NOS DESTROÇOS DE CADA TRAGÉDIA SE BUSCAM HERÓIS E VILÕES. Nisso, o Estado que muitos querem ver diminuto, sempre é culpado por não fiscalizar.

A cada tragédia vivenciada surge a necessidade de se encontrar culpados e heróis precipitando os funerais. Atropelam-se a dor dos familiares das vítimas e suas memórias pelo sensacionalismo midiático, onde âncoras, repórteres e cinegrafistas, feitos abutres de microfones e câmera nas mãos, representando o papel de puritanos narradores, forçam a que o sofrimento e consternação sejam transformados em sentimentos vis de ódio e puro desejo de vingança.

Nisso cabe aos sobreviventes as fantasias de vilões ou mocinhos. Não existe meio termo ou cenários alternativos. Tudo depende de como se quer vender a história, como uma mercadoria pronta para os roteiros repetitivos da mídia televisiva. A escolha do personagem dependerá da vontade dos roteiristas midiáticos, que diante da emergência da espetacularização, renegam até mesmo o átimo de segundo no momento da tragédia, que fez com que os sobreviventes no impulso de vida escolhessem a porta de saída – abandonando o barco a deriva para salvar a própria pele – ou a tentativa inglória de socorrer outros iguais (feito o personagem de Oskar Schindler, no filme de Steven Spielberg de 1993, ganhador de 7 Oscars , incluindo melhor filme e direção, naquela cena patética de lamento no fim da trama ao perceber que podia ter ampliado sua lista de salvamento se tivesse vendido o próprio anel), ou desiguais, porque entre eles poderão também estar mocinhos e bandidos.

É preciso achar culpados para o noticiário do dia e nisso expiar nossas culpas. Envolvemos diretamente com o enredo apresentado e não conseguimos depurar a realidade, porque nos basta a “verdade exposta”, escolhida a dedo e deturpada conforme os interesses em questão.

Neste instante exigem-se a eficiência do poder público, confundido com os políticos e servidores que ocupam os cargos administrativos e que por vezes falharam de fato no seu dever. Mas não há oportunidade melhor para que os sequiosos em desmantelar o próprio Estado venham responsabilizá-lo pelas diabruras alheias. Ora?! Eis o contrassenso! No momento da desgraça, muita das vezes pré-anunciada, responsabilizam-se o poder público pela falta de fiscalização, enquanto em momentos de bonança criticam severamente a intromissão estatal, para o que as pessoas devem livremente tomar suas decisões e ações sem nenhuma amarra ou intromissão, ainda que estejam envoltos interesses coletivos.

A ladainha revivida nestas oportunidades de que as leis no Brasil “não pegam”, que “não são cumpridas”, que é “o país da impunidade”, etc., é tudo resultado de nossas próprias incúrias. Sem adentrar à discussão do caráter ideológico e político das leis, não se pode desprezar o fato de que antes de ser um instrumento que permite a fiscalização e atuação do poder público, o ato normativo, em primeira instância e diretamente, é um aparado para a conduta de cada cidadão, nos seus negócios e atividades. Neste sentido, qualquer fiscalização seria de fato desnecessária se houvesse o simples compromisso de cada um em fazer e agir corretamente, como lhe é expressamente exigido, sem que seja para isso admoestado a fazê-lo.

Por mais presente e atuante que possa ser o poder de polícia do Estado, nunca alcançara todos os indivíduos num só tempo e a todo instante. Ainda bem que é assim, porque nenhum cidadão desejaria ser e sentir-se vigiado constante e permanentemente, situação típica de regimes políticos totalitários.

Não precisaríamos, por exemplo, temer a fiscalização de trânsito quando assumimos a ingestão de bebida alcóolica, desde que, como cidadãos tenhamos a consciência da responsabilidade de não dirigir depois deste ato. Porém, ao contrário, infelizmente a prática é inversa. Muitos querem voltar para casa conduzindo o veículo, mesmo em estado de embriaguez (fato nunca admitido pelo embriagado), apostando que não se envolverá em nenhum acidente por se sentir capaz de dirigir, ou que não deparará com a fiscalização, como se o problema fosse o fiscal e não o fato de estar embriagado na direção. Conseguindo safar-nos ilesos de acidentes e fiscais, estamos prontos agora para cobrar fiscalização por parte do poder público, desde que o autuado seja o outro.

O cidadão comum, com seus vícios ou virtudes, não interessa a vilania do espetáculo. Suas condutas somente terão repercussão e se tornarão interessantes se puder em determinado contexto ser vilão ou herói, o que se revela na sanha midiática no momento da desgraça.

Eis o valor que se dá à tragédia. E só ela é notícia!

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “NOS DESTROÇOS DE CADA TRAGÉDIA SE BUSCAM HERÓIS E VILÕES. Nisso, o Estado que muitos querem ver diminuto, sempre é culpado por não fiscalizar.

  • Kássio Costa

    Belo enfoque temático “em tempos de tragédias”. Lembrei da dualidade dos fatos de morais, de Emile Durkheim, que, em síntese, demonstra que o certo ou errado, ou no caso analisado o vilão ou herói, depende do ponto de percepção que nos colocamos.
    Acho que esse enfoque midiático sobre as tragédias, mastigando a informação distorcida para pronto e imediato consumo, tem sua existência na extrema alienação da sociedade brasileira, que prefere digerir as informções rápidas e prontas. Afinal é para isso a globalização, ne?
    Isso se deve a ausência de educação de qualidade, que proporcione o pensamento, a análise e racionalização das informações recebidas. Mas esse tema, levantado a tanto tempo por tantos estudiosos é coisa de gente chata e anti-social. Qual a finalidade de educar um povo alienado? Para ele se voltar contra o poder político-econômico?

    Abraços.