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O PADRE E SUA MISSÃO CRISTÃ: “CRESCEI-VOS E MUTIPLICAI-VOS!” (da série: Assim se fez a hisória e algumas estórias mais!)

 Aqui parece estória, mas é de fato história, com um bom tom de comicidade e muita excentricidade. Os fatos narrados são curiosos e a sentença fulminante com a pena capital. Porém, por sorte do condenado – e talvez minha ou de alguém que esteja lendo este texto, porque pode ser descendente do reprodutor em questão – os seus dotes e a sua libido desenfreada salvaram-lhe a pele. Como perder um garanhão desta estirpe? Com este poder reprodutor não se poderia aplicar os rigores do direito penal. Melhor conceder-lhe o perdão (certamente o atual instituto da graça, ainda que não se agrecie na atualidade por estas razões!), condicionando-o, todavia, com compromisso de povoar determinada região desta terra chamada Brasil. Um detalhe, sem viagra!

Eis a decisão:

SENTENÇA PROFERIDA EM 1587 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO

Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas. Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres”. Não satisfeito tal apetite, o malfadado prior, dormia ainda com um escravo adolescente de nome Joaquim Bento, que o acusou de abusar em seu vaso nefando noites seguidas quando não lá estavam as mulheres. Acusam-lhe ainda dois ajudantes de missa, infantes menores que lhe foram obrigados a servir de pecados orais, completos e nefandos, pelos quais se culpam em defeso de seus vasos intocados, apesar da malícia exigente do malfadado prior.

Agora a melhor parte:

El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos dezessete dias do mês de Março de 1587, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e, em proveito de sua real fazenda, o condena ao degredo em terras de Santa Cruz, para onde segue a viver na vila da Baía de Salvador como colaborador de povoamento português. El-rei ordena ainda guardar no Real Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo.

 (Fonte: Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5, maço 7)

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