O TIRO (OU A BOMBA) QUE SAIU PELA CULATRA. O caso da bomba no Rio Centro marcou em definitivo a derrocada do regime ditatorial e acelerou o processo de transição democrática, ainda que negociado.

No golpe de 1964 os militares não gastaram bombas. Tomaram o poder valendo-se do poderia bélico e do temor que isso representa, mas não precisaram gastar munição. Adotaram a tática agressiva com prisões, perseguições, torturas, ameaças, tudo antes que os “insurgentes” pudessem criar uma força compatível de resistência. Tiros, somente com armas de menor calibre (se é que pode dizer menor calibre armamentos feito fuzil), eliminando de modo secreto e esporádico os opositores mais contundentes. Mesmo assim as ações severas da repressão do regime ditatorial foram feitas na surdina, longe dos holofotes, como se eles sim, agissem na clandestinidade (embora em nome do regime e sob sua custódia).

O fato é que bombas, bombas mesmo, não foram usadas, até porque não tinham adversários belicamente organizados que impusessem medidas mais extremas. Para os resistentes, nada como um destacamento militar para dizimar sem que a sociedade e suas gerações futuras pudessem conhecer a verdadeira história, como ocorreu na guerrilha do Araguaia e que agora, com a Comissão da Verdade, renova-se a expectativa de passar a limpo.

Porém, dezessete anos depois de instalado o regime ditatorial, uma bomba explodiu e com ela deu-se em definitivo o início da derrocada do regime militar, causando um efeito devastador para os reticentes em deixar o poder, no processo que se iniciara em 1979 com a famigerada Lei de Anistia.

Em 30 de abril de 1981, enquanto era realizado um show comemorativo ao dia do trabalho, a maldita bomba (certamente foi esta a expressão dos planejadores do evento) foi detonada acidentalmente no colo de um capitão e de um sargento do exército, dentro de um carro, na entrada do Riocentro, no Rio de Janeiro, onde realizava um show comemorativo ao dia do trabalho (dia seguinte). O capitão e seu comparsa não tiveram tempo de colocar o artefato no local pretendido, com o fim de causar instabilidade política e jogar a culpa nos movimentos de esquerda. O que era para cair no colo da oposição, literalmente detonou no próprio colo da ditadura, revelando os métodos terroristas adotados para tentar manter no poder. Porém, o tiro saiu pela culatra. E, contraditoriamente, graças a esta tragédia a trajetória democrática tornou-se irreversível, ainda que negociada, cuja dívida pagamos até hoje, sob o respaldo de instituições atuais erigidas sob um regime democrático (?), como o Judiciário que assegurou recentemente a integralidade e validade da Lei de Anistia.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “O TIRO (OU A BOMBA) QUE SAIU PELA CULATRA. O caso da bomba no Rio Centro marcou em definitivo a derrocada do regime ditatorial e acelerou o processo de transição democrática, ainda que negociado.

  • luiz carlos bello

    Prezado Denival
    Acredito e espero que você seja a mesma pessoa que conheci em Minaçú, a época em que eras Juiz por lá e hospedava-se na Sama, estarei correto?
    Ontem eu estava em casa remexendo coisas, e encontrei um título de eleitor meu de Minaçú com sua assinatura, e pensei onde andará o Denival?, coloquei seu nome no Google e achei esta sua coluna sou o Luiz Carlos Bello engenheiro de segurança do trabalho. Lembro-me de quando você comprou um Renault 19 logo após um acidente e deixou-me experimentá-lo junto com meu filho Pietro lá dentro da Sama lembra-se disso?
    Envio-lhe um grande abraço e caso queira fazer um contato, meu email é luizbello@yahoo.com.br.