SOBRE A VINDA DOS MÉDICOS ESTRANGEIROS, EM ESPECIAL DOS CUBANOS. Atendimento à saúde, direito fundamental de todo e qualquer indivíduo.

Matilde é mãe de dois filhos, de 5 e 2 anos. Servidora pública, marido dentista especialista e sócio de clínica, onde só se atendem particulares e usuários de planos de saúde. Enquanto ambos saem para o trabalho, os filhos vão para a escola ou ficam em casa na companhia da babá. Mora em bairro nobre da capital em um confortável apartamento. Família de classe média, conta com de plano de saúde, bons contados decorrentes de amizades de outros profissionais de sua área de atuação, nunca teve dificuldade em conseguir atendimento.

Nesta manhã Matilde acordou aflita e cansada. O filho mais novo passou a noite toda choramingando com dores que sequer o marido – profissional da área de saúde – conseguia ao menos supor e muito menos identificar. Antes de ir ao pediatra, que conseguiu imediatamente pela manhã, enquanto tomava café, postou na sua página social o trama que estava vivendo, com a enfermidade do filho. De imediato, também, recebeu a comiseração de amigos virtuais.

Tereza Maria tem a mesma idade de Matilde, e também dois filhos. O marido a deixou por outra e ela vive com recursos de um programa público assistencial, sob os escárnios dessa gente que não compreende o que significa o mínimo existencial. Não tem condições de trabalhar porque não tem com quem ou onde deixar os filhos. Mora em bairro da periferia da mesma cidade da nossa primeira personagem. Há 3 dias seus filhos estão com forte virose, com as gargantas inflamadas e febre. Nesta idade dos filhos, e para a faixa social e econômica de Tereza Maria, colocar as crianças na escola é verdadeiro privilégio que não teve, por conta da inexistência de unidade educacional na sua região.

Tereza Maria já não dorme, e não faz outra coisa senão consolar os filhos e tentar aplacar seus sofrimentos ministrando chás caseiros que aprendeu com sua vó. Durante dois dias ficou aguardando nas imensas filas dos postos de saúde mais próximo, para onde teve que tomar dois ônibus, mas não conseguiu atendimento porque os poucos médicos que trabalham ali estavam em greve por conta da proposta do governo federal em trazer profissionais do exterior. Por fim desistiu: sofrimento por sofrimento, que sofra em casa, onde tem ao menos a cama para deitar.

Nos dias de greve o esposo de Matilde, que nunca trabalhou na rede pública de saúde, foi para as ruas com faixas criticando a proposta de importação de profissionais médicos. Ela, Matilde, embora em casa, distribuiu achiques e ofensas preconceituosas aos estrangeiros, em especial aos médicos cubanos que aportaram no Brasil, nas redes sociais, numa pura expressão de xenofobismo ideológico, elitismo discriminatório, e aversão à própria necessidade de universalização do atendimento à saúde, direito fundamental de todo e qualquer indivíduo.

Tereza Maria, em casa com os filhos perrengues, via na televisão, com certo brilho nos olhos e esperança renovada, a expectativa da chegada dos médicos estrangeiros na crença de que seus filhos pudessem ser finalmente ser atendidos.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “SOBRE A VINDA DOS MÉDICOS ESTRANGEIROS, EM ESPECIAL DOS CUBANOS. Atendimento à saúde, direito fundamental de todo e qualquer indivíduo.

  • Themis Trajano

    Parabéns professor. Texto muito bom. Eu me indigno com preconceitos aos médicos cubanos que estão indo aonde ninguém quer ir. Temos cidades ribeirinhas no meu Amazonas que dá dó…. de tão precária e os ” doutores” não querem nem pensar em passar por perto o que dirá .. trabalhar lá.