SAÍDA NAPOLEÔNICA. Ou sem saída para todos nós!

Napoleão, já exilado na ilha de Santa Helena, reconheceu que seu fracasso deu-se quando embrenhou em solo espanhol, de onde não conseguiu se livrar. Vencido e fora de cena, ainda assim não reconheceu que seu projeto era fracassado. Ao contrário. Para justificar o insucesso de sua empreitada afirmou: “O que tentei fazer na Espanha foi para o bem daquele país, mas o povo não entendeu. Por isso falhei.”

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Embora tenha massacrado o Vietnã, o povo vietnamita não foi derrotado pelos EUA que tiveram que sair desta invasão como verdadeiros derrotados. Nos anais da história oficial da guerra, no Exército dos Estados Unidos, vê-se o seguinte trecho: “Uma nova humildade e uma nova sofisticação de métodos, devem formar a melhor parte de uma herança complexa deixada para o exército americano pela longa e amarga guerra no Vietnã.”

O que aparenta ser um discurso de humildade, na verdade, como comprova a história, serviu de ensinamento para reforçar a arrogância na definição de estratégias mais ousadas e fulminantes, nas novas incursões futuras. Foi a partir destas lições, contudo com maior soberba, que os EUA invadiram o Iraque e Afeganistão e até hoje têm dificuldades para sair definitivamente destes países com o sentimento de preservação da própria honra. Apesar da devassidão dos territórios invadidos, seus povos não se renderam o modus que se quiseram implantar, porque não tiveram a humildade para compreender que não se superam as origens, tradições e culturas de um povo com ações de brutalidade e desmerecimento. Ao fim tem verdadeiro efeito bumerangue, reacendendo nos invadidos a chama do ódio e da revolta contra o invasor.

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Tudo isso deveria servir de lição aos arbitrários da vida política. Mas, aqueles tomados de “certeza” nunca se dão por vencidos. O fato é que as decisões truculentas e autoritárias, e que ao final o exacerbador tem que recuar ou convencer-se do impossível, o faz sempre sob o argumento napoleônico: …seria melhor para aquele povo se tivesse aceitado mansamente nossa contribuição (invasão)! A propósito, e a título de exemplo, o ministro Cezar Peluso, na questão da não extradição de Cesari Bastiti, ao anunciar o resultado do julgamento, antes de sua proclamação, diz que estava convencido de que o Presidente da República tinha atropelado as atribuições do STF, isso na frente dos seus pares que o derrotaram nesta tese.

Nisso, e com as devidas proporções, somam-se salvadores da pátria por todo mundo, em toda situação de crise ou de tentativa de suplantação de padrões políticos e sociais diferentes, inclusive agora quando se discute crises econômicas e há uma preocupação contundente com temas ambientais (o momento da Rio + 20 colocou em evidência o assunto).

De salvadores da pátria o mundo está fardo. O que precisamos é de lideranças altivas, conscientes, compromissados com os verdadeiros interesses coletivos, respeitando as diferenças e as peculiaridades locais, com planejamento participativo e democrático, e que sejam desprendidos de vaidades pessoais, orgulho próprio e, sobretudo, que não estejam compromissados com interesses particularizados.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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