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O HAITI É AQUI (MP)

Na minha leitura domingueira do jornal, encontrei este artigo do Haroldo Caetano da Silva, promotor de justiça em Goiânia, atualmente na coordenação do CAO dos Direitos Humanos, que reputo bastante sedicioso, merecendo ser reproduzido (com a autorização do autor) nesta página. Leiam!

Por Haroldo Caetano da Silva (Fonte: O Popular 16/05/2011)

As imagens da persistente tragédia humanitária do Haiti são sempre chocantes. Mesmo antes do terremoto que deixou mais de 200 mil mortos em janeiro de 2010, qualquer cena proveniente daquele país já era sinônimo de miséria, desolação e sofrimento. Difícil não se sensibilizar e à distância; então, nos compadecemos e nos indignamos ao perceber tal extremo de pobreza entre nós, seres humanos.

E se observássemos aquele nível de indigência um pouco mais perto de nós? Como poderia ser? Não dá para imaginar, pois não soa real que haja tamanha desgraça tão próximo, por exemplo, da rica e bela capital goiana.

Goiânia, conhecida por suas belas mulheres, pelas áreas verdes, pelos luxuosos shopping centers e agora pelos novos ricos, que desfilam imponentes em seus carros importados, muitos com preço superior a meio milhão de reais. Não! Definitivamente, não se trata do cenário haitiano.

Porém, basta um deslocamento de 15 minutos e pronto! Estamos no lixão de Aparecida de Goiânia. Estamos no Haiti. Do lixo, depositado sem qualquer cuidado nas imediações de área de preservação ambiental, vivem mais de 150 famílias, aproximadamente 500 homens e mulheres, crianças, jovens e adultos. E as pessoas se confundem com o lixo. Vivendo do lixo, catadores de plásticos, metais e outros materiais recicláveis, depois de horas de um trabalho que pode render até 12 reais por dia, vão para suas casas. Casas?! Barracos com não mais de dois metros e meio de altura, feitos de madeira, papelão e lona, amarrados com cordas.

Chama a atenção a condição de uma senhora, idosa, com um dos braços atrofiados e que vive só, sobrevivendo daquilo que consegue no lixo.

Também crianças, dezenas de crianças. Uma delas de 2 ou 3 anos, imunda, com os cabelos impregnados de secreções e sujeira, há semanas sem um banho sequer. Banho? Banho é luxo numa vila miserável que sequer conta com fornecimento de água ou energia elétrica. Tambores com água turva abastecem os barracos. Ligações clandestinas trazem eletricidade e perigo para o que eles chamam de “casas”.

O mau cheiro quase insuportável, que vem da queima de resíduos do lixo, fezes em qualquer canto, homens e mulheres em situação deplorável, doentes, loucos, drogados, crianças sem futuro e sem presente, formam o nosso Haiti, logo ali, no lixão de Aparecida de Goiânia.

Haroldo Caetano da Silva é promotor de justiça, coordenador do Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos do Ministério Público

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