A MAGISTRATURA NÃO É A ÚLTIMA FLOR DO DESERTO. Melhor sair em busca de um jardim do que ter a insatisfação de uma flor ilusória.

A pressão dos primeiros meses já não era irascível, mas já conseguia controlar a ansiedade como quem esperou muito pela partida final na expectativa da decisão. Na verdade essa tensão durou pouco, até antes de entrar em campo e tão logo passados os primeiros minutos dominava tranquilamente aquela situação, lidando como se fora apenas mais um jogo em disputa.

A preocupação com acerto ou desacerto de suas decisões, algo até pouco infatigável e motivo de insônias, não poluía mais a sua mente num tormento sem fim; logo aprendera que tudo dependia de um agir com responsabilidade e compromisso ético, virtudes que havia recebido na formação familiar.

Não se surpreendia mais com o novo porque notou que o inusitado era realidade constante naquele ofício e que a cada dia revelava-lhe algo diferente, para o qual deveria debruçar-se detidamente. As angústias daqueles que vinham acorrer às suas decisões nunca se assemelhavam. Cada um trazia suas próprias cicatrizes; suas dormências; seus pesadelos; seus carmas; suas paixões; seus credos; suas cruzes; seus dramas; seus desejos e pretensões; suas esperanças e crenças; seus enganos; seus erros; suas loucuras; suas inocências; seus medos; seus dedos em riste ou o coração em sangria; suas aflições, urgências, maledicências; seus receios.

Logo percebeu que tudo, por mais igual que podia parecer, era sempre único e particular e para toda causa os demandantes queriam dele um olhar detido, contido, retido, preciso, atento, e não apenas “mais um olhar” ou um gesto autômato, burocrático de empilhar autos e contabilizar  as fileiras de números estatísticos.

Os mitos jurídicos o entediavam. E o entediava ainda mais na medida em que ia conhecendo as entranhas do ofício, percebendo que aquela roupagem que lhe fora apresentada na chegada, com a qual deslumbrava antes de conseguir êxito no concurso de juiz, eram verdadeiros placebos para ocultar a ignominia, as fragilidades, e sobretudo a pose de agentes comuns, mas que se entendiam e se portavam como seres sublimados.

Era tanto discurso vazio. Tanta chatice. Tantas aporrinhações de pessoas enclausuradas nas suas mantas negras, como verdadeiros batman’s sobre Gotham City, os redentores da moralidade pública, da segurança e da tranquilidade social. Tudo engodo que o fazia envergonhar diante dos clamares que lhe eram apresentados. Passou a ver naquelas lamúrias as duas faces da carreira: o servilismo de uma estrutura social massacrante, trocada por alguns privilégios apelidados de prerrogativas, e a rudeza do ofício por muitos achado superior.

Não dava para tolerar isso. Nem teve dúvidas. Depois de tudo dominado, como quem amassa burro bravo, não era mais culpa sua a perturbação e insatisfação. Já não havia o que temer e não tinha razões para amuar diante de nenhum possível obstáculo. Não era culpa sua, decididamente!

Constatado isso, não relutou. Abandonou tudo e foi-se, para o escárnio dos que ficaram e conjecturas de tramas e perturbações, como se estivesse desistindo da joia do Nilo ou abandonando a flor do deserto, resistentes às sagas de muitos que sequer tiveram a chance de procurá-la, enquanto ele, não obstante a aridez do destino tinha tudo as mãos, mas abandonava livremente para um mergulho na imensidão do nada (ou do tudo!). Bochichos, fuxicos, lamentos, elogios (falsos ou não, mas também motivos de enojamento), especulações, tudo uma armadilha a nós enredar.

Ele, tranquilo, todavia, indo embora sem dar justificativa – porque de fato não a devia – abandonando aquilo que para muitos – e justamente os que mais lamentam e dizem-se desvalorizados – era a última flor do deserto.

Muitos ficam, não por verdadeira afinidade à causa (nobre se exercida com altivez e responsabilidade), mas amolecidos (embora sempre lamentando) pelas remunerações, garantia da estabilidade do serviço público, pelos adornos e deferências públicas, privilégios (que chamam de prerrogativas) e cortesias baratas. Outros preferem a satisfação pessoal, e ao invés de procurar uma flor (desde logo percebida ilusória), quer um jardim.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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