Arquivo da categoria: Crônicas e Poemas

#. Diferença!

#

A diferença entre o gráfico

e a realidade, é a desigualdade

de quem está fora e dentro da grade.

… É a resistência.  É a banalidade.

 

(Poemas: entre significantes e significados. Denival Francisco da Silva. Goiânia: KELPS, 2012)


PORRA! Que porra é essa?

Porra-louca! (Porra, que louco! Como se escreve isso depois da reforma ortográfica?).

Porra nenhuma! É possível?

Porra, que porra é essa?

Todo idoso foi um dia adulto não idoso (salvo Benjamim Button que nasceu velho e morreu bebê), que por sua vez foi adulto e que antes fora jovem, sobrevivido da adolescência onde teve tudo para ser, mas conseguiu superar, ou não teve escapatória incorporando para sempre o tal porra-louca. Todo adolescente foi outrora criança que havia sido antes um bebê. O bebê foi nascituro, que era feto, e que era óvulo que recebeu a visita permanente de um espermatozoide e que foi…

Porra, entendeu né!?!

O fato é que todos nós já fomos uma porra qualquer algum dia e se agora te chamam de porra nenhuma significa que você passou a ser nada. Nada mesmo, muito pior do que voltar a origem, quando alguma porra você era.

Em relação ao nominativo de porralouca (ainda continuo com a porra de uma dúvida de como escreve isso), imagino seja o indivíduo nascido da conjunção de um óvulo careta que vestido solenemente para o encontro nupcial, se vê penetrado por um espermatozoide que desdenhou todos os seus milhões de concorrentes, tendo saindo por último na corrida da fertilização, nadou de ré, fez performances pelo caminho e ainda chegou primeiro.

Que porra-louca a nossa origem, não!  Com milhões e milhões de espermatozoides à disposição vindo ao seu encontro, o óvulo tantas e tantas vezes maior se contenda com unzinho! E não é qualquer unzinho, simplesmente o que chegar primeiro!

Mas será que na porra de nossa vida, o mérito é simplesmente de quem chega primeiro? Resta saber como se faz para estar na dianteira e que nem sempre significa estar a frente do seu tempo.  No mundo real o primeiro a ser escolhido e a forma de seleção se dá numa disputa desigual, onde as condições de competição favorecem os previamente eleitos. Nesta falsa concorrência tem muito porra-nenhuma ganhando espaço e notoriedade sem o merecer. Não sem razão, depois, não fazem porra-alguma de importante para a sociedade, ao contrário, agem exclusivamente para atender a porra de seus interesses, sem conseguir enxergar nada mais ao seu redor.

Quanto ao porra-louca é ser idealista, vanguardista, é se atirar primeiro. Puro ato de porra-louquismo. Assumir posicionamentos diferentes do trivial e ter que enfrentar, por vezes, a incompreensão e rejeição, numa sociedade conservadora, cheia de preconceitos, cujos prenúncios se dão justamente com a negação de tudo isso. Os porras-loucas, para se assumirem como tais, devem estar preparados para o repúdio e por vezes têm que lidar inclusive com a sanha odiosa dos que não aceitam a pluralidade e não admitem as diferenças. Mas o verdadeiro porra-louca não se entrega e luta para superar o conservadorismo, as velhas práticas e rancores tradicionais, no desejo de alcançar conquistas e ganhos coletivos.

Afinal, o que seria o mundo atual e da própria sociedade sem aqueles que se colocam na condição de controversos e incompreendidos, os que morreram por um ideal e foram mártir de uma causa, os porras-loucas de seu tempo?


ESTOU FARTO! De tantas fantasias, farturas, falácias..

Estou farto de ouvir “eu fiz a minha parte!”

E quem te disse qual a parte te pertence?

Ou quem te disse que basta cumprir uma parte, sobretudo se a tal parte cumprida nada mas é que uma fagulha do infinito a partir de uma conduta que você escolheu, conforme suas felicitações?

Estou farto do fracasso, do fragmento, do flagelo, da fatia, do frango de feira, do farelo e de tudo que sobra numa festa, num mundo de famintos e fragilizados.

Estou farto de quem diz ter feito, enquanto tudo continua como dantes, como se fosse fossa a céu-aberto. Estou farto de quem havia de ter feito, mas preferiu faturar a sorte e o destino do outro para facilitar a sua existência.

Estou farto de fratricidas, fanfarrões, futriqueiros, fofoqueiros, de fedidos enfiados em qualquer funeral, de fodidos. Estou farto desses que se passam por felizes, mas no fundo são verdadeiros favorecidos e que não sabem o que é o fardo dos infelizes.

Estou farto de tudo que não é fácil, e que ao final revela-se como fenecimento. Estou farto da fiança, irmã gêmea da desconfiança. Estou farto daqueles que fogem dos afazeres e debitam a má-sorte na fé alheia.

Estou farto e fulo de tanta falação enfadonha, furtiva e fugidia, das falanges e dos folgados. Estou farto dos feriados e finais de semana, das fantasias que servem para encobri r as festividades daqueles que furtam a felicidade de tantos que se ferram nas feiras dos dias úteis.

Estou farto de ouvir falar do futuro (festivo ou de fatalidades) sem que se faça no presente.

Estou farto da forçação de barra dos pelegos, dos falidos, dos falsários e das fraudes para a fama.

Estou farto do fusca que não se vê como relíquia, mas de estorvo na pista que te faz frear apressadamente. Mas estou também farto da Ferrari.

Estou farto das farras do boi, da fumaça que dão no dinheiro público, do falatório no lugar comum, da fezinha na sena e das promessas de fatiar com todos os desafortunados em caso de fatura de todas as fezinhas alheias.

Estou farto das firulas no futebol, do frango do goleiro, da fortuna dos cartolas, da fuzarca da torcida, dos favores da arbitragem, do festival de baboseira dos comentaristas, das finanças e fanfarrice da Fifa (…e de todas as equipes que começam com F…).

Estou farto do facebook, do fenômeno da fama efêmera, do festival de futilidades, falsas filosofias e faturamento sobre a fé de folguedos.

Estou farto das favelas, de futricas, de fugas, sejam fantasiosas ou para fazer favor.

Só não farto de ver faltar feijão, frango, farinha, frutas, felicidade  … a quem tem febre e fome. E o que me resta de fé, afiancei em Francisco!


O PARA É POP! Os Ianques, piratas!

O PAPA É POP!

(Os Ianques, piratas!)

 

Paparam as palavras do Papa.

Porém poucas para as potestades

Paternais, cujas privacidades

Permanecem nas paredes dos

Prédios do seu poder papal.

E o Papa, que é pop, poupou

Polemizar as peripécias piratas.

Postado perante o Pai e

Preluzido pelo paracleto,

Pediu paciência e piedade:

“Pobres pessoas  pecadoras.

Pai perdoa-as, porque pecaram

pela privação desse parlatório!”

 

Mote:

A NSA pode ter ouvido o futuro papa Francisco no período que antecedeu a sua eleição, em março.

Citando um documento, supostamente, fornecido por Edward Snowden, a revista Panorama alega que a NSA interceptou cerca de 46 milhões de chamadas telefônicas na Itália entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013, entre elas as chamadas para e do Vaticano.  

A revista alega que a NSA interceptou as chamadas internas e externas da residência onde os cardeais permaneceram antes do conclave no qual o papa Francisco foi eleito e que as conversas dele podem ter sido monitoradas em seguida.

As chamadas do Vaticano estavam selecionadas para receberem tratamento especial por parte da agência de inteligência e foram classificadas em uma das seguintes categorias: intenções de liderança, ameaças ao sistema financeiro, política externa e direitos humanos.

A NSA negou veementemente o conteúdo da publicação e o Vaticano colocou, rapidamente, ‘panos quentes’ sobre a questão de espionagem.

O padre Federico Lombardi, o porta-voz do Vaticano, respondeu: “Não temos conhecimento de nada sobre esta questão e, em qualquer caso, não temos preocupações sobre o assunto.”

Mais: http://news.panorama.it/cronaca/papa-francesco-intercettato-ecco-come. Pesquisa em 02/11/2013


“TOMATE” É UM ADOLESCENTE QUE SOFRE “BULLYING”. Agora é culpado pela alta da inflação e pela criminalidade.

Tomate é o apelido de Pedro Assis, porque sempre teve a pele bem clara que reflete o sangue de suas veias, principalmente quando está nervoso. Sabendo disso a molecada gosta sempre de azucriná-lo, só para vê-lo incandescente, na cor e na raiva.

Isso começou quando ainda tinha oito anos e até hoje, aos 16 anos, é constantemente provocado. Com o tempo passou a ser azedo, feito um tomate verde, ainda que sua tonalidade demonstrasse estar cada vez mais vermelho. A única coisa que amadurecia nele era o ódio daquelas chacotas e a vontade de esganar, um a um, todos aqueles que gostavam de zombá-lo. Ódio maior sentia dos adultos que, mesmo quando não o chamava pelo apelido, não se importavam quando outros menores o faziam e riam da situação ao vê-lo enfurecido.

Descontava sua ira geralmente nos mais frágeis. Às vezes, do nada, resolvia dar uns croques, uns bons safanões e ameaçar meninos menores. Passou a ser o temido e rejeitado. Não tinha amizades firmes na escola. Geralmente contatos esporádicos com um ou outro colega, com respeito mútuo, mas sem aquela afinidade típica de uma amizade. Nas brincadeiras, não era o escolhido da vez. Quase sempre era o último, quando já faltava opção.

Tudo isso represava no Pedro que não tinha nenhuma atenção da diretora ou de algum outro professor.

Enquanto isso, o tomate verdadeiro, que não tem culpa de ser sensível ao excesso de chuva, se via em dificuldade, rareando no mercado, o que fez aumentar sua demanda e por consequência seu preço.

Pois bem. Em razão destes últimos fatos, nestes dias a imprensa só falava da alta do tomate, como vilão da inflação. Aí as coisas desandaram de vez. A meninada que não tem noção do que vem a ser isso “infração” (na verdade inflação), mas só ouve dizer que é coisa ruim, associou imediatamente à figura do tomate, aquele menino rude e agressivo da escola.

Agora é que ficou mesmo isolado. Logo notou o motivo e mesmo sem compreender também a história da inflação, sentiu que aquilo estava servindo de piadas e mais ironias consigo, graças ao apelido que odiava.

Não foi nada. Aproveitando o enfoque do tema a professora de matemática resolver tratar do assunto inflação em sala de aula, para explorar as questões numéricas que dali extrairia. Então começou a enfatizar sobre a alta do tomate e sua responsabilidade pelo aumento da “infração”. A turma ficou de risinho no canto da boca e olhando enviesado para o danado do tomate que sentava no meio de fileira rente à parede. Ele foi percebendo aquilo e se constrangendo cada vez mais, assumindo a tonalidade do tomate maduro, até que não aguentou. Saltou de sua cadeira e sem nenhuma palavra avançou sobre a professora e começou a agredi-la severamente, com socos, pontapés e com uma pequena caixa de madeira (daquelas de guardar giz) que abriu o supercílio da mestra.

Foi uma gritaria geral com pedidos de socorro. O agito acionou outros professores de salas vizinhas que invadiram a sala. Com certo custo conseguiram conter o menino que tiveram que segurar até a chegada da polícia, imediatamente acionada. A ambulância chegou no mesmo instante para levar a vítima, com a roupa ensanguentada pelo corte na sobrancelha, atônita e emudecida.

Os comentários começaram a correr entre a meninada que se via apavorada. Os adultos naquela escola não deixavam por menos. “Eu sempre disse que esse menino era perigoso”, dizia uma professora. “Ainda bem que eu nunca dei intimidade a ele”, afirmava outra. Um servidor da portaria perguntava: “É verdade que ele já havia ameaçado a professora Izabel (vítima)? “É o que eu sempre digo, não podemos vacilar. Assim que percebermos que o aluno não tem condições de sociabilidade, devemos dar um jeito logo de excluí-lo daqui para evitar este tipo de problema que uma hora vai acontecer”, era o que afirmava outro professor. A diretora, embora também estivesse fuleira e intimamente aterrorizada com a situação, tentava apresentar-se serena, querendo tranquilizar e botar panos quentes, mas porque já previa a repercussão negativa que aquilo teria para a escola.

E pura aí iam os comentários.

Nisso a imprensa também foi chamada e as notícias começavam a expandir, inclusive com inserções ao vivo na programação da TV. Isso era 2ª feira, por volta das 11h, e as chamadas para o noticiário do meio-dia passaram a trazer as seguintes manchetes: “Por conta do tomate duas discussões importantes deverão entrar na pauta política do Brasil nesta semana: alta dos juros e a necessidade de redução da idade penal”; “Tomate é responsável pela inflação e pela infração: como combater estes maus?!”; e outros trocadilhos de mau gosto.


A MAGISTRATURA NÃO É A ÚLTIMA FLOR DO DESERTO. Melhor sair em busca de um jardim do que ter a insatisfação de uma flor ilusória.

A pressão dos primeiros meses já não era irascível, mas já conseguia controlar a ansiedade como quem esperou muito pela partida final na expectativa da decisão. Na verdade essa tensão durou pouco, até antes de entrar em campo e tão logo passados os primeiros minutos dominava tranquilamente aquela situação, lidando como se fora apenas mais um jogo em disputa.

A preocupação com acerto ou desacerto de suas decisões, algo até pouco infatigável e motivo de insônias, não poluía mais a sua mente num tormento sem fim; logo aprendera que tudo dependia de um agir com responsabilidade e compromisso ético, virtudes que havia recebido na formação familiar.

Não se surpreendia mais com o novo porque notou que o inusitado era realidade constante naquele ofício e que a cada dia revelava-lhe algo diferente, para o qual deveria debruçar-se detidamente. As angústias daqueles que vinham acorrer às suas decisões nunca se assemelhavam. Cada um trazia suas próprias cicatrizes; suas dormências; seus pesadelos; seus carmas; suas paixões; seus credos; suas cruzes; seus dramas; seus desejos e pretensões; suas esperanças e crenças; seus enganos; seus erros; suas loucuras; suas inocências; seus medos; seus dedos em riste ou o coração em sangria; suas aflições, urgências, maledicências; seus receios.

Logo percebeu que tudo, por mais igual que podia parecer, era sempre único e particular e para toda causa os demandantes queriam dele um olhar detido, contido, retido, preciso, atento, e não apenas “mais um olhar” ou um gesto autômato, burocrático de empilhar autos e contabilizar  as fileiras de números estatísticos.

Os mitos jurídicos o entediavam. E o entediava ainda mais na medida em que ia conhecendo as entranhas do ofício, percebendo que aquela roupagem que lhe fora apresentada na chegada, com a qual deslumbrava antes de conseguir êxito no concurso de juiz, eram verdadeiros placebos para ocultar a ignominia, as fragilidades, e sobretudo a pose de agentes comuns, mas que se entendiam e se portavam como seres sublimados.

Era tanto discurso vazio. Tanta chatice. Tantas aporrinhações de pessoas enclausuradas nas suas mantas negras, como verdadeiros batman’s sobre Gotham City, os redentores da moralidade pública, da segurança e da tranquilidade social. Tudo engodo que o fazia envergonhar diante dos clamares que lhe eram apresentados. Passou a ver naquelas lamúrias as duas faces da carreira: o servilismo de uma estrutura social massacrante, trocada por alguns privilégios apelidados de prerrogativas, e a rudeza do ofício por muitos achado superior.

Não dava para tolerar isso. Nem teve dúvidas. Depois de tudo dominado, como quem amassa burro bravo, não era mais culpa sua a perturbação e insatisfação. Já não havia o que temer e não tinha razões para amuar diante de nenhum possível obstáculo. Não era culpa sua, decididamente!

Constatado isso, não relutou. Abandonou tudo e foi-se, para o escárnio dos que ficaram e conjecturas de tramas e perturbações, como se estivesse desistindo da joia do Nilo ou abandonando a flor do deserto, resistentes às sagas de muitos que sequer tiveram a chance de procurá-la, enquanto ele, não obstante a aridez do destino tinha tudo as mãos, mas abandonava livremente para um mergulho na imensidão do nada (ou do tudo!). Bochichos, fuxicos, lamentos, elogios (falsos ou não, mas também motivos de enojamento), especulações, tudo uma armadilha a nós enredar.

Ele, tranquilo, todavia, indo embora sem dar justificativa – porque de fato não a devia – abandonando aquilo que para muitos – e justamente os que mais lamentam e dizem-se desvalorizados – era a última flor do deserto.

Muitos ficam, não por verdadeira afinidade à causa (nobre se exercida com altivez e responsabilidade), mas amolecidos (embora sempre lamentando) pelas remunerações, garantia da estabilidade do serviço público, pelos adornos e deferências públicas, privilégios (que chamam de prerrogativas) e cortesias baratas. Outros preferem a satisfação pessoal, e ao invés de procurar uma flor (desde logo percebida ilusória), quer um jardim.


O QUE QUEREM ESTES ASSALTANTES? Da necessidade da conversa para compreender o outro.

Estamos cheio de pretensos assaltantes. Não destes que se encabulam com o patrimônio alheio, seja por necessidade ou porque envolvidos na ideia de consumo e que suas posses não permitem, mas daqueles feitos o velho maltrapilho da narrativa de Mia Couto no conto O assalto (*). Trata-se de um personagem velho e maltrapilho que rende suas vítimas apenas para obter um pouco de prosa.

Acontece que nossos carentes e pretensos assaltantes ainda não conseguiram exercer o ofício, por ausência do bem precioso que pode(ria)m dispor suas vítimas. E de nada adiantaria subjugá-las, porque o gato terá engolido suas línguas, deixando-as ainda mais empobrecidas do bem procurado do que o próprio assaltante teria para oferecer.

Este é o grande dilema da vida moderna, de tempo escasso para um dedo de prosa, tête-à-tête. Os campos e espaços destinados aos diálogos na atualidade são virtuais. As conversas são feitas no facebook (e em outra rede social na internet), onde todo mundo se diz amigo de todo mundo, porém ninguém se conhece.

Aliás, nas redes sociais, o usuário ao meter a imagem no seu perfil, sequer perfil sobra (não sei quem inventou isso, mas quem o fez tem hoje infinitos plagiadores). Em geral o usuário enfia no lugar reservado para foto um avatar. Aí dá de tudo. É figurinha de gibi (talvez só Freud para explicar!), uma logomarca ou símbolo. Quando insere à própria imagem vem às cegas, com o rosto pela metade (vertical ou horizontal), ou de costas, ou camuflada nuns imensos óculos, chapéus atolados, barba (ou sem ela, sempre diferente do seu cotidiano), etc.

Enfim, tudo para não ser reconhecido. Mas então não me convide para ser amigo. Não consigo me imaginar amigo de alguém meia-boca, ou melhor, meio-rosto, de uma figura dos quadrinhos (ainda que seja um personagem querido). Se o indivíduo não quer ser reconhecido no mundo real é melhor que não procure amigos, ainda que virtuais.

Será que estas vias virtuais não é forma de se assaltar também, e daí a camuflagem? Ou os disfarces decorrem de outros medos? Da fala mal interpretada? Da irresponsabilidade com o que se diz? Do nada para dizer e ouvir, apenas reproduzir? Do medo de não ser ouvido, visto, sentido…

Parece mesmo que estamos todos carentes, precisando assaltar e de sermos assaltados para um teco de boa conversa. Um dedo de prosa. Uma fagulha de diálogo. Daqueles bate-papos descompromissados, com olho no olho, com sorriso farto, sem expressão de pressa ou impaciência. Da conversa amiga e sincera onde a um só tempo os participantes são falantes e ouvintes.

Precisamos ter capacidade para acolher outros assaltantes mais necessitados, fazendo-os criminosos sem crime algum, porque impossível, se quando do assaque ofertamos livremente e com prazer a conversa desejada, e antes, permitindo-lhes que se expressem, deem palpites e se lhes convierem nos peçam opiniões. É preciso que sintamos estes outros e ouvi-los. Aqueles que menos falam são os que mais têm a dizer, porque sabem contar dos sofrimentos, dos abandonos, das indiferenças, das desigualdades que experimentam, inclusive porque, para estes, o mundo moderno sequer propicia-lhes a oportunidade para uma conversa virtual, bom esconderijo e placebo para quem está carente das velhas conversas.

(*) O assalto

Uns desses dias fui assaltado. Foi num virar de esquina, num desses becos onde o escuro se aferrolha com chave preta. Nem decifrei o vulto: só vi, em rebrilho fugaz, a arma em sua mão. Já eu pensava fora do pensamento: eis-me! A pistola foi-me justaposta no peito, a mostrar-me que a morte é um cão que obedece antes mesmo de se lhe ter assobiado.

Tudo se embrulhava em apuros e eu fazia contas à vida. O medo é uma faca que corta com o cabo e não com a lâmina. A gente empunha a faca e, quanto maior a força de pulso, mais nos cortamos.

— Para trás!

Obedeci à ordem, tropeçando até me estancar de encontro à parede. O gelo endovenoso, o coração em cristal: eu estava na ante-câmara, à espera de um simples estalido. Cumpria os mandamentos do assaltante, tudo mecanicamente. E mais parvalhado que o cuco do relógio. O que fazer? Contra-atacar? Arriscar tudo e, assim sem mais nem nada, atirar a vida para trás das costas?

— Diga qualquer coisa.

— Qualquer coisa?

— Me conte quem é. Você quem é?

Medi as palavras. Quanto mais falasse e menos dissesse melhor seria. O maltrapilho estava ali para tirar os nabos e a púcara. Melhor receita seria o cauteloso silêncio. Temos medo do que não entendemos. Isso todos sabemos. Mas, no caso, o meu medo era pior: eu temia por entender. O serviço do terror é esse — tornar irracional aquilo que não podemos subjugar.

— Vá falando.

— Falando?

— Sim, conte lá coisas. Depois, sou eu. A seguir é a minha vez.

Depois era a vez dele? Mas para fazer o quê? Certamente, para me executar a sangue esfriado, pistolando-me à queima-roupa. Naquele momento, vindo de não sei onde, circulou por ali um furtivo raio de luz, coisa pouca, mais para antever que para ver. O fulano baixou o rosto, e voltou a pistola em ameaça.

— Você brinca e eu …

Não concluiu ameça. Uma tosse de gruta lhe tomou a voz. Baixou, numa fracção, a arma enquanto se desenvencilhava do catarro. Por momento, ele surgiu-me indefeso, tão frágil que seria deselegância minha me aproveitar do momento. Notei que tirava um lenço e se compunha, quase ignorando minha presença.

— Vá, vamos mais para lá.

Eu recuei mais uns passos. O medo dera lugar à inquietação. Quem seria aquele meliante? Um desses que se tornam ladrões por motivo de fraqueza maior? Ou um que a vida empurrara para os descaminhos? Diga-se de passagem que, no momento, pouco me importavam as possíveis bondades do criminoso. Afinal, é do podre que a terra se alimenta. E em crise existencial, até o lobisomem duvida: será que existe o cão fora da meia-noite?

Fomos andando para os arredores de uma iluminação. Foi quando me apercebi que era um velho. Um mestiço, até sem má aparência. Mas era um da quarta idade, cabelo todo branco. Não parecia um pobre. Ou se fosse era desses pobres já fora de moda, desses de quando o mundo tinha a nossa idade. No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território. Mas este não era um miserável emergido desses infernos. Foi quando, cansado, perguntei:

— O que quer de mim?

— Eu quero conversar.

— Conversar?

— Sim, apenas isso, conversar. É que, agora, com esta minha idade, já ninguém me conversa.

Então, isso? Simplesmente, um palavreado? Sim, era só esse o móbil do crime. O homem recorria ao assalto de arma de fogo para roubar instantes, uma frestinha de atenção. Se ninguém lhe dava a cortesia de um reparo ele obteria esse direito nem que fosse a tiro de pistola. Não podia era perder sua última humanidade — o direito de encontrar os outros, olhos em olhos, alma revelando-se em outro rosto.

E me sentei, sem hora nem gasto. Ali no beco escuro lhe contei vida, em cores e mentiras. No fim, já quase ele adormecera em minhas histórias eu me despedi em requerimento: que, em próximo encontro, se dispensaria a pistola. De bom agrado, nos sentaríamos ambos num bom banco de jardim. Ao que o velho, pronto, ripostou:

— Não faça isso. Me deixe assaltar o senhor. Assim, me dá mais gosto.

E se converteu, assim: desde então, sou vítima de assalto, já sem sombra de medo. É assalto sem sobressalto. Me conformei, e é como quem leva a passear o cão que já faleceu. Afinal, no crime como no amor: a gente só sabe que encontra a pessoa certa depois de encontrarmos as que são certas para outros.

(Mia Couto – Escritor moçambicano. Do livro Ficções 3 – Editora 7 letras)