O QUE QUEREM ESTES ASSALTANTES? Da necessidade da conversa para compreender o outro.

Estamos cheio de pretensos assaltantes. Não destes que se encabulam com o patrimônio alheio, seja por necessidade ou porque envolvidos na ideia de consumo e que suas posses não permitem, mas daqueles feitos o velho maltrapilho da narrativa de Mia Couto no conto O assalto (*). Trata-se de um personagem velho e maltrapilho que rende suas vítimas apenas para obter um pouco de prosa.

Acontece que nossos carentes e pretensos assaltantes ainda não conseguiram exercer o ofício, por ausência do bem precioso que pode(ria)m dispor suas vítimas. E de nada adiantaria subjugá-las, porque o gato terá engolido suas línguas, deixando-as ainda mais empobrecidas do bem procurado do que o próprio assaltante teria para oferecer.

Este é o grande dilema da vida moderna, de tempo escasso para um dedo de prosa, tête-à-tête. Os campos e espaços destinados aos diálogos na atualidade são virtuais. As conversas são feitas no facebook (e em outra rede social na internet), onde todo mundo se diz amigo de todo mundo, porém ninguém se conhece.

Aliás, nas redes sociais, o usuário ao meter a imagem no seu perfil, sequer perfil sobra (não sei quem inventou isso, mas quem o fez tem hoje infinitos plagiadores). Em geral o usuário enfia no lugar reservado para foto um avatar. Aí dá de tudo. É figurinha de gibi (talvez só Freud para explicar!), uma logomarca ou símbolo. Quando insere à própria imagem vem às cegas, com o rosto pela metade (vertical ou horizontal), ou de costas, ou camuflada nuns imensos óculos, chapéus atolados, barba (ou sem ela, sempre diferente do seu cotidiano), etc.

Enfim, tudo para não ser reconhecido. Mas então não me convide para ser amigo. Não consigo me imaginar amigo de alguém meia-boca, ou melhor, meio-rosto, de uma figura dos quadrinhos (ainda que seja um personagem querido). Se o indivíduo não quer ser reconhecido no mundo real é melhor que não procure amigos, ainda que virtuais.

Será que estas vias virtuais não é forma de se assaltar também, e daí a camuflagem? Ou os disfarces decorrem de outros medos? Da fala mal interpretada? Da irresponsabilidade com o que se diz? Do nada para dizer e ouvir, apenas reproduzir? Do medo de não ser ouvido, visto, sentido…

Parece mesmo que estamos todos carentes, precisando assaltar e de sermos assaltados para um teco de boa conversa. Um dedo de prosa. Uma fagulha de diálogo. Daqueles bate-papos descompromissados, com olho no olho, com sorriso farto, sem expressão de pressa ou impaciência. Da conversa amiga e sincera onde a um só tempo os participantes são falantes e ouvintes.

Precisamos ter capacidade para acolher outros assaltantes mais necessitados, fazendo-os criminosos sem crime algum, porque impossível, se quando do assaque ofertamos livremente e com prazer a conversa desejada, e antes, permitindo-lhes que se expressem, deem palpites e se lhes convierem nos peçam opiniões. É preciso que sintamos estes outros e ouvi-los. Aqueles que menos falam são os que mais têm a dizer, porque sabem contar dos sofrimentos, dos abandonos, das indiferenças, das desigualdades que experimentam, inclusive porque, para estes, o mundo moderno sequer propicia-lhes a oportunidade para uma conversa virtual, bom esconderijo e placebo para quem está carente das velhas conversas.

(*) O assalto

Uns desses dias fui assaltado. Foi num virar de esquina, num desses becos onde o escuro se aferrolha com chave preta. Nem decifrei o vulto: só vi, em rebrilho fugaz, a arma em sua mão. Já eu pensava fora do pensamento: eis-me! A pistola foi-me justaposta no peito, a mostrar-me que a morte é um cão que obedece antes mesmo de se lhe ter assobiado.

Tudo se embrulhava em apuros e eu fazia contas à vida. O medo é uma faca que corta com o cabo e não com a lâmina. A gente empunha a faca e, quanto maior a força de pulso, mais nos cortamos.

— Para trás!

Obedeci à ordem, tropeçando até me estancar de encontro à parede. O gelo endovenoso, o coração em cristal: eu estava na ante-câmara, à espera de um simples estalido. Cumpria os mandamentos do assaltante, tudo mecanicamente. E mais parvalhado que o cuco do relógio. O que fazer? Contra-atacar? Arriscar tudo e, assim sem mais nem nada, atirar a vida para trás das costas?

— Diga qualquer coisa.

— Qualquer coisa?

— Me conte quem é. Você quem é?

Medi as palavras. Quanto mais falasse e menos dissesse melhor seria. O maltrapilho estava ali para tirar os nabos e a púcara. Melhor receita seria o cauteloso silêncio. Temos medo do que não entendemos. Isso todos sabemos. Mas, no caso, o meu medo era pior: eu temia por entender. O serviço do terror é esse — tornar irracional aquilo que não podemos subjugar.

— Vá falando.

— Falando?

— Sim, conte lá coisas. Depois, sou eu. A seguir é a minha vez.

Depois era a vez dele? Mas para fazer o quê? Certamente, para me executar a sangue esfriado, pistolando-me à queima-roupa. Naquele momento, vindo de não sei onde, circulou por ali um furtivo raio de luz, coisa pouca, mais para antever que para ver. O fulano baixou o rosto, e voltou a pistola em ameaça.

— Você brinca e eu …

Não concluiu ameça. Uma tosse de gruta lhe tomou a voz. Baixou, numa fracção, a arma enquanto se desenvencilhava do catarro. Por momento, ele surgiu-me indefeso, tão frágil que seria deselegância minha me aproveitar do momento. Notei que tirava um lenço e se compunha, quase ignorando minha presença.

— Vá, vamos mais para lá.

Eu recuei mais uns passos. O medo dera lugar à inquietação. Quem seria aquele meliante? Um desses que se tornam ladrões por motivo de fraqueza maior? Ou um que a vida empurrara para os descaminhos? Diga-se de passagem que, no momento, pouco me importavam as possíveis bondades do criminoso. Afinal, é do podre que a terra se alimenta. E em crise existencial, até o lobisomem duvida: será que existe o cão fora da meia-noite?

Fomos andando para os arredores de uma iluminação. Foi quando me apercebi que era um velho. Um mestiço, até sem má aparência. Mas era um da quarta idade, cabelo todo branco. Não parecia um pobre. Ou se fosse era desses pobres já fora de moda, desses de quando o mundo tinha a nossa idade. No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território. Mas este não era um miserável emergido desses infernos. Foi quando, cansado, perguntei:

— O que quer de mim?

— Eu quero conversar.

— Conversar?

— Sim, apenas isso, conversar. É que, agora, com esta minha idade, já ninguém me conversa.

Então, isso? Simplesmente, um palavreado? Sim, era só esse o móbil do crime. O homem recorria ao assalto de arma de fogo para roubar instantes, uma frestinha de atenção. Se ninguém lhe dava a cortesia de um reparo ele obteria esse direito nem que fosse a tiro de pistola. Não podia era perder sua última humanidade — o direito de encontrar os outros, olhos em olhos, alma revelando-se em outro rosto.

E me sentei, sem hora nem gasto. Ali no beco escuro lhe contei vida, em cores e mentiras. No fim, já quase ele adormecera em minhas histórias eu me despedi em requerimento: que, em próximo encontro, se dispensaria a pistola. De bom agrado, nos sentaríamos ambos num bom banco de jardim. Ao que o velho, pronto, ripostou:

— Não faça isso. Me deixe assaltar o senhor. Assim, me dá mais gosto.

E se converteu, assim: desde então, sou vítima de assalto, já sem sombra de medo. É assalto sem sobressalto. Me conformei, e é como quem leva a passear o cão que já faleceu. Afinal, no crime como no amor: a gente só sabe que encontra a pessoa certa depois de encontrarmos as que são certas para outros.

(Mia Couto – Escritor moçambicano. Do livro Ficções 3 – Editora 7 letras)

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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