QUANDO A DECISÃO POUCO IMPORTA. Pode não se ter mais tempo de ser livre. (crônicas de ascensorista)

Aquele Senhor chega devagar e neste ritmo entra no elevador. De tão sistemático, pode-se marcar hora: 15h30. Se, exatamente neste horário, não estiver em frente ao elevador esperando é só dar uma olhada fora que o verá se arrastando vagorasamente, próximo à porta. Neste caso, pode-se acertar o relógio porque com certeza estará um pouco adiantado, restituindo para às 15h30. Quanto chego e ele já esta aguardando, descreve exatamente o tempo perdido:

– Olha, hoje você se atrasou 2 minutos e 20 segundos!

Contudo, essa observação não é maldosa. Apenas para registrar a sua pontualidade já conhecida e comprovada.

Soube, por indagações de outros juízes ainda no elevador, que ele ficou na magistratura por mais de 40 anos e somente aposentou-se ao completar 70 anos, por força da lei. Depois de aposentado já se vão 23 anos e mais de 17 de viuvez. Apesar da idade, há uns 10 anos voltou a frequentar, na 2ª, 3ª e 5ª feiras, o prédio do Fórum. Só não vêm nas 4ª e 6ª feiras porque tem sessões de fisioterapia.

Isso tudo já chama a atenção. Porém, recentemente, ocorreu um fato marcante. Ao encontra-lo esperando na porta do elevador e convidá-lo a entrar, fui logo perguntando, como de práxis, se ele iria para o andar de sempre, no que obtive a resposta.

– Acho que não. Não sei. Primeiro você decide para que tome o elevador.

– Como? Eu não posso decidir porque não sei o que o Senhor deseja fazer.

– Nem eu mesmo sei. Já decidi muito na vida, e para os outros. Poucas vezes decidi para mim. Descobri, aliás, que não sei tomar minhas decisões. Venho a este Fórum a uns 10 anos, quase todos os dias, sempre no mesmo horário, e vejo os fuxicos das pessoas questionando o que estou fazendo aqui. Percebi que nem eu sei, mas por força do hábito venho. Não se trata de uma decisão, apenas hábito.

– Mas o Senhor vem ver os amigos, bater papo.

– Não sei também se ainda tenho amigos. Os meus verdadeiros amigos já faleceram. Hoje é tudo muito rápido, ninguém tem muita paciência de ouvir a gente. Às vezes fico lá na sala sentado. As pessoas entram, saem, uns cumprimentam, outros não. Quando veem conversar comigo é a especulação de sempre: – quantos anos têm? – quanto tempo o Senhor já está aposentado? – quanto tempo ficou na magistratura? – o Senhor está forte, heim? É como se desejassem que eu estivesse fraco.

– Mas as pessoas dizem isso com carinho!

– Carinho? Não!

Nisso ouvi toques desesperados em um andar solicitando o elevador. A rapidez e urgência a que ele se referia.

– Olha, vamos ter que subir, porque estão me chamando. O senhor já sabe para aonde vai?

– Não, a escolha é sua. Mas como você ainda não decidiu, fica a vontade. Vá lá buscar o apressado. Vou ficar aguardando aqui embaixo. Quando voltares irei para o andar que você escolher.

Fui e voltei rapidamente. Aquele Senhor não estava mais ali e nunca mais o vi ou ouvi falar dele.

Anúncios

Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “QUANDO A DECISÃO POUCO IMPORTA. Pode não se ter mais tempo de ser livre. (crônicas de ascensorista)