ÉTICA E MORALIDADE NÃO SÃO ATRIBUTOS A SEREM INTERPRETADOS. Enquanto se exigia ficha limpa, alguém se apresentava como ficha esterilizada.

Era uma vez, num país do hemisfério sul, de regime democrático, porém sofrido em decorrência do longo e duro período ditatorial, e que ainda respinga no presente ao escamotear o seu passado, aconteceu um episódio que abalou toda sociedade e, sobretudo a comunidade política. Nada de muito ineditismo em relação aos fatos, infelizmente, mas em relação aos papéis interpretados neste drama de ficção e realidade ao mesmo tempo.

Havia um Senador da República que foi apanhado em conexões inescrupulosas com lobista, corruptor, contraventor, e toda sorte de condutas ilícitas envolvendo agentes políticos, servidores públicos e a dinheirama do contribuinte. Sabiam-se dos fatos, mas não do personagem. E os burburinhos, feito um pequeno fio d’água, transformou-se em forte corrente, com volume e obstáculos suficientes para formar cachoeira. Mas não era uma queda qualquer. Apesar do esplendido deste fenômeno na natureza, ali a torrente levava tudo, feito um tufão que vinha engolindo e regurgitando ao mesmo tempo, deixando um rastro de avalanche e tragédia por onde passava.

Numa casa legislativa, como o Senado, formada na sua imensa maioria por integrantes advindos  de outros postos políticos, com larga experiência e supostamente mais comprometidos com os interesses de seus eleitores, não ficou nada bem. A instituição sentiu o abalo e viu aumentar o descrédito da sociedade em relação à classe política.

Os Senadores se escondiam, se amoitavam para não serem confundidos com o vilão. Ninguém sabia exatamente quem era a figura daquela boataria que a cada dia se revelava com novos fatos e, por isso, não queria ficar de bobeira, à mostra, sujeitando a ser apontado como o tal. E depois, para desfazer o imbróglio?

Quem poderá nos salvar? Era a pergunta que corria pelos corredores e nos gabinetes. Esperava-se a voz de um herói que pudesse desbancar de vez a vilania e colocasse no devido lugar aquele que ali se infiltrara para macular a honradez daquela casa. Mas, era preciso que surgisse logo, imediatamente, antes que a praga pudesse se alastrar naquela instituição e não houvesse mais tempo para estancar.

A imprensa, impetuosa e afoita pelo pior, sempre na tática da melhor espetacularização possível, aguardava com ansiedade a derrocada final do infelice até então anônimo. Mas, ao mesmo tempo, desejava o prolongamento da estória, a fim de alimentar os noticiários de cada-dia. Nisso, contava com a contribuição de outros agentes estatais, que soltavam a conta-gotas os folhetins das cenas de novos episódios, mantendo acessa a chama do interesse popular pela novela que se desenvolvia.

Quando, por fim, todos ansiavam para que o herói anticorrupção, criado por alas mais conservadoras da política nacional e pela própria imprensa, saísse de sua trincheira puritana para assumir o púlpito, e dali, com sua vestal da ética e moralidade, como que detentor de uma ficha política esterilizada, vociferasse em bom tom o discurso que haveria de ser temido pelos fracos, corruptos, detratores e adversários de todo interesse social, eis que a espera transforma-se em enorme desapontamento e incredulidade.

Pior do que uma espera em vão, a enxurrada trazida pela queda d’água, naquela imensa cachoeira, empurrava o personagem do herói sem maquiagem, revelando que era ele, fora do palco e de suas interpretações, sem seus disfarces, o próprio anti-herói.

Ninguém poderia imaginar um desfecho tão trágico. Mas ele? Logo ele? É, a máscara caiu!

O povo daquele país, até a pouco se sentindo entusiasmado com a possibilidade de uma nova realidade na vida política, por ter conseguido, a partir de sua iniciativa, a edição de uma lei que exigisse políticos fichas limpas, viu derruir o herói mistificado pela imprensa.

Os bajuladores se foram. A imprensa que o criou mudou de lado, das colunas sociais o puseram nas páginas policiais. Os parceiros políticos fugiram, deixando-o só. O eleitorado que o fez Senador se envergonha e se desanima. Os adversários políticos, apontados com dedo em riste como sem vergonha na cara, e autores de todo rol de atrocidades em que fora apanhado, dão (não publicamente) enormes gargalhadas.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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