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A VIDA QUE IMITA A (DES)ARTE. As telenovelas brasileiras têm servido de instrumentos de imposição de péssimos hábitos e costumes, inclusive com a deturpação das relações humanas.

Terminado um folhetim, emenda-se outro piorado. As novelas têm sido assim. Em cada trama, mais drama, mais cama, mais sacanas, mais tramoia, na crença de que o povo gosta mesmo é de porcaria e vilania. As novelas, de enredos românticos que encantavam os sonhos de glamour de muitos casais apaixonados, e da família brasileira, são agora sequências mal elaboradas de tragédias policiais, esbanjando o que se tem de pior no ente humano.

Se a proposta da novela é representar a sociedade, nem de longe consegue refletir o que se passa no dia-a-dia das famílias, ou, quando muito, revela uma parcela minúscula carcomida por artimanhas, maldades, espertezas e que está muito distante de simbolizar o modelo familiar e social padrão ou majoritário.

Se o pretexto é puramente fictício, é de muito mal grado o enredo, com exageros em cenas de violências, de sexualidade, de comportamentos, com destaque ao “mal caráter”, às traições e pouca afetuosidade, a ausência de solidariedade, inclusive familiar, a falta de boa convivência, obstruindo e ocultando aquilo de bom que se espera nas relações humanas.

Não há variação no foco condutor destas estórias – que se querem representativas da vida social – porque todas são voltadas para um maniqueísmo permanente. Não existe meio termo e as associações têm que ser claramente impostas ao espectador, ao qual não é dada a oportunidade de definição: ou se é do bem, ou se é do mal. E quem dita estas escolhas – do que é certo e errado; do que é pecado e virtude; do que é crime e conduta lícita, etc. – são os autores, conquanto sem ao menos mediar suas convicções pelo senso coletivo, mas, com a certeza de que, com esta intromissão, acabam ditando novos modelos de conduta e comportamento.

A ideia de remissão, comiseração e acolhimento é hipótese descartada, revelando o lado mal do bem, pela intolerância e não aceitação. Mesmo os folhetins pautados em histórias reais, os personagens são superdimensionados, e o bem passa a ser melhor do que o real, enquanto o mal é muito pior do que aquele que foi copiado. Todo este exagero serve para provocar maliciosamente o espectador, fazendo-o juiz dos fatos e atores dos acontecimentos reais, sem dar aos integrantes da realidade nenhuma oportunidade de manifesto e direito de defesa. Resumindo, o que é bem e o que é mal, não passa de determinismo de quem define condutas e dita comportamentos, conforme os interesses que busca defender.

Aliado a tudo isso, as novelas servem para merchandising comercial dos produtos dos anunciantes (aliás, para isso, não haveria sequer necessidade do intervalo, porque os produtos já são apresentados pelos personagens no texto da novela), para promoção de pseudos artistas, com seus repertórios de gosto extremamente duvidosos, que se elevam do anonimato a condição de ídolos do dia para noite, como instrumento para ditar modas e modelitos (produzidos pelos patrocinadores), para vendagem de produtos audiovisuais da própria emissora produtora, e imposição de um hábito linguístico, social e comportamental das populações dos Estados onde os enredos se desenrolam (Rio de Janeiro e São Paulo), como se representassem toda a estrutura cultural brasileira. Quando surgem personagens de outras regiões, para caracterizar as distinções culturais, inclusive quanto ao sotaque, estas peculiaridades são exploradas com escárnio e deboche.

Traçados estes objetivos e perfis, basta então encaixar a programação de modo a atender todo tipo de audiência e ir gradativamente elevando a dramaticidade, violência e imposição de hábitos, conforme o público alvo a ser atingido. Tudo com o propósito de ditar valores éticos e morais, e outros padrões sociais que os autores, a mando de seus produtores e patrocinadores, definem e determinam como corretos.

Entremeio a programação novelesca, insere-se o noticiário para ascender os clamores morais, os discursos de combate à violência, o repúdio a ingerência da gestão pública, etc., tudo contrário ao que foi e será depois enaltecido nos enredos dramatúrgicos que se seguiram(rão).

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