O MOTORISTA. Como são conduzidos alguns privilégios e as relações sociais na República.

Rogério é motorista. Fica o dia todo à disposição do seu chefe. Embora seja pago pelos cofres públicos Rogério cumpre algumas tarefas bem privadas a mando do seu conduzido que acha aquilo mais do que natural. É como se fosse um criado à sua disposição.

Durante as folgas das andanças da chefia, Rogério tira o tempo para manter sempre limpo o carro, por exigência do conduzido. Fora isso, aguarda, juntamente com outros motoristas, na garagem da repartição, esperando o final de expediente para levar o chefe em casa, a quem chama de patrão, ainda que seu pagador seja o poder público, isso quando não lhe determina acompanhar a “patroa” (esposa do chefe e que não é agente público) nas incumbências de casa: fazer feira, supermercado e outros deslocamentos.

Na saída da repartição é sempre o mesmo horário. Assim, Rogério às 18 horas já está rente à porta do passageiro aguardando o conduzido. Quando chega, imediatamente a abre para que o passageiro entre. Trata-se de um senhor bem trajado e vendendo saúde. Quando o chefe traz uma pasta e/ou o paletó nas mãos, primeiro recolhe estes penduricalhos para assentá-los cuidadosamente sobre o banco dianteiro do passageiro. Só depois volta para abrir a porta traseira para que entre. Tudo no maior estilo vassalagem.

Rogério liga o carro e saem da garagem subterrânea por uma via lateral. Não há conversa, salvo quando, eventualmente, há uma mudança de roteiro que é informada imediatamente. Nestas oportunidades Rogério sabe que seu turno irá prolongar um bocado. Porém, nas rotinas diárias, andam exatamente quatro quadras. Pronto. Para o veículo, dá a volta e abre a porta do passageiro. Apanha os pertences do chefe e os entrega cautelosamente, na ordem determinada: primeiro o paletó, que a sua Excelência coloca sobre os ombros, depois a pasta ou outros documentos. Então, está entregue em casa.

– Até logo. Amanhã me apanhe exatamente às 8h.

– Até logo. Bom descanso.

Então, Rogério dá uma volta de mais umas 8 a 10 quadras, dependendo do trânsito do momento, retornando ao estacionamento da repartição para guardar o veículo. Tranca-o, guarda as chaves no bolso e sobe a passos lentos a mesma rampa que ainda pouco havia saído com o carro. Toma a rua e desce pela mesma via que havia feito a pouco. Terá que seguir uns 12 quadras para chegar ao ponto de ônibus que tomará para ir para casa.
No trajeto já encontra o chefe, de trajes esportivos, fazendo uma caminhada em torno da praça em frente a qual morra e também frontal à repartição que trabalha. Sem nenhuma desfaçatez, cobra:

– Rogério, não vai se atrasar amanhã, heim!

– Pode ficar tranquilo!

Na verdade é falta do que dizer, porque Rogério nunca se atrasou.

Anúncios

Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Os comentários estão desativados.