Arquivo da categoria: Série: O que seria do crime, de A a Z

O QUE SERIA DO POBRE SEM O CRIME? (da série: O que seria do crime, de A a Z)

LETRA “P”

• O que seria do pobre sem o crime?

O crime é o espelho da ordem. Os delinquentes que povoam as prisões são pobres e quase sempre atuam com armas curtas e métodos caseiros. Se não fosse por esses defeitos da pobreza e do feitio artesanal, os delinquentes de bairro bem poderiam ostentar coroas de reis, cartolas de cavalheiros, mitras de bispos e quepes de generais, e assinariam decretos governamentais em lugar de apor a impressão digital ao pé das confissões.

Eduardo Galeano
(De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. p. 139)

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O QUE SERIAM DOS TESOUROS DO ESTADO SEM O CRIME? (Da série: O que seria do crime, de A a Z)

LETRA “T

Não se trata de profecia. Apenas o óbvio. A propósito dos movimentos em Wall Stret e em outros centros econômicos mundo afora!

O que seriam dos tesouros do Estado sem o crime?

  • Não receias que o pobre que é citado ao banco dos criminosos por ter arrancado um pedaço de pão pelas grades de uma padaria se indigne o bastante, algum dia, para demolir pedra por pedra a Bolsa, um antro selvagem onde se roubam impunemente os tesouros do Estado, a fortuna das famílias. (…) Não há, então, natureza criminosa, mas os jogos de força que, segundo a classe a que pertencem os
    indivíduos, os conduzirão ao poder ou à prisão.

Michel Foucault.

(Vigiar e Punir. 1987. p. 239-240)


O QUE SERIA DA SEGURANÇA PARTICULAR SEM O CRIME? (da série: O que seria do crime, de A a Z.)

LETRA “S”

  • O que seria da segurança particular sem o crime?
  • O medo é a matéria-prima das prósperas indústrias da segurança particular e do controle social. Uma demanda firme sustenta o negócio. A demanda cresce tanto ou mais do que os delitos que a geram e os peritos garantem que assim continuará. Floresce o mercado da vigilância particular e dos presídios privados, enquanto todos nós, uns mais, outros menos, vamos nos tornando sentinelas do próximo e prisioneiros do medo.

Eduardo Galeano

(De pernas pro ar:a escola do mundo ao avesso. p. 107)


O QUE SERIA DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA SEM O CRIME? (da série: O que seria do crime, de A a Z.)

LETRA “A”

  • O que seria da administração pública sem o crime?
  • Os ralos por onde vazam o dinheiro público seriam entupidos pelos corruptos… ou será que ainda haveriam outras fendas por onde se escoariam os recursos públicos?

O QUE SERIA DO POBRE SEM O CRIME? (da série: O que seria do crime, de A a Z.)

LETRA “P”

  • O que seria do pobre sem o crime?
  • O crime é o espelho da ordem. Os delinqüentes que povoam as prisões são pobres e quase sempre atuam com armas curtas e métodos caseiros. Se não fosse por esses defeitos da pobreza e do feitio artesanal, os delinqüentes de bairro bem poderiam ostentar coroas de reis, cartolas de cavalheiros, mitras de bispos e quepes de generais, e assinariam decretos governamentais em lugar de apor a impressão digital ao pé das confissões.
    Eduardo Galeano
    (De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. p. 139)

O QUE SERIA DO NOTICIÁRIO SEM O CRIME? (da série: O que seria do crime, de A a Z.)

LETRA “N”

  • O que seria do noticiário sem o crime?
  • Os pobres ocupam também, quase sempre, o primeiro plano da crônica policial. Qualquer suspeito pobre pode ser impunemente filmado e fotografado e humilhado quando detido pela polícia, e assim as tevês e os jornais ditam a sentença antes que se abra o processo. Os meios de comunicação condenam previamente, e sem apelação, os pobres perigosos, como previamente condenam os países perigosos.
    Eduardo Galeano (De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. p.298)

O QUE SERIAM DOS GASTOS PÚBLICOS SEM O CRIME? (da série: O que seria do crime, de A a Z.)

LETRA “G”

  • O que seriam dos gastos públicos sem o crime?
  • Nos últimos vinte anos (*), os gastos públicos em presídios aumentaram em novecentos por cento. Isto não contribui nem um pouco para atenuar o medo da população, que padece de um clima geral de insegurança, mas contribui bastante para a prosperidade da indústria carcerária. “Afinal, presídio quer dizer dinheiro”, conclui Nils Christie.

 Eduardo Galeano (De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. p. 116)                      

 (*) Já se vão alguns anos desde esta fala. Porém, anos e anos se passaram e a história é a mesma, senão pior.