QUAL É A JOGADA? No cenário político não é qualquer um que consegue prevê o futuro, embora seja mais fácil antever algumas consequências.

Raymundo Faoro certamente foi um dos raros brasileiros que conseguia  fazer uma leitura antecipada dos acontecimentos políticos. Essa vivacidade, em especial em face desses temas, devia-se não só ao fato de sua intelectualidade e estudioso da história política brasileira, mas pelo vigor ético com que fazia suas análises. Talvez por isso não tenha tido filiação partidária, ainda que enamorado a esquerda, permitindo-se uma desenvoltura da análise crítica e acadêmica sem se apegar a paixões sectárias, senão pelo compromisso com os direitos humanos e pela democracia.

Dentre as tantas previsões de Faoro destaca-se a antevisão do impeachment de Collor de Melo e o crescimento do PT até assumir o poder central, com a advertência de perder sua identidade por um discurso programático. Sem Faoro criou-se um vazio quanto a decifração do futuro político com a autoridade de quem conhecia profundamente a história e a estrutura do poder. Todavia, ouvindo uma ou outra opinião – que pode ou não se confirmar – sem as convicções e evidências da análise conjuntural e futurística de Faoro, pode-se também lançar algumas opiniões.

O fato é que o futuro político relevante novamente lse avizinha. Estamos a menos de ano para a eleição presidencial e o que parecia ser uma disputa concorrida, com 4 ou até 5 candidatos, afunila-se em apenas três, da atual Presidenta como candidata a reeleição, uma candidatura no PSB e outra no PSDB.  Eventualmente por surgir uma ou outra num partido nanico, mas sem qualquer interesse e repercussão no jogo político.

Antes, havia a iminência da saída de Serra do PSDB, porque perdeu espaços (depois de duas derrotas) mas sem perder a pose. Como continua  julgando-se o único com estatura de candidato à presidência da República (diga-se, candidato a tudo) e, porquanto, não aceitando ser alijado do processo de escolha partidária, ameaçou ir abrigar-se noutra sigla. Ainda existia a certeza da candidatura de Marina Silva e que melou com o estouro da Rede que sequer conseguiu ser lançada.

Existia, ainda, apenas como uma hipótese remota, porque não partiu dele a ideia, da candidatura do Ministro Joaquim Barbosa do STF, enaltecido que foi como o guardião da moralidade e combate à corrupção como relator do mensalão. Embora tenha negado, a menção ao seu nome o deixou intimamente eufórico e trouxe-lhe comichões, mas que foram aplacados por sua própria arrogância e a revelação de completa falta de trato político, posto que intolerante e autoritário, soltando  petardos para todos lados, bastando que alguem esbarre em suas vaidades e conflita suas imperiosas convicções.

Com a volta de Serra – que não quis arriscar o ostracismo numa sigla nanica – de onde nunca saiu, embora já seja persona non grata inclusive por antigos aliados (FHC), trará problemas sérios ao propósito de Aécio Neves de firmar-se como candidato tucano. A aposta serrista é que Aécio não empolgue (como de fato não empolga) e, nessa condição, se ver ovacionado como candidato, já não mais como opção, mas por falta dela. Só que esta situação trará fissuras impossíveis de serem reparadas antes da eleição (e o que dirá depois!).

Se o PSDB mantém Aécio como candidato, ainda que as pesquisas indiquem Serra numa situação concorrencial melhor posicionada, o insucesso eleitoral será debitado somente ao senador mineiro, que como presidente da sigla teria se imposto como candidato (embora FHC lhe tenha dado este posto). Este fato só faria aumentar a arrogância de José Serra  que cantaria aos quatro ventos de que a oposição perdeu a grande chance de retomar o poder, porque dessa vez teria vencido. Isso já se daria no curso da campanha, fazendo surgir oposição e torcida contra dentro do próprio reduto tucano, e que deixaria de contar com o apoio dos serristas na campanha.

Se, entretanto, Serra conseguir fazer pressão suficiente para ser o candidato (agora ele defende prévias partidárias para escolha do candidato, algo que sempre negou quando tinha cacife bastante na cúpula partidária para impor sua candidatura), Aécio como presidente da sigla se sentirá sem poder algum, porque atropelado depois de abrir mão desse projeto político no pleito passado. Depois, se verá como verdadeiro boi de piranha, lançado antecipadamente, para preservar o verdadeiro candidato, o que lhe traria enormes estragos políticos futuros. Como troco não faria nenhum esforço na campanha do candidato de “seu partido”, do qual passaria a ser um presidente de fantoche.

Quanto à Marina Silva, que a cada eleição pula de galho (PT – PV – Rede (só no imaginário) – PSB), e há muito vive por conta de discursar Brasil afora como se fosse a única a pertencer a banda boa e ética da política, mas que é mantida por grandes empresários, sobretudo do setor financeiro, e que, a toda evidência, não financia ninguém por benevolência,  sem plano alternativo filiou-se na última hora (última mesmo) num partido que já tem candidato. E como ficaram seus financistas? Viram seus investimentos futuros lançados num fundo literalmente perdido? E seus simpatizantes (sonháticos) que acreditaram na promessa de um novo modelo partidário e político, foram abandonados à própria sorte? Ou ela acha que passada a eleição pode retomar o projeto Rede e contar com todos aqueles que subscreveram fichas para sua fundação, depois da decepção e do fisiologismo dela? Para quem esperava uma novidade de verdade, não pode aceitar essa aliança – o mais puro oportunismo e acomodamento político, por isso, velho e antiquado tal qual ela tanto criticou – para a qual não foram sequer sondados, principalmente porque a união implica na parceria com antigos personagens da política brasileira, de ultradireita, derrotados na última eleição justo por representarem o que tem de mais anacrônico no cenário político.

A rigor, o desfecho do projeto político da senhora Marina, serviu para demonstrar que é péssima na articulação política e por traz de sua máscara de puritana esconde alguém – como tantos que ela diz não concordar – que simplesmente busca o poder pelo poder, porém comprometida até as tampas com grandes corporações do mercado financeiro. Tanto que, diante do seu fracasso – fato que jamais assumirá – preferiu debitar a terceiros o insucesso da empreitada assumida, tentando esquivar-se de suas responsabilidades quanto às promessas feitas àqueles que abraçaram sua causa e que, ao final, foram jogados à própria sorte.

Com a derrota do seu projeto – mal construído, porque apostou exclusivamente no seu suposto prestígio, não se movimentando no tempo e na dose certa, ainda que tivesse toda mídia a seu favor, para conseguir o número suficiente de assinaturas para formação do “seu partido”, saiu acusando à justiça eleitoral, sem não antes tentar aliciar votos de ministros do TSE, pedindo para dar-lhe uma “mãozinha” ou “jeitinho” para validar assinaturas de adeptos sem conferência ou permitindo que completasse a listagem posteriormente, e ao Planalto e ao PT, como se tivessem em conluio com o propósito de inviabilizar sua candidatura.

Marina, sem rede, saiu de vara em mãos para a pesca e assim, sem tempo, arrancou o primeiro peixe que mordeu a isca (ou ao qual se ofereceu). Abrigou-se no PSB, e embora tenha chegado com discurso de despedida neste próximo ano da sua candidatura à Presidência, mostrou que esse ar de cachorro perdido era apenas para conseguir dono. Já colocou seus fiéis escudeiros para dar estocadas quanto sua candidatura, deixando claro que irá espremer Eduardo Campos no momento certo, colocando-o diante de pesquisas eleitorais para demonstrar que é mais votável e que com ela o partido terá chances efetivas de levar a disputa para o 2º turno, onde poderia unir toda a oposição.

Eduardo Campos, julgando-se também muito esperto, pensa que matou dois coelhos. Tirou Marina da jogada e ainda abocanhou seus eleitores. Grande equívoco. Não há migração de votos como imagina e tampouco somatório deles. Nem mesmo uma dobradinha dos dois propiciará o conjunto dos votos que as pesquisas apontam individualmente a cada um. Criou um problema para si com o qual tera que conviver ate a eleicao. Acho que o efeito midiático, principalmente diante da surpresa causada, foi bebedeira que se interrompeu e começou a trazer ressaca. Mas nesse momento a bobagem já foi feita.

O fato é que, Serra e Marina, antes fortes candidatos e alternativas para todo o eleitorado, e que podiam representar risco a reeleição da Presidenta Dilma, agora são pedras nos sapatos de seus próprios parceiros partidários, e que poderão contribuir internamente, mais uma vez, para o fiasco da oposição nas próximas eleições.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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