não se pode, por isso, transferir esta incumbência ao juízo deprecado, simples executor de decisões proferidas no juízo deprecante. Atuar de modo distinto é ferir o princípio do juiz natural, transmigrando a competência para atos decisórios sem que haja previsão legal para isso.

Noutro passo, o instituto da suspensão previsto no art. 89 da Lei 9.099/1995 – diga-se, embora sendo instituto descrito na legislação do Juizado Especial, é também, ou até mais, aplicável fora dele – somente pode ser utilizado, por óbvio, depois da existência de um processo, o que efetivamente se suspende.

Processo, por seu turno, só existe depois que se convalida a relação processual com a angularização desta relação, que se dá, por consequência, com a citação válida do réu. É tão somente pela citação que o réu é chamado a integrar a lide e lhe é oportunizado oferecer defesa.

Mais. Na situação precisa deste instituto da suspensão processual – por isso a necessidade do processo – somente depois de convalidada a relação processual – nesta sequência: 1) recebimento da denúncia; 2) citação da parte ré; 3) proposta de suspensão – é que o réu pode exercer o direito subjetivo de aceitar ou não a suspensão processual.

Antes o denunciado não é réu, mas existe apenas uma possibilidade de vir a ser. É que sem recebimento de denúncia não há citação, porque não houve ainda um juízo de admissibilidade da pretensão punitiva expressa na peça acusatória; sem citação válida, não há convalidação da relação processual; sem instaurada a ação penal e seu processamento, não se pode admitir a hipótese suspensiva, porque não há processo a suspender.

Nesse diapasão é certo que a redação do art. 89, da Lei 9.099/1995, que parece conter vício, por, supostamente, inverter a ordem dos atos processuais, apesar de ausência de uma melhor técnica, não poderia, jamais, atropelar as regras e princípios processuais. Destarte, referida redação, a rigor, deve ser entendida, na ordem em que enuncia, só pode ser tida como uma consulta “prévia” se haverá eventual interesse do acusado em suspensão do processo, caso haja recebimento da denúncia. A este propósito já existe julgado do TJMG em situação idêntica (HC. 2000000043956280001, Rel. Alexandre Victor de Carvalho. Julgado 17/02/2004).

De fato, mesmo sob esta ótica, chega ser estúpida a redação do art. 89, da Lei 9.099/1995, porque antes do recebimento da denúncia o réu não precisa se antecipar a nada, devendo aguardar o juízo (ou não) de admissibilidade da acusação penal. Não se pode desprender que este juízo não é mero despacho, mas decisão que exige ampla fundamentação e dela, como qualquer outra, comporta ainda recurso.

Ademais a decisão que recebe a denúncia, assim como qualquer outra decisão judicial – a teor do disposto no art. 93, XI, da Constituição Federal –, é ato que carece de motivação e fundamentação, e que só pode se proferido pelo juízo da causa (juiz natural).

Soma-se o fato de que, admitir, então, hipótese inversa, estar-se-ia dando ao juízo deprecado, eventualmente, a possibilidade de rejeitar o recebimento da denúncia, desfigurando, de certo modo, o ato depredado. E neste mesmo rumo: havendo sintonia de entendimento do presentante ministerial no juízo deprecado, faria ali coisa julgado, retornando a Carta Precatória com resultado surpreendente e completamente diverso daquele objetivado pelo juízo deprecante, donde não se caberia mais nada. De determinante de medida judicial a ser cumprida o juízo deprecante teria, agora, que cumprir a determinação do juízo deprecado, dando-se baixa na distribuição e arquivando-se os autos.

Assim, como sói ser, na hipótese em cotejo o ato deprecado só pode consistir na proposição da suspensão do processo, e que, por consequência, há de ser precedido do ato de recebimento da denúncia.

Neste contexto, o máximo que pode ser feito neste juízo – e nisso para acompanhar o entendimento já editado pelo julgado do TJMG, acima referido –, neste instante é, e ainda, apenas para aproveitar a presença da acusada, que rigorosamente ainda não foi citada (pela ausência justa da instauração da ação penal) e sua defensora, informalmente indagá-la se haveria interesse na suspensão.

Em relação a esta consulta foi feita e obtida a manifestação positiva.

Destarte, retorne a Carta Precatória ao juízo deprecante para que, depois de recebida a denúncia, volte a este juízo para apresentação das condições a denunciada para início do período suspensivo.

Publicada nesta audiência, dou os presentes por intimadas.

Cumpra-se.

Goiânia, 22 de novembro de 2013.

 

Denival Francisco da Silva

Juiz Eleitoral


#. Diferença!

#

A diferença entre o gráfico

e a realidade, é a desigualdade

de quem está fora e dentro da grade.

… É a resistência.  É a banalidade.

 

(Poemas: entre significantes e significados. Denival Francisco da Silva. Goiânia: KELPS, 2012)


SERÁ QUE DESAPREENDI? Onde se ensina esse (não) direito que está sendo aplicado?

Me formei em direito no ano de 1992, nos primórdios da nova Constituição e sob o entusiasmo dela. Em 1993 assumi a magistratura e como juiz, sempre soube que antes do trânsito em julgado de sentença condenatória não se fala em execução de pena, sobretudo se o condenado aguardou em liberdade toda instrução processual. Quanto ao trânsito em julgado, é situação que torna definitiva a decisão judicial, não comportando mais nenhuma intervenção do juízo e, porquanto, não se há como fatiar julgamento com trânsitos parciais.

Sabia também – porque isso se aprende no banco da faculdade – que quando o réu for condenado a uma pena privativa de liberdade no regime semi-aberto ou aberto, para marcar o início da execução, realizava-se uma audiência admonitória para apresentação ao sentenciado das condições impostas ao regime, na qual deverão estar presentes também o defensor e o presentante do Ministério Público. Mais, que nessas hipóteses não se expedia mandado de prisão, mas mandado de intimação do condenado para a referida audiência, bem como do seu defensor.

Aprendi, ainda, que para tais regimes se permite o trabalho do condenado fora do estabelecimento carcerário, porque o sistema penal não lhe oferece opções de trabalho dentro das próprias unidades prisionais, e que neste caso, a pena deve ser cumprida no local onde o condenado já tem atividade laboral definida, devendo recolher-se apenas à noite e fins de semana.

Percebi, muito, mas muito antes de qualquer Súmula do STF, que algema é instrumento de contenção de detidos e que só pode ser utilizados em situações extremas, quando efetivamente houver risco à segurança dos condutores e/ou tentativa de fuga do conduzido. Aliás, em 20 anos de magistratura, nunca realizei audiência em que o acusado ou condenado, estivesse algemado.

Amparado no texto constitucional que coloca a dignidade humana como eixo gravitacional de toda ordem jurídica, somado ao sentimento nato de preservação desse valor supremo, desde o início de minha atividade judicante percebi a necessidade e importância de se atentar para as condições pessoais do preso e acudi-lo, com providências oficiais, toda vez que era acometido com problemas de saúde, ou suas condições físicas não permitia que cumprisse a pena como imposta, criando-se-lhe, então, alternativas para o caso (por vezes fora de qualquer previsão legal, mas dentro da ótica principiológica indissociável dos direitos e garantias fundamentais).

Compreendi, desde cedo, que a execução – como o processo penal como um todo – é um sistema de garantias ao acusado/condenado, não podendo ser instrumento de cerceamento de direitos e negação de garantias fundamentais, muito menos palco para que o juiz pudesse vangloriar seu poder, ou escarnecer o condenado.

Aprendi tantas outras coisas e senti o sofrimento humano. Apreendi a ver o outro como ser dotado de direitos e dignidade, independentemente de ser um acusado ou condenado criminalmente, pois só assim estaria apto a julgar e não alguém pronto a execrar e exterminar outro ser humano.

… É, parece que não é mais assim! Será que fiquei estagnado no tempo e deixei de acompanhar a evolução do conhecimento e as realidades de agora? Ou será que a Constituição Federal foi modificada sem que se dessem notícias?


PORRA! Que porra é essa?

Porra-louca! (Porra, que louco! Como se escreve isso depois da reforma ortográfica?).

Porra nenhuma! É possível?

- Porra, que porra é essa?

Todo idoso foi um dia adulto não idoso (salvo Benjamim Button que nasceu velho e morreu bebê), que por sua vez foi adulto e que antes fora jovem, sobrevivido da adolescência onde teve tudo para ser, mas conseguiu superar, ou não teve escapatória incorporando para sempre o tal porra-louca. Todo adolescente foi outrora criança que havia sido antes um bebê. O bebê foi nascituro, que era feto, e que era óvulo que recebeu a visita permanente de um espermatozoide e que foi…

- Porra, entendeu né!?!

O fato é que todos nós já fomos uma porra qualquer algum dia e se agora te chamam de porra nenhuma significa que você passou a ser nada. Nada mesmo, muito pior do que voltar a origem, quando alguma porra você era.

Em relação ao nominativo de porralouca (ainda continuo com a porra de uma dúvida de como escreve isso), imagino seja o indivíduo nascido da conjunção de um óvulo careta que vestido solenemente para o encontro nupcial, se vê penetrado por um espermatozoide que desdenhou todos os seus milhões de concorrentes, tendo saindo por último na corrida da fertilização, nadou de ré, fez performances pelo caminho e ainda chegou primeiro.

Que porra-louca a nossa origem, não!  Com milhões e milhões de espermatozoides à disposição vindo ao seu encontro, o óvulo tantas e tantas vezes maior se contenda com unzinho! E não é qualquer unzinho, simplesmente o que chegar primeiro!

Mas será que na porra de nossa vida, o mérito é simplesmente de quem chega primeiro? Resta saber como se faz para estar na dianteira e que nem sempre significa estar a frente do seu tempo.  No mundo real o primeiro a ser escolhido e a forma de seleção se dá numa disputa desigual, onde as condições de competição favorecem os previamente eleitos. Nesta falsa concorrência tem muito porra-nenhuma ganhando espaço e notoriedade sem o merecer. Não sem razão, depois, não fazem porra-alguma de importante para a sociedade, ao contrário, agem exclusivamente para atender a porra de seus interesses, sem conseguir enxergar nada mais ao seu redor.

Quanto ao porra-louca é ser idealista, vanguardista, é se atirar primeiro. Puro ato de porra-louquismo. Assumir posicionamentos diferentes do trivial e ter que enfrentar, por vezes, a incompreensão e rejeição, numa sociedade conservadora, cheia de preconceitos, cujos prenúncios se dão justamente com a negação de tudo isso. Os porras-loucas, para se assumirem como tais, devem estar preparados para o repúdio e por vezes têm que lidar inclusive com a sanha odiosa dos que não aceitam a pluralidade e não admitem as diferenças. Mas o verdadeiro porra-louca não se entrega e luta para superar o conservadorismo, as velhas práticas e rancores tradicionais, no desejo de alcançar conquistas e ganhos coletivos.

Afinal, o que seria o mundo atual e da própria sociedade sem aqueles que se colocam na condição de controversos e incompreendidos, os que morreram por um ideal e foram mártir de uma causa, os porras-loucas de seu tempo?


ESTOU FARTO! De tantas fantasias, farturas, falácias..

Estou farto de ouvir “eu fiz a minha parte!”

E quem te disse qual a parte te pertence?

Ou quem te disse que basta cumprir uma parte, sobretudo se a tal parte cumprida nada mas é que uma fagulha do infinito a partir de uma conduta que você escolheu, conforme suas felicitações?

Estou farto do fracasso, do fragmento, do flagelo, da fatia, do frango de feira, do farelo e de tudo que sobra numa festa, num mundo de famintos e fragilizados.

Estou farto de quem diz ter feito, enquanto tudo continua como dantes, como se fosse fossa a céu-aberto. Estou farto de quem havia de ter feito, mas preferiu faturar a sorte e o destino do outro para facilitar a sua existência.

Estou farto de fratricidas, fanfarrões, futriqueiros, fofoqueiros, de fedidos enfiados em qualquer funeral, de fodidos. Estou farto desses que se passam por felizes, mas no fundo são verdadeiros favorecidos e que não sabem o que é o fardo dos infelizes.

Estou farto de tudo que não é fácil, e que ao final revela-se como fenecimento. Estou farto da fiança, irmã gêmea da desconfiança. Estou farto daqueles que fogem dos afazeres e debitam a má-sorte na fé alheia.

Estou farto e fulo de tanta falação enfadonha, furtiva e fugidia, das falanges e dos folgados. Estou farto dos feriados e finais de semana, das fantasias que servem para encobri r as festividades daqueles que furtam a felicidade de tantos que se ferram nas feiras dos dias úteis.

Estou farto de ouvir falar do futuro (festivo ou de fatalidades) sem que se faça no presente.

Estou farto da forçação de barra dos pelegos, dos falidos, dos falsários e das fraudes para a fama.

Estou farto do fusca que não se vê como relíquia, mas de estorvo na pista que te faz frear apressadamente. Mas estou também farto da Ferrari.

Estou farto das farras do boi, da fumaça que dão no dinheiro público, do falatório no lugar comum, da fezinha na sena e das promessas de fatiar com todos os desafortunados em caso de fatura de todas as fezinhas alheias.

Estou farto das firulas no futebol, do frango do goleiro, da fortuna dos cartolas, da fuzarca da torcida, dos favores da arbitragem, do festival de baboseira dos comentaristas, das finanças e fanfarrice da Fifa (…e de todas as equipes que começam com F…).

Estou farto do facebook, do fenômeno da fama efêmera, do festival de futilidades, falsas filosofias e faturamento sobre a fé de folguedos.

Estou farto das favelas, de futricas, de fugas, sejam fantasiosas ou para fazer favor.

Só não farto de ver faltar feijão, frango, farinha, frutas, felicidade  … a quem tem febre e fome. E o que me resta de fé, afiancei em Francisco!


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