OS MEDOS QUE TEMEMOS (OU DEVERÍAMOS TEMER) EM RAZÃO DA DISTORÇÃO DO SENTIDO DA LINGUAGEM.

O medo é a morte presente e constante, como disse Marilena Chauí. A morte é o medo em essência ou por natureza. Tememos morrer fisicamente e para o mundo. A morte física é o fim material; a morte política é o ostracismo que também engole nossa existência. Arrepiamos com o medo da fome – e toda ausência traz a necessidade vital de um bem perdido –, da miséria, do esquecimento, mas não tememos a avareza, o desperdício, a ganância e toda “sorte” que nos faz usurpadores e desiguais. Tememos ser mais uma vítima da indiferença humana que assola seres semelhantes, porém deixamos de temer sermos indiferentes ante as mazelas sociais e o grito dos desvalidos. Sentimos medo só de pensar em sermos ignorados, mas somos completamente insensíveis quando ignorarmos, porque apreendemos que quem ignora tem o poder de selecionar e depreciar o outro, e que ainda assim poderá ser visto e aceito, independentemente de nossas atitudes.

O medo nos abala, sobretudo quando tememos a bala. Não só o projétil da arma de fogo que rasca a noite (e o dia também), nos becos escuros ou nas praças públicas, varando o espaço vazio até encontrar um corpo para apará-la. Mas não é preciso temer a “bala perdida”, porque daquela que se perde devemos sentir alívio já que não encontrou alvo. Esta se foi e não achou um peito humano para se abrigar. Devemos temer a “bala achada”, sobretudo quando quem a encontra é o médico legista durante a autópsia. Perdido, de verdade, são aqueles que detonam tais projéteis, seja do lado de lá na condição de perseguidos pelas forças de segurança do sistema punitivo, seja do lado de cá, pelos agentes deste sistema e que não medem consequências, simplesmente por seres dotados de armamentos pelo Estado e por isso muitos se acham no direito de agir como bem entendem, porque o fazem em nome do Leviatã, tudo para o bem social (para as “pessoas de bem”, ou seria para as “pessoas de bens”?).

Santos e tremendos equívocos! Medonhos, diria!

Deveríamos temer a linguagem de quem destoa fatos e faz da notícia repertório político e fonte de controle social. A linguagem desvairada e que dá sentido à vida e aos objetos, ainda que para isso seja necessário criar neologismos e distorcer a sua etimologia. Toda linguagem subjetiva, preconceituosa e que inverte o significado das coisas para manterem órfãos aqueles que não enunciam o vernáculo que seus dominadores auto classificam culto e oficial, ao fim considerado como o único válido.

Não existe forma maior de dominação e opressão do que pelo instrumento da palavra, porque menospreza o interlocutor e o torna mudo nos seus anseios. Retira-lhe a oportunidade da conquista e a bravura de sua luta. É a fala que dispara os medos que tornam seres dóceis os ouvintes e servis ao poder dominante.

A mesma fala que atordoa e apavora traz em seguida os arremedos para conter os medos. Nesta sociedade de risco precisamos de protetores e eles se apresentam imediatamente, como a brisa suave depois da tempestade. É a linguagem que o diz e que os apresentam; é o nosso emudecimento que os aceitam e os sacrilizam.

É também pela fala persuasiva, maldosa, sedutora que se diz falar em nome de Deus, alavancando multidões de fiéis a partilhar o que não se tem, na crença de adquirir propriedades e méritos no reino dos céus, já que na terra já não há a percepção de escolhas. Tudo em nome de um Deus com o qual somente os “bem-aventurados” são capazes de dialogar. E é destes céus de onde os arrecadadores dizem ter ouvidos os recados para a coleta.

Entre o céu e a terra a linguagem flutua solta e, uma vez em mão escrupulosas, como infelizmente ocorre com quem a detém, firma-se pronta para encontrar corpos e almas lenientes, porém sempre e necessariamente apavorados.

 

 

Este texto é trecho do artigo de minha autoria: O neoliberalismo não inventou o medo, mas dele se apossou como instrumento de sua mais valia. Em: SILVA, Denival e BIZZOTTO, Alexandre. Sistema Punitivo: o neoliberalismo e a cultura do medo. Goiânia: Kelps, 2012.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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