O EMPREGO DA LINGUAGEM COMO INSTRUMENTO DE DOMINAÇÃO. Uma singela homenagem a Carlos Fuentes, escritor que muito bem dominou a língua, mas não a utilizou para explorar, senão para revelar as sangrias dos dominados.

Nada mais singelo, porém legítima forma de homenagear Carlos Fuentes (1928), escritor panamenho, mas radicado desde cedo como mexicano, e falecido ontem (15/05/2012) aos 83 anos de idade, entusiasta e ativista na defesa dos direitos humanos e das minorias políticas, do que partir de um de seus escritos para introduzir uma discussão quanto ao uso da linguagem como forma de dominação. Embora tenha sido um dos grandes escritores latino-americanos e, porquanto, muito bem dominou a língua, nunca dela se utilizou para explorar ou servir de suporte a dominadores; ao contrário, sua fala, com expressão de um ativismo político persistente, foi a arma que nunca abandonou para revelar as sangrias dos dominados.

Em um dos capítulos de uma de sua obra (La novela hispanoamericana, 1969), com o título de Uma nova linguagem, Carlos Fuentes analisa autores latino-americacos de língua espanhola, em especial Cabrera (Três Tristes Tigres). Partindo deste último, o escritor mexicano destaca que o colonizador espanhol se impôs, sobretudo, pela imposição de sua língua: a linguagem (dos países latino- hispânicos) foi produto de uma conquista e de uma colonização initerruptas; conquista e colonização cuja linguagem revelava uma ordem hierárquica e opressora.

Cá entre nós, recentemente, porém abordando a situação do país vizinho, Arnaldo Jabor, ao comentar a decisão da Argentina de nacionalizar a indústria petrolífera espanhola (YPF), disse que os argentinos desprezaram sua paternidade (não existia população e o próprio território argentino antes da chegada dos colonizadores espanhóis?) como se los hermanos, e de resto toda população do continente sul-americano, tivessem que ser eternamente subservientes ao explorador.

O comentarista, arauto de um nicho social oligárquico, reacionário e conservador, como ele, e que se posta de único ser crítico, despreza completamente os argumentos (válidos ou não) dos argentinos de que a empresa espanhola, que havia recebido a petrolífera portenha num processo de privatização entreguista do patrimônio público, não vinha cumprindo os compromissos assumidos quando desta transferência.

Antes que a tendência se espalhe, convocaram o articulista, sempre pronto para o trabalho sórdido nestas terras. Por certo, no país vizinho tem também os bancados pelos interesses estrangeiros e exploradores para fazer este papel. Por aí se vê que não basta a mantença da exploração. Para reforça-la e preservá-la passivamente, usa-se da linguagem, dando voz a paladinos da verdade dominante com espaço cativo na grande mídia, para asseverar a dominação, subjugando continuamente a massa populacional pela palavra.

Isso ocorreu e ocorre com o português impregnado no Brasil, cuja norma entendida como culta, expandida de Portugal e aqui dominada e monopolizada por um grupo de fardados na Academia Brasileira de Letras e que, não obstante tenham a liberdade linguística de escreverem suas obras literárias, exige da população o emprego sistemático de uma linguagem formal como única maneira de falares válidos nas instâncias institucionais e de poder (BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico – o que é, como se faz. 15 ed. Loyola: São Paulo, 2002.)

No Brasil, assim como adverte Carlos Fuentes em relação aos países latinos de língua espanhola, a utilização do português formal serviu também como método de colonização e que se estende até os dias atuais. Aos sem língua formal não se dá também condições políticas de libertação, numa perversa manutenção de colonizadores e colonizados. Embora no português/brasileiro tenham sido incorporadas expressões indígenas e africanas, sobretudo em relação a estas últimas, foram ao longo de nossa história demonizadas como fala de subculturas (CARBONI, Florence & MAESTRI, Mário. A Linguagem Escravizada: Língua, história, poder e luta de classes. São Paulo: Expressão, 2003. p. 45), impedindo que viessem a ter um destaque como forma legítima de linguagem e comunicação. Daí que, a assimilação de determinadas palavras e termos destas culturas na linguagem brasileira foi feita de modo pejorativo, dando-lhes novos significados com o intuito sempre de retratarem algo depreciativo, cômico-irônico, fortalecendo assim discriminação e a submissão destas outras populações.

Por certo os colonizadores, desde o princípio, quiseram evitar o que sempre sucedeu na Grécia. Os gregos, agora bastante em evidência pela iminência de uma bancarrota, apesar de ter um país pequeno e fatiado em diversas ilhas, nunca se deixou dominar (não há como desconsiderar o domínio econômico e financeiro agora inevitável, pela pressão da União Europeia, mais precisamente Alemanha e França), mantendo altiva a cultura e principalmente sua língua, mesmo nos tempos de possessões estrangeiras, conseguindo, ao contrário, que seus hábitos, costumes e linguagem fossem incorporados aos povos que os tentaram dominar.

Sabiam os gregos, desde então, e sabem os colonizadores de agora, que a última fronteira da discriminação e do domínio é justamente a linguagem.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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