Depois da surpreendente renúncia do Papa Bento XVI – para alguns comentaristas mais envoltos com as questões internas e políticas da Igreja Católica, nem tanto, mas algo há certo tempo previsível – o mundo se volta para a Praça São Pedro, ou melhor, continua com os olhos arregalados em tudo que transcorre por ali, agora ansioso com o desfecho do conclave que escolhera o novo pontífice.
Já se tem aí uma verdadeira versão Big Brother global, com viés católico, porque os olhos de todos miram a chegada dos participantes do conclave, trajando batinas pretas, com suas cintas e solidéu (chapéu) vermelhos. Todas as câmeras e flashes os procuram esperando ver escapar alguma informação importante. Porém, uma vez trancafiados para o conclave se isolam do mundo. A propósito, pouca novidade quanto a este ostracismo, dado ao distanciamento que a Igreja se impõe em diversas questões, como se vivesse noutra realidade, desmotivando e desacreditando antigos e novos fieis.
Embora a Igreja seja uma instituição regada de tradições e conservadorismos, para cada conclave há fatos novos e relevantes a serem notados. Neste caso, situações mais do que especiais tornam-no completamente distinto de qualquer outro, como ainda assim poderia ser mais audacioso.
O fato é que apesar do vazio da Cadeira de São Pedro existe um papa vivo (emérito), e que se viu na contingência de abandonar o posto por questões não tipicamente da tarefa missionária da Igreja, mas em razão dos assomos pecaminosos de alguns de seus membros, enlodando o Vaticano (o que também não é novidade). Apesar disso, as pilastras e alicerces que sustentam o complexo de prédios da Praça São Pedro sequer tremeram. Como não ruíram as estruturas físicas, lá se foi o pontificado e com ele o Papa que não conseguiu superar os desafios de reconstrução da estrutura moral e resgate dos compromissos cristãos de sua cúria.
A abdicação ao trono pelo Papa Bento VXI – para alguns gesto de humildade, outros de ingovernabilidade, outros tudo isso e muito mais – , fez com que a instituição Igreja, projeto de pacificação e harmonia, se apresentasse envolta em tempestades – talvez esteja aí o grande ato virtuoso do Papa abdicante, e ao mesmo tempo o reconhecimento de sua incapacidade de enfretamento dos problemas internos, e neste caso, por falta da liderança e comando político – revelando que também é uma entidade repleta de falhas, de vaidades (sobretudo de vaidosos), de disputa de poder, de articulações políticas para salvaguardar interesses pessoais ou particulares, de intrigas, conchavos, traições. Enfim, toda forma de vilania humana e tentações contra as quais o ensinamento cristão repudia. Mais do que a repulsa religiosa em razão do pecado, muitas destas condutas sobrepuseram os limites do Código Canônico (que pouca ou nenhuma serventia teve), consistindo em ilícitos penais graves, em qualquer parte do mundo, conquanto seus agentes viram-se protegidas pelas cercanias territoriais e diplomáticas do Vaticano (salvo o mordomo que sempre é o culpado!).
Os escândalos sucessivos no IOR (Instituto para as Obras de Religião), ou simplesmente Banco do Vaticano, revela a podridão deste braço financeiro da Igreja Católica, não só pelas operações fraudulentas e lavagem de dinheiro ocorridas nos últimos anos – como se dinheiro destinados às ditas obras cristãs não precisassem de cumprir rigorosas e austeras contabilidades e se sujeitarem as normas do sistema monetária italiano (porque grande numerário dos valores do Banco do Vaticano passa pelos agentes financeiros de Roma) e internacional, como qualquer outra instituição financeira – , mas, sobretudo, pela opacidade dos investimentos financeiros, inclusive com suspeita de parcerias em atividades se não ilícitas, no mínimo incompatíveis com a ideia cristã, como a hipótese de participação societária em empresas que fabricam navios de guerra. Parece que a resposta é simples: se é um segmento lucrativo, que mal tem!
Ora, diante de tantos absurdos e cupidezes, e havendo necessidade de salvaguardar as finanças do IOR (até porque com orações não será bastante) enterradas num lamaçal de administrações irresponsáveis e criminosas, será que os mercenários de prontidão não imaginaram da possibilidade da comercialização dos direitos de exclusividade de transmissão do conclave ao vivo? Imaginem quantos impérios de comunicação espalhados em diversos países não disputariam a base de muitos e muitos dólares esta exclusividade? Quantos patrocinadores se apresentariam com o fim de sustentar esta odisseia? Se resultar em pagamento, não haveria porque questionar a qualidade dos patrocinadores, inclusive se poderia admitir propagandas de produtos que afetam a própria fé cristã ou contrapõem a ideia de religiosidade.
Do ponto de vista midiático, seria fantástico. Pensem nos milhões e milhões de pessoas interessadas e ligadas neste Big Brother Vaticano, muitos inclusive não católicos e que poderiam ser cooptados para a doutrina que ano após ano perde fiéis em todo planeta.
Ah, isso sim seria a glória. Dois coelhos numa cajadada só, fazer caixa e ampliar o número de adeptos. E a justificativa seria simples: - Pois bem, não pediram a modernização da Igreja? Aí está! Rompemos o que se tinha de mais arcaico para adentramos definitivamente no nosso tempo. Somente atualizando-se que a Igreja poderá atender os reclamos cristãos da sociedade atual, e não se pode fazer isso sem recursos.
Do outro lado, como acontece sempre quando os personagens e figurantes se veem frente às câmeras e flashes (pavios que acendem as vaidades), haveriam discursos inflamados, retóricas em latim, desafios a colegas e quem sabe dedos em riste e pedidos de composturas (só para exemplificar, assistimos isso nas transmissões dos julgamentos no STF).
O conclave teria tempo certo de duração (ao contrário do que manda a tradição), com início, meio e fim pré-estabelecidos, no mínimo 60 dias (para justificar os investimentos dos patrocinadores). Assim, as empresas midiáticas contempladas com a exclusividade do direito de transmissão, teriam oportunidade de organizarem suas pautas e prepararem o grande finale, com torcidas organizadas (conforme a tendência de cada nacionalidade dos cardeais ainda no páreo), bolsas de apostas, vinhetas para cada personagem integrante deste heality show, e tudo mais.
A cada rodada de votações e nomes de papaveis não mencionados (todo participante do conclave, com idade inferior a 80 anos é um possível Papa), ocorreriam os paredões, significando que doravante passariam a condição de ex-papaveis, perdendo, para eles, um pouco o interesse do grande público. Em contraposição, os votados iriam ascendendo à condição de líderes e afunilando a disputa.
Até que enfim, em pleno horário nobre (conforme fuso da sede da emissora e seu público), na data agendada para término do programa, poderia ser anunciado: Habemus papam! Entretanto, ao invés da figura do cardeal decano, na sacada em frente à Praça São Pedro, onde tradicionalmente a população se aglomera com os olhos fixos na chaminé da Capela Sistina, compareceria no quarto e último bloco do programa o âncora mais famoso (senão um artista de enorme expressão de hollywood, contratado especialmente para comandar o show), fazendo todo aquele joguinho já conhecido (sei quem é mas não te conto!), criando-se expectativas e tensões, dirigindo-se aos presentes – afortunados de diversas nacionalidades e que pagariam vultosas somas para ter o privilégio de assistirem tudo de perto e ao vivo – quem poderia ser o novo pontífice.
Depois de toda esta encenação, seriam finalmente abertas as cortinas onde se encontrariam todos os cardeais sentados. Aí, o apresentador com a opulência de poder dizer ao mundo quem é o novo Papa, caminharia entre os cardeais integrantes do Colégio Cardinalício, para alçar o eleito e imediatamente conduzi-la para uma entrevista exclusiva, ao vivo.