Arquivo da categoria: Crônicas de ascensorista

“O BRASIL É UMA CRIANÇA QUE ENGATINHA; SÓ COMECARÁ A ANDAR QUANDO ESTIVER CORTADO DE ESTRADAS DE FERRO”: “Não se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos.”

A polícia federal trouxe a público ontem (05/07/2012) a “operação trem pagador”, na qual, dentre outros, prendeu-se temporariamente o ex-presidente da estatal Valec, responsável pela construção de linhas férreas no país, tendo como destaque a ferrovia norte-sul, empreendimento do governo federal que já sangrou recursos suficientes, no mínimo, para umas três ferrovias de igual porte.

Coincidentemente – dizem que coincidência e ato falho não existem; na verdade há sempre sintonia entre os acontecimentos, meio que justificado pelo efeito borboleta – , ainda ontem, eu estava lendo Machado de Assis quando me deparei com o conto Evolução, escrito antes de 1886, onde seus personagens a todo instante repetem a frase título deste artigo: “O Brasil é uma criança que engatinha; só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro”. O subtítulo, também muito providencial para os políticos de agora (e sempre), é trecho do conto.

Mais de um século depois da edição deste texto literário o transporte ferroviário no Brasil não evoluiu (como pronuncia o título do conto), ainda que sabidamente seja o meio de transporte de cargas mais barato e sem risco existente. A malha ferroviária brasileira, que já era minguada e deficiente nas mãos do poder público, diminuiu e foi sucateada consideravelmente a partir dos anos 1990, com processos de privatização nunca bem esclarecidos (como alguém adquire para sucatear ou desativar?).

Paralelo a isso, a história da ferrovia norte-sul transformou-se numa verdadeira novela, de mais de duas décadas, servindo sempre para discursos políticos de integração de regiões e canal de escoamento da produção agrícola e de minerais do interior do país para os portos. Passam anos e mais anos; inauguram-se trechos e voltam a reinaugurá-los em administrações seguintes; liberam-se recursos e esvaziam-se os cofres, mais nada da obra ser concluída.

Não sou adepto a estes efeitos midiáticos da polícia federal em suas investigações, para as quais sempre há uma preocupação de registro de batismo: “operação tal”. Parece até que se perde tempo e mais tempo bolando o nome a ser dado, porque tem que impactar ou no mínimo ser cômico (na legislação processual penal não existe o termo operação para a ação policial ou de qualquer outro agente de investigação). Todavia, não posso deixar de achar coerente o nome dado a esta investigação: “trem pagador”. Ao contrário do episódio famoso da história, cujo personagem encontrou abrigo no Brasil (seria coincidência, ou mais uma do efeito borboleta), neste caso o assalto impediu inclusive que o trem existisse, porque foi surrupiado antes.

Será que o Brasil continua sendo uma criança que engatinha e por isso ainda não atingiu o desenvolvimento econômico de modo mais equilibrado entre as diversas regiões brasileiras? Já temos história suficiente para ver superadas questões deste gênero. Porém, parece que estamos fadados a conviver com políticos e gestores sem compromisso com os interesses públicos que administram, que se valem (Valec) da posição de mando e da caneta para os cheques dos recursos públicos, para cometimento de desvios e locupletamento. Existe uma cultura entranhada do favorecimento, da “lógica” da corrupção como única forma de gerir e fazer caminhar a administração pública, do ajeitamento político para ocupação dos postos de mando na administração pública, sem nenhum critério qualitativo, das fraudes e assaques ao erário, e toda forma perniciosa de manter o país engatinhando.

Não temos linhas férreas cortando o país e outras obras de infraestrutura essenciais. Propomos figurar  no seleto mundo das nações desenvolvidas – e isso por vezes aparecem em estatísticas e números específicos de determinados setores, geralmente privados – mas cultivamos índices de corrupção e de desenvolvimento social e humano típico de países no fim da lista, mas próximos do tempo da velha “maria fumaça”.

São estas contradições que fazem com que a locomotiva Brasil não consiga sair definitivamente da letargia rumo ao desenvolvimento de modo justo, equitativo e sustentável, paradigmas inscritos na Constituição Federal (art. 3º).  Quando se pensa que estamos saindo da estação (marasmo) há sempre alguém (alguns) para empuxar no sentido inverso impedindo que esta locomotiva ganhe os trilhos, ou melhor, tirando-lhe o próprio trilho e seus vagões.

Anúncios

ENCONTROS E POUCOS “BONS DIAS”. A rotina de uma ascensorista do elevador privativo do Fórum. (da série: Crônicas de ascensorista)

Os encontros são inevitáveis e diários. Por vezes mais de um ao dia. Pela manhã, dirigindo-se ao andar de trabalho; no meio da manhã para a copa tomar café; no horário do almoço; no meio da tarde novamente para o café; e à tardezinha, no final do expediente; e alguns durante o dia, em horários variados, geralmente com muita discrição, no vai e vem entre andares para visitar outros colegas e estabelecer os contatos jurídicos e principalmente políticos da administração e gestão judiciária.

Alguns combinam horários e quando não coincide de estarem no local ao mesmo tempo, sempre me perguntam pelo outro.

– Fulano já chegou? Fulano já subiu (ou desceu)?

Ou ainda:

– Quando fulano chegar, diga que já estou no meu gabinete (ou tive que sair mais cedo). Diga ao fulano que hoje vou almoçar em casa.

No fundo sirvo também de mensageira. É até bom para fugir um pouco da rotina de ascensorista. Aperta botão, abre porta. Aperta botão, fecha porta. Sobe, desce. Entra e sai pessoas, e eu ali, imóvel naquele assento minúsculo que mal cabe a bunda. No final do dia haja dor nas costas e no trazeiro, mas tem que recuperar para o dia seguinte.

E assim todo dia, sempre a mesma rotina.

Apreendi os horários de cada um e já sei quem vai chegar, subir, descer, ir à copa. Só não dá para descobrir os horários daquelas escapadelas nas visitas quase ocultas durante o expediente para os contatos políticos, embora sejam sempre os mesmos, sozinhos ou em duplas e até em grupos de três, não mais.

Ah, os “bons dias!” Sim, os cumprimentos.

Nem todos cumprimentam.

Geralmente os usuários, quando cumprimentam é apenas com um pequeno movimento de cabeça, sem um balbucio sequer. E não importa se o elevador está ou não vazio. É porque a pessoa é assim mesmo, sem lado (com a gente, não com aqueles com quem tem interesses comuns).

Mas já apreendi a conviver com isso e já não me importo. Se não querem papo, não serei eu a puxá-lo, até porque certamente sua conversa não vai me motivar nem um pouco.

Assim, muitos entram mudos e saem calados, quando estão só. Se conversam, é apenas para perguntar se fulano já chegou, já subiu, desceu, enfim, coisas de seu exclusivo interesse. Quando juntos, entram conversando e saem conversando, não interrompendo o assunto para me dirigir um cumprimento. Como já sei o andar de cada um, nem pergunto, só aperto botão.

Outros entram falando e saem falando. No celular. Não suspendem a conversa e pouco se importam se tem outras pessoas no elevador. Isso quando não atendem o celular durante o percurso (curto, de não mais que alguns segundos). O assunto continua o mesmo, e não se dão conta da necessidade de reserva e de respeito aos outros passageiros[1]. Quando há perda da qualidade do sinal, aumentam a voz e ficam repetindo a mensagem ou pedido que o interlocutor repita. E falam de tudo, sem nenhum pudor. Esquecem que ali tem outras pessoas e que tem ouvidos.

– Ah? …Como? …Não entendi? …Fale mais alto? …Vai acabar minha bateria!

É, não tem um pingo de desconfiomêtro. Geralmente a conversa é sobre todas estas coisas de gente que se diz chique. Parece que a intenção é justamente mostrar aos outros de sua vida dita glamourosa. Às vezes tenho a impressão que não existe interlocutor nenhum, apenas fantasia do falante para aparecer.

Fico rindo em meus pensamentos.

Tem aqueles que parecem estar sempre mal humorados. Não dizem nada, sequer com outros colegas seus que adentram ao elevador. É uma sisudez constante. Não existem bons dias para estes. Ao menos não incomodam. São sistemáticos e não falam ao celular, não pedem para esperar um pouco, tem sempre um percurso único e em horários bem definidos.

Quando acontece algum fato noticioso ou rumoroso no Fórum ou Tribunal, ai sim, todos querem extrair de mim algum informativo atualizado, como se eu fosse uma central de notícias. Às vezes estes fatos me deixam também curiosa e no diminuto espaço do elevador, sem condições de sair, guardo minha curiosidade, esperando que alguém deixe escapar informações atualizadas.

Não posso ser injusta. Alguns são muitos solícitos, gentis, afetuosos. Mas, deste grupo, se nota logo que alguns têm o único propósito de tentar demonstrar que não se sentem superiores, e nisso acabam deixando transparecer a arrogância que permeia este gesto. Outros não. Agem com sincera cortesia, os verdadeiros e autênticos. São simpáticos e sempre me cumprimentam. Sabem respeitar minha individualidade e se preocupam com ela. Quando estamos sós perguntam sobre minha família e me dão espaços para perguntar também das suas. Há uma cordialidade. Quanto tem outros passageiros no elevador, ficam mais acanhados e só me cumprimentam. Mas já percebi que isso é para preservar minha intimidade e não deixar-me envergonhada frente a outras pessoas.

E nisso o dia passa. No outro dia, tudo se repete.


[1] 1.1 Esta Norma fixa as condições exigíveis na elaboração do projeto, fabricação e instalação de elevadores de passageiros, com o fim de adequá-los com características para transportar pessoas portadoras de deficiência que podem locomover-se sem o auxílio de terceiros. (Fonte: ABNT/CB-04 – Comitê Brasileiro de Máquinas e Equipamentos Mecânicos. CE-04:010.14 – Comissão de Estudo de Elevadores para Pessoa Portadora de Deficiência. NBR 13994 – Passengers elevators (lifts) – Elevators (lifts) for the handicapped people transportation. Descriptors: Elevator (lift). Handicapped people. Esta Norma substitui a NBR 13994:1997. Válida a partir de 30.06.2000)


QUANDO A DECISÃO POUCO IMPORTA. Pode não se ter mais tempo de ser livre. (crônicas de ascensorista)

Aquele Senhor chega devagar e neste ritmo entra no elevador. De tão sistemático, pode-se marcar hora: 15h30. Se, exatamente neste horário, não estiver em frente ao elevador esperando é só dar uma olhada fora que o verá se arrastando vagorasamente, próximo à porta. Neste caso, pode-se acertar o relógio porque com certeza estará um pouco adiantado, restituindo para às 15h30. Quanto chego e ele já esta aguardando, descreve exatamente o tempo perdido:

– Olha, hoje você se atrasou 2 minutos e 20 segundos!

Contudo, essa observação não é maldosa. Apenas para registrar a sua pontualidade já conhecida e comprovada.

Soube, por indagações de outros juízes ainda no elevador, que ele ficou na magistratura por mais de 40 anos e somente aposentou-se ao completar 70 anos, por força da lei. Depois de aposentado já se vão 23 anos e mais de 17 de viuvez. Apesar da idade, há uns 10 anos voltou a frequentar, na 2ª, 3ª e 5ª feiras, o prédio do Fórum. Só não vêm nas 4ª e 6ª feiras porque tem sessões de fisioterapia.

Isso tudo já chama a atenção. Porém, recentemente, ocorreu um fato marcante. Ao encontra-lo esperando na porta do elevador e convidá-lo a entrar, fui logo perguntando, como de práxis, se ele iria para o andar de sempre, no que obtive a resposta.

– Acho que não. Não sei. Primeiro você decide para que tome o elevador.

– Como? Eu não posso decidir porque não sei o que o Senhor deseja fazer.

– Nem eu mesmo sei. Já decidi muito na vida, e para os outros. Poucas vezes decidi para mim. Descobri, aliás, que não sei tomar minhas decisões. Venho a este Fórum a uns 10 anos, quase todos os dias, sempre no mesmo horário, e vejo os fuxicos das pessoas questionando o que estou fazendo aqui. Percebi que nem eu sei, mas por força do hábito venho. Não se trata de uma decisão, apenas hábito.

– Mas o Senhor vem ver os amigos, bater papo.

– Não sei também se ainda tenho amigos. Os meus verdadeiros amigos já faleceram. Hoje é tudo muito rápido, ninguém tem muita paciência de ouvir a gente. Às vezes fico lá na sala sentado. As pessoas entram, saem, uns cumprimentam, outros não. Quando veem conversar comigo é a especulação de sempre: – quantos anos têm? – quanto tempo o Senhor já está aposentado? – quanto tempo ficou na magistratura? – o Senhor está forte, heim? É como se desejassem que eu estivesse fraco.

– Mas as pessoas dizem isso com carinho!

– Carinho? Não!

Nisso ouvi toques desesperados em um andar solicitando o elevador. A rapidez e urgência a que ele se referia.

– Olha, vamos ter que subir, porque estão me chamando. O senhor já sabe para aonde vai?

– Não, a escolha é sua. Mas como você ainda não decidiu, fica a vontade. Vá lá buscar o apressado. Vou ficar aguardando aqui embaixo. Quando voltares irei para o andar que você escolher.

Fui e voltei rapidamente. Aquele Senhor não estava mais ali e nunca mais o vi ou ouvi falar dele.


A ENFERMIDADE DO DESEMBARGADOR. (crônicas de ascensorista)

Já fazia alguns dias que ele não aparecia. Ouvi alguns perguntando por ele e respostas de outros de que teve um problema de saúde. A partir daí as coisas disseminaram.

– Ah, então o desembargador está adoentado?

– É! E pelo que ouvi é sério. Provavelmente nem volte mais.

– Será mesmo que terá que se aposentar? Olha que ele ainda estava longe de ser alcançado pela “compulsória”!

– É, mas veja por outro lado. Significa que teremos uma vaga imediata no Tribunal e que não estava sendo contabilizada para agora.

– Ah, sim! E tem mais, ele é de carreira, não é?

– É. É de carreira.

– Pois é. Sendo assim vai abrir uma vaga por antiguidade.

– Com isso fulano vai ser promovido e eu entrarei no primeiro quinto.

– Que bom. Então a partir da próxima vaga você já poderá concorrer.

Esta conversa se prolongou enquanto descíamos do 11º, os dois juízes em prosa, como se eu não estivesse ali.

No ritmo ainda daquele bate-papo, com os olhos em brilho com a iminência de uma nova vaga no Tribunal, o que representaria um passo a mais para suas perspectivas de chegarem a ocupar o cargo de desembargador, chegamos ao subsolo e a porta se abriu. Eis que o personagem do qual falavam estava ali esperando para tomar o elevador.

O próprio, Sua Excelência, o Desembargador do qual falavam. Em carne, osso, corado e com semblante bastante renovado e animado.

Ao vê-lo, os dois se entreolharam e saíram imediatamente, se espremendo na porta do elevador, ambos num passo e gesto rápido para cumprimentar o até pouco moribundo. E os dois, quase num coro uníssono, como se tivessem acabado de ensaiar:

– Que prazer vê-lo desembargador! Como vai o senhor? Ficamos sabendo que esteve adoentado? Mas pelo visto já se recuperou?

– É sim! Foi apenas uma gripe forte que o médico chegou a pensar que pudesse ser pneumonia. Mas agora estou bem. Aliás, muito bem, pronto para o trabalho.

– Que bom. Ficamos felizes em saber que se recuperou rápido. Cá entre nós, a ausência de Vossa Excelência (assim mesmo, com cacofonia) no Tribunal é muito sentida. Não assumem isso, mas a sua Câmara fica quase órfão.

– Bondade suas. Sem falsa modéstia tenho dado boas contribuições nos julgamentos ali, sobretudo para consolidar alguns entendimentos.

– Nós sabemos disso. O Senhor é um expoente e que não pode deixar-nos tão cedo. Quem sabe, antes do Senhor atingir os 70 anos, a idade compulsória para a aposentadoria não será elevada? Assim poderá ainda ser Presidente do Tribunal.

– Tomara. Que Deus vós ouçam!

– Vossa Excelência pode anotar isso, porque irá acontecer. Mais uma vez felicitações por seu retorno.

Ao fim, os dois juízes saíram para a garagem, enquanto o desembargador embarcou. Subimos, eu e ele. No trajeto comentou comigo que gostava muito daqueles rapazes (juízes), sobretudo porque sempre foram gentis contigo e preocupados com sua saúde.

Apenas concordei.