Arquivo da tag: medo

O MEDO E SUAS ORIGENS

Tudo que representa morte lá está o medo e sua origem. Tememos o fim desde o princípio de nossa existência, o não existir. Como afirma Jean-Paul Sartre, todos os seres humanos têm medo; quem não tem medo não é normal.

Nossa consciência do medo surgiu com a perda do paraíso. Então a ira Divina apontou nossas fragilidades e revelou-nos o medo. E o primeiro pavor que nos possuiu foi Dele, do próprio Pai que se mostrou vingador ao ser desobedecido – desde então filho obedece ao pai e não se questiona – ao consumir o fruto proibido sem saber das razões de sua proibição. Nisso fomos fadados a viver neste binômio perene, entre céu e inferno, entre o bem e o mal, entre o protetor e o punidor, entre Ele e o diabo.

Com a expulsão vimo-nos no desamparo, porém despertados para o instinto animal em relação ao medo, que até a serpente já o sabia e por isso agiu ardilosa e traiçoeiramente. Além do medo instintivo aprendemos que os temores também se implantam social e culturalmente.

O medo passou a nós perseguir diariamente como um parasita encrustado em nosso corpo, removendo em nós sentimentos atávicos de sobrevivência e desejo de perpetuação, ainda que in memoriam. Do igual modo aflorou nossos preconceitos e nos mostrou a possibilidade de barreiras sociais, tudo em nome da segurança.

Longe do éden nosso instinto de sobrevivência tomou ares de pânico e rejeição. O que servia de parâmetro para precaver-nos diante de perigos reais ou iminentes, como um alarme natural constantemente ativado e pronto para situações de urgências, transfigurou num pavor perene estampado no nosso rosto fazendo-nos repudiar com veemência tudo que não se adequa aos nossos interesses, numa tentativa de espargir o mal antes que nos domine.

Com o sentimento de pânico, no intuito de afastá-lo, acabamos por afagar o medo de tal modo que em nossos refúgios morremos mais ligeiramente, justo por quando tentamos distanciar do temor supremo. Quanto mais nos esgueiramos e buscamos nos ocultar, mais somos traídos por este pavor que nos consome, enclausurados em nossos martírios.

Afinal, desde sempre fomos treinados para ter medo, de tudo e de todos  e gerações pós-gerações o medo nos fragiliza como pressas dóceis e assustadas, prontas para ser afagadas por alguém que nos ofereça proteção. Nosso imaginário infantil, aprendido na escola, e principalmente em casa nas estórias que nos foram narradas pelos avós, pais e babás é um seriado de terror. O medo implantado por nossos cuidadores eram artifícios apavorantes que serviam para nos aquietar, colocando-nos para dormir, comer, obedecer cegamente, calar, sossegar, etc, e que é incorporado para novas gerações como ferramenta pronta para assustar nossos pupilos num processo continuado de disseminação do terror.

E assim, desde tenra idade, aprendemos a conviver com vilões feito o “lobo mau”, a “mula sem cabeça”, o “bicho papão”, o “boi da cara preta” – a tentativa de ser politicamente correto, substituindo o adjetivo “preta” por “feia”, não resolve uma coisa e nem outra; não purifica o político e muito menos afasta o pavor, porque o “boi” continua malvado, querendo pegar a criança – o “capitão gancho” e o “barba azul”, as “bruxas”, os “fantasmas”, os “dráculas” e “vampiros” e toda espécie de malfeitores criados para nos amedrontar, formando em nós indivíduos inseguros, apavorados, vingativos, perseguidores e prontos para o ataque, antes de sermos devorados.

Como criar uma identidade de paz, tranquilidade e fraternidade social, se nestes enredos, onde convivem heróis e vilões, numa perpetuação infinita do conflito e medo, mantém sempre acessa a ideia de bipolaridade entre o bem e o mal, do céu e do inferno? Não há espaços nestes cenários para intermediários, ou para situações fora destes maniqueísmos, ou chances de regenerações ou mesmo degenerações. O “mal” nasceu “mal” e jamais se transforma, é só uma questão de tempo para aflorar. Pobres dos “bons” que amedrontados têm que conviver neste palco de suspense, sem ao menos saber que ao seu lado possa estar um espírito leviano e fatídico adormecido. Para não se incorrer em tais surpresas, melhor repudiar de plano, ainda que sequer haja suspeição.

Este é o legado da cultura do medo que absorvemos desde nos primeiros passos, históricos e individuais.

 

Este texto é trecho do artigo de minha autoria: O neoliberalismo não inventou o medo, mas dele se apossou como instrumento de sua mais valia. Em:SILVA, Denival e BIZZOTTO, Alexandre. Sistema Punitivo: o neoliberalismo e a cultura do medo. Goiânia: Kelps, 2012.

Anúncios

OS MEDOS QUE TEMEMOS (OU DEVERÍAMOS TEMER) EM RAZÃO DA DISTORÇÃO DO SENTIDO DA LINGUAGEM.

O medo é a morte presente e constante, como disse Marilena Chauí. A morte é o medo em essência ou por natureza. Tememos morrer fisicamente e para o mundo. A morte física é o fim material; a morte política é o ostracismo que também engole nossa existência. Arrepiamos com o medo da fome – e toda ausência traz a necessidade vital de um bem perdido –, da miséria, do esquecimento, mas não tememos a avareza, o desperdício, a ganância e toda “sorte” que nos faz usurpadores e desiguais. Tememos ser mais uma vítima da indiferença humana que assola seres semelhantes, porém deixamos de temer sermos indiferentes ante as mazelas sociais e o grito dos desvalidos. Sentimos medo só de pensar em sermos ignorados, mas somos completamente insensíveis quando ignorarmos, porque apreendemos que quem ignora tem o poder de selecionar e depreciar o outro, e que ainda assim poderá ser visto e aceito, independentemente de nossas atitudes.

O medo nos abala, sobretudo quando tememos a bala. Não só o projétil da arma de fogo que rasca a noite (e o dia também), nos becos escuros ou nas praças públicas, varando o espaço vazio até encontrar um corpo para apará-la. Mas não é preciso temer a “bala perdida”, porque daquela que se perde devemos sentir alívio já que não encontrou alvo. Esta se foi e não achou um peito humano para se abrigar. Devemos temer a “bala achada”, sobretudo quando quem a encontra é o médico legista durante a autópsia. Perdido, de verdade, são aqueles que detonam tais projéteis, seja do lado de lá na condição de perseguidos pelas forças de segurança do sistema punitivo, seja do lado de cá, pelos agentes deste sistema e que não medem consequências, simplesmente por seres dotados de armamentos pelo Estado e por isso muitos se acham no direito de agir como bem entendem, porque o fazem em nome do Leviatã, tudo para o bem social (para as “pessoas de bem”, ou seria para as “pessoas de bens”?).

Santos e tremendos equívocos! Medonhos, diria!

Deveríamos temer a linguagem de quem destoa fatos e faz da notícia repertório político e fonte de controle social. A linguagem desvairada e que dá sentido à vida e aos objetos, ainda que para isso seja necessário criar neologismos e distorcer a sua etimologia. Toda linguagem subjetiva, preconceituosa e que inverte o significado das coisas para manterem órfãos aqueles que não enunciam o vernáculo que seus dominadores auto classificam culto e oficial, ao fim considerado como o único válido.

Não existe forma maior de dominação e opressão do que pelo instrumento da palavra, porque menospreza o interlocutor e o torna mudo nos seus anseios. Retira-lhe a oportunidade da conquista e a bravura de sua luta. É a fala que dispara os medos que tornam seres dóceis os ouvintes e servis ao poder dominante.

A mesma fala que atordoa e apavora traz em seguida os arremedos para conter os medos. Nesta sociedade de risco precisamos de protetores e eles se apresentam imediatamente, como a brisa suave depois da tempestade. É a linguagem que o diz e que os apresentam; é o nosso emudecimento que os aceitam e os sacrilizam.

É também pela fala persuasiva, maldosa, sedutora que se diz falar em nome de Deus, alavancando multidões de fiéis a partilhar o que não se tem, na crença de adquirir propriedades e méritos no reino dos céus, já que na terra já não há a percepção de escolhas. Tudo em nome de um Deus com o qual somente os “bem-aventurados” são capazes de dialogar. E é destes céus de onde os arrecadadores dizem ter ouvidos os recados para a coleta.

Entre o céu e a terra a linguagem flutua solta e, uma vez em mão escrupulosas, como infelizmente ocorre com quem a detém, firma-se pronta para encontrar corpos e almas lenientes, porém sempre e necessariamente apavorados.

 

 

Este texto é trecho do artigo de minha autoria: O neoliberalismo não inventou o medo, mas dele se apossou como instrumento de sua mais valia. Em: SILVA, Denival e BIZZOTTO, Alexandre. Sistema Punitivo: o neoliberalismo e a cultura do medo. Goiânia: Kelps, 2012.


O QUE SERIAM DOS GASTOS PÚBLICOS SEM O CRIME? (da série: O que seria do crime, de A a Z.)

LETRA “G”

  • O que seriam dos gastos públicos sem o crime?
  • Nos últimos vinte anos (*), os gastos públicos em presídios aumentaram em novecentos por cento. Isto não contribui nem um pouco para atenuar o medo da população, que padece de um clima geral de insegurança, mas contribui bastante para a prosperidade da indústria carcerária. “Afinal, presídio quer dizer dinheiro”, conclui Nils Christie.

 Eduardo Galeano (De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. p. 116)                      

 (*) Já se vão alguns anos desde esta fala. Porém, anos e anos se passaram e a história é a mesma, senão pior.


O MEDO E O MAL! (inspirado em Medo Líquido de Zygmunt Bauman)

Mote:

Constituição Federal: Art. 6º, caput, 6ª parte

São direitos sociais […] a segurança.

 

Zygmunt Bauman. Medo Líquido

O medo e o mal são irmãos siameses. Não se pode encontrar um deles separado do outro. Ou talvez sejam apenas dois nomes de uma só experiência – um deles se referindo ao que se vê e ouve, o outro ao que se sente. Um apontando para o “lá fora”, para o mundo, o outro para o “aqui dentro”, para você mesmo. O que tememos é o mal; o que é o mal, nós tememos.

O medo e o mal

Nesta con(m)fusão cobra-se dos juízes

o trabalho sujo da limpeza social.

Dá-lhe status, privilégios, ascensão.

Entrega-lhe a balança e o martelo,

Concede-lhe o poder de julgar e decidir

para depois vendar-lhe os olhos.

Em troca acende-lhe a chama do ódio

e cria em seu coração iguais pavores.

Sua missão: afastar-nos dos impuros

na ingênua ilusão de que o mal

se apaga num mundo de segregados.

(Do livro: Poemas Iniciais em Forma de Contestação. Denival Francisco da Silva. Editora Kelps. Goiânia-GO, 2010)