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APESAR DA MONOGAMIA! O direito, a moral, a religião e os costumes no Brasil não toleram a poligamia, embora haja situações fáticas poligâmicas por aí.

O falecido deixou uma viúva…

Esta frase faz parte de um trecho de uma petição num processo que me chegou.  Numa leitura rápida não há nada de incomum nesta situação. Porém, o pronome indeterminado “uma” faz toda diferença.

Se no Brasil não se admite a poligamia, apesar de uma indicar unidade isolada, neste contexto passa ser qualquer esposa, e ao contrário de defini-la, deixa entender que o falecido se não tinha um harém, desfrutava de mais de uma esposa.

E o pior! Se o falecido deixou uma viúva, será que se cansou da poligamia e em relação as demais esposas ele já havia dando-lhe fim?

Vejo o quanto custa o descuido com a linguagem.

No nordeste, quando um homem mantém mais de uma família, com ciência ou não de uma ou de outra (ou de ambas), diz-se que tem mais “de uma boca de fogão” para sustentar. O direito brasileiro, indiretamente, reconhece esta situação, admitindo a situação de esposa e companheira (o mesmo se aplica ao sobrevivente masculino; o feminino aqui deve-se o mote desta crônica), assegurando a ambas os direitos sucessórios e previdenciários conforme a vontade do titular do seguro. A verdade é que o falecido deixara uma tremenda confusão a ser resolvida juridicamente, sobretudo se o conhecimento da duplicidade familiar só vem a público com a morte.

Para finalizar o risível do fato, fiquei imaginando o falecido – antes deste fatal acontecimento – convidando a esposa para irem… Provavelmente teria dito ela.

– Mas irmos para onde, homem de Deus!?

– Vamos desta para melhor! (sobre este assunto já postei um artigo neste blog).

– Ah!? Quem te garante isso? Estou muito bem aqui.

– Mas mulher, é chegada a minha hora.

– Pois vai tu. Eu é que não vou é nunca! Vais sozinho. Lembra-te que meu compromisso contigo era somente até que a “morte nos separasse”! Se o fim chegou para ti, deixe-me finalmente em paz.

Depois destas verdades, o homem (esposo), que não estava lá muito a fim de morrer, caiu duro na hora.

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A VIDA QUE IMITA A (DES)ARTE. As telenovelas brasileiras têm servido de instrumentos de imposição de péssimos hábitos e costumes, inclusive com a deturpação das relações humanas.

Terminado um folhetim, emenda-se outro piorado. As novelas têm sido assim. Em cada trama, mais drama, mais cama, mais sacanas, mais tramoia, na crença de que o povo gosta mesmo é de porcaria e vilania. As novelas, de enredos românticos que encantavam os sonhos de glamour de muitos casais apaixonados, e da família brasileira, são agora sequências mal elaboradas de tragédias policiais, esbanjando o que se tem de pior no ente humano.

Se a proposta da novela é representar a sociedade, nem de longe consegue refletir o que se passa no dia-a-dia das famílias, ou, quando muito, revela uma parcela minúscula carcomida por artimanhas, maldades, espertezas e que está muito distante de simbolizar o modelo familiar e social padrão ou majoritário.

Se o pretexto é puramente fictício, é de muito mal grado o enredo, com exageros em cenas de violências, de sexualidade, de comportamentos, com destaque ao “mal caráter”, às traições e pouca afetuosidade, a ausência de solidariedade, inclusive familiar, a falta de boa convivência, obstruindo e ocultando aquilo de bom que se espera nas relações humanas.

Não há variação no foco condutor destas estórias – que se querem representativas da vida social – porque todas são voltadas para um maniqueísmo permanente. Não existe meio termo e as associações têm que ser claramente impostas ao espectador, ao qual não é dada a oportunidade de definição: ou se é do bem, ou se é do mal. E quem dita estas escolhas – do que é certo e errado; do que é pecado e virtude; do que é crime e conduta lícita, etc. – são os autores, conquanto sem ao menos mediar suas convicções pelo senso coletivo, mas, com a certeza de que, com esta intromissão, acabam ditando novos modelos de conduta e comportamento.

A ideia de remissão, comiseração e acolhimento é hipótese descartada, revelando o lado mal do bem, pela intolerância e não aceitação. Mesmo os folhetins pautados em histórias reais, os personagens são superdimensionados, e o bem passa a ser melhor do que o real, enquanto o mal é muito pior do que aquele que foi copiado. Todo este exagero serve para provocar maliciosamente o espectador, fazendo-o juiz dos fatos e atores dos acontecimentos reais, sem dar aos integrantes da realidade nenhuma oportunidade de manifesto e direito de defesa. Resumindo, o que é bem e o que é mal, não passa de determinismo de quem define condutas e dita comportamentos, conforme os interesses que busca defender.

Aliado a tudo isso, as novelas servem para merchandising comercial dos produtos dos anunciantes (aliás, para isso, não haveria sequer necessidade do intervalo, porque os produtos já são apresentados pelos personagens no texto da novela), para promoção de pseudos artistas, com seus repertórios de gosto extremamente duvidosos, que se elevam do anonimato a condição de ídolos do dia para noite, como instrumento para ditar modas e modelitos (produzidos pelos patrocinadores), para vendagem de produtos audiovisuais da própria emissora produtora, e imposição de um hábito linguístico, social e comportamental das populações dos Estados onde os enredos se desenrolam (Rio de Janeiro e São Paulo), como se representassem toda a estrutura cultural brasileira. Quando surgem personagens de outras regiões, para caracterizar as distinções culturais, inclusive quanto ao sotaque, estas peculiaridades são exploradas com escárnio e deboche.

Traçados estes objetivos e perfis, basta então encaixar a programação de modo a atender todo tipo de audiência e ir gradativamente elevando a dramaticidade, violência e imposição de hábitos, conforme o público alvo a ser atingido. Tudo com o propósito de ditar valores éticos e morais, e outros padrões sociais que os autores, a mando de seus produtores e patrocinadores, definem e determinam como corretos.

Entremeio a programação novelesca, insere-se o noticiário para ascender os clamores morais, os discursos de combate à violência, o repúdio a ingerência da gestão pública, etc., tudo contrário ao que foi e será depois enaltecido nos enredos dramatúrgicos que se seguiram(rão).


E AGORA LUZINETE? Gerações de mulheres entregues a própria sorte. (da série: Mulheres presas)

  

Luzinete Oliveira Sodré é a intermediária de gerações femininas abandonadas a própria sorte. Luzinete é mãe e filha.

Antes, Luzinete trabalhava fora de casa para garantir o sustento da família, enquanto a mãe tomava conta da neta. Mas, quando a mãe adoeceu e não teve condições de cumprir com os cuidados exigidos por uma criança de 6 anos, além, de ela mesma depender de cuidados, Luzinete em princípio titubeou,  mas não teve outra saída.

Saiu do emprego fixo. Embora fosse apenas um salário mínimo, tinha carteira assinada, previdência e plano de saúde. Mas nada disso podia ajudá-la a zelar da mãe e filha que ficariam sem assistência alguma sem seus cuidados.

O único sustento passou a ser a aposentadoria da mãe, mas que cobria a necessidades essenciais. Bem ou mal, o benefício auferido pela mãe passou a sustentar as três gerações de mulheres, esquecidas de todos.

Acontece que a mãe de Luzinete faleceu e com ela a aposentadoria. E agora Luzinete?

E agora Luzinete?

Fonte:  Jornal O Hoje  http://www.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Fbit.ly%2FrvKlF2&h=_AQF4ewjDAQHj6G2mXB9pO55tWAeHCFrQ4k9NrTeHGWw5xw