ENCONTROS E POUCOS “BONS DIAS”. A rotina de uma ascensorista do elevador privativo do Fórum. (da série: Crônicas de ascensorista)

Os encontros são inevitáveis e diários. Por vezes mais de um ao dia. Pela manhã, dirigindo-se ao andar de trabalho; no meio da manhã para a copa tomar café; no horário do almoço; no meio da tarde novamente para o café; e à tardezinha, no final do expediente; e alguns durante o dia, em horários variados, geralmente com muita discrição, no vai e vem entre andares para visitar outros colegas e estabelecer os contatos jurídicos e principalmente políticos da administração e gestão judiciária.

Alguns combinam horários e quando não coincide de estarem no local ao mesmo tempo, sempre me perguntam pelo outro.

– Fulano já chegou? Fulano já subiu (ou desceu)?

Ou ainda:

– Quando fulano chegar, diga que já estou no meu gabinete (ou tive que sair mais cedo). Diga ao fulano que hoje vou almoçar em casa.

No fundo sirvo também de mensageira. É até bom para fugir um pouco da rotina de ascensorista. Aperta botão, abre porta. Aperta botão, fecha porta. Sobe, desce. Entra e sai pessoas, e eu ali, imóvel naquele assento minúsculo que mal cabe a bunda. No final do dia haja dor nas costas e no trazeiro, mas tem que recuperar para o dia seguinte.

E assim todo dia, sempre a mesma rotina.

Apreendi os horários de cada um e já sei quem vai chegar, subir, descer, ir à copa. Só não dá para descobrir os horários daquelas escapadelas nas visitas quase ocultas durante o expediente para os contatos políticos, embora sejam sempre os mesmos, sozinhos ou em duplas e até em grupos de três, não mais.

Ah, os “bons dias!” Sim, os cumprimentos.

Nem todos cumprimentam.

Geralmente os usuários, quando cumprimentam é apenas com um pequeno movimento de cabeça, sem um balbucio sequer. E não importa se o elevador está ou não vazio. É porque a pessoa é assim mesmo, sem lado (com a gente, não com aqueles com quem tem interesses comuns).

Mas já apreendi a conviver com isso e já não me importo. Se não querem papo, não serei eu a puxá-lo, até porque certamente sua conversa não vai me motivar nem um pouco.

Assim, muitos entram mudos e saem calados, quando estão só. Se conversam, é apenas para perguntar se fulano já chegou, já subiu, desceu, enfim, coisas de seu exclusivo interesse. Quando juntos, entram conversando e saem conversando, não interrompendo o assunto para me dirigir um cumprimento. Como já sei o andar de cada um, nem pergunto, só aperto botão.

Outros entram falando e saem falando. No celular. Não suspendem a conversa e pouco se importam se tem outras pessoas no elevador. Isso quando não atendem o celular durante o percurso (curto, de não mais que alguns segundos). O assunto continua o mesmo, e não se dão conta da necessidade de reserva e de respeito aos outros passageiros[1]. Quando há perda da qualidade do sinal, aumentam a voz e ficam repetindo a mensagem ou pedido que o interlocutor repita. E falam de tudo, sem nenhum pudor. Esquecem que ali tem outras pessoas e que tem ouvidos.

– Ah? …Como? …Não entendi? …Fale mais alto? …Vai acabar minha bateria!

É, não tem um pingo de desconfiomêtro. Geralmente a conversa é sobre todas estas coisas de gente que se diz chique. Parece que a intenção é justamente mostrar aos outros de sua vida dita glamourosa. Às vezes tenho a impressão que não existe interlocutor nenhum, apenas fantasia do falante para aparecer.

Fico rindo em meus pensamentos.

Tem aqueles que parecem estar sempre mal humorados. Não dizem nada, sequer com outros colegas seus que adentram ao elevador. É uma sisudez constante. Não existem bons dias para estes. Ao menos não incomodam. São sistemáticos e não falam ao celular, não pedem para esperar um pouco, tem sempre um percurso único e em horários bem definidos.

Quando acontece algum fato noticioso ou rumoroso no Fórum ou Tribunal, ai sim, todos querem extrair de mim algum informativo atualizado, como se eu fosse uma central de notícias. Às vezes estes fatos me deixam também curiosa e no diminuto espaço do elevador, sem condições de sair, guardo minha curiosidade, esperando que alguém deixe escapar informações atualizadas.

Não posso ser injusta. Alguns são muitos solícitos, gentis, afetuosos. Mas, deste grupo, se nota logo que alguns têm o único propósito de tentar demonstrar que não se sentem superiores, e nisso acabam deixando transparecer a arrogância que permeia este gesto. Outros não. Agem com sincera cortesia, os verdadeiros e autênticos. São simpáticos e sempre me cumprimentam. Sabem respeitar minha individualidade e se preocupam com ela. Quando estamos sós perguntam sobre minha família e me dão espaços para perguntar também das suas. Há uma cordialidade. Quanto tem outros passageiros no elevador, ficam mais acanhados e só me cumprimentam. Mas já percebi que isso é para preservar minha intimidade e não deixar-me envergonhada frente a outras pessoas.

E nisso o dia passa. No outro dia, tudo se repete.


[1] 1.1 Esta Norma fixa as condições exigíveis na elaboração do projeto, fabricação e instalação de elevadores de passageiros, com o fim de adequá-los com características para transportar pessoas portadoras de deficiência que podem locomover-se sem o auxílio de terceiros. (Fonte: ABNT/CB-04 – Comitê Brasileiro de Máquinas e Equipamentos Mecânicos. CE-04:010.14 – Comissão de Estudo de Elevadores para Pessoa Portadora de Deficiência. NBR 13994 – Passengers elevators (lifts) – Elevators (lifts) for the handicapped people transportation. Descriptors: Elevator (lift). Handicapped people. Esta Norma substitui a NBR 13994:1997. Válida a partir de 30.06.2000)

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

2 respostas para “ENCONTROS E POUCOS “BONS DIAS”. A rotina de uma ascensorista do elevador privativo do Fórum. (da série: Crônicas de ascensorista)

  • Renan

    Muito bom o texto excelentíssimo .

  • Janaína

    Fugindo um pouco do assunto, mas ao mesmo tempo mencionando o caos em que mergulhou o judiciário goiano, insta ressaltar que as ascensoristas trabalham o dia todo não é mesmo? Das 8 às 18, enquanto o atendimento do fórum está restrito ao período da tarde. Pasme: as atendentes do telejudiciário também só estão disponíveis a tarde. Ou seja, até para obter informações o jurisdicionado tem que aguardar o meio dia. Isso para ser otimista, eis que meio dia é o horário do almoço. E o que se faz no horário do almoço? Atender o telefone, estar no balcão dos cartórios pontualmente e localizar processos certamente não estão no rol de atividades do meio dia. Talvez a partir das 13 horas, afinal após o almoço é necessário dar um tempo para se fazer a digestão. Diante dessa e de tantas outras realidades questiona-se: Como manter acessa a paixão pela advocacia?