A ENFERMIDADE DO DESEMBARGADOR. (crônicas de ascensorista)

Já fazia alguns dias que ele não aparecia. Ouvi alguns perguntando por ele e respostas de outros de que teve um problema de saúde. A partir daí as coisas disseminaram.

– Ah, então o desembargador está adoentado?

– É! E pelo que ouvi é sério. Provavelmente nem volte mais.

– Será mesmo que terá que se aposentar? Olha que ele ainda estava longe de ser alcançado pela “compulsória”!

– É, mas veja por outro lado. Significa que teremos uma vaga imediata no Tribunal e que não estava sendo contabilizada para agora.

– Ah, sim! E tem mais, ele é de carreira, não é?

– É. É de carreira.

– Pois é. Sendo assim vai abrir uma vaga por antiguidade.

– Com isso fulano vai ser promovido e eu entrarei no primeiro quinto.

– Que bom. Então a partir da próxima vaga você já poderá concorrer.

Esta conversa se prolongou enquanto descíamos do 11º, os dois juízes em prosa, como se eu não estivesse ali.

No ritmo ainda daquele bate-papo, com os olhos em brilho com a iminência de uma nova vaga no Tribunal, o que representaria um passo a mais para suas perspectivas de chegarem a ocupar o cargo de desembargador, chegamos ao subsolo e a porta se abriu. Eis que o personagem do qual falavam estava ali esperando para tomar o elevador.

O próprio, Sua Excelência, o Desembargador do qual falavam. Em carne, osso, corado e com semblante bastante renovado e animado.

Ao vê-lo, os dois se entreolharam e saíram imediatamente, se espremendo na porta do elevador, ambos num passo e gesto rápido para cumprimentar o até pouco moribundo. E os dois, quase num coro uníssono, como se tivessem acabado de ensaiar:

– Que prazer vê-lo desembargador! Como vai o senhor? Ficamos sabendo que esteve adoentado? Mas pelo visto já se recuperou?

– É sim! Foi apenas uma gripe forte que o médico chegou a pensar que pudesse ser pneumonia. Mas agora estou bem. Aliás, muito bem, pronto para o trabalho.

– Que bom. Ficamos felizes em saber que se recuperou rápido. Cá entre nós, a ausência de Vossa Excelência (assim mesmo, com cacofonia) no Tribunal é muito sentida. Não assumem isso, mas a sua Câmara fica quase órfão.

– Bondade suas. Sem falsa modéstia tenho dado boas contribuições nos julgamentos ali, sobretudo para consolidar alguns entendimentos.

– Nós sabemos disso. O Senhor é um expoente e que não pode deixar-nos tão cedo. Quem sabe, antes do Senhor atingir os 70 anos, a idade compulsória para a aposentadoria não será elevada? Assim poderá ainda ser Presidente do Tribunal.

– Tomara. Que Deus vós ouçam!

– Vossa Excelência pode anotar isso, porque irá acontecer. Mais uma vez felicitações por seu retorno.

Ao fim, os dois juízes saíram para a garagem, enquanto o desembargador embarcou. Subimos, eu e ele. No trajeto comentou comigo que gostava muito daqueles rapazes (juízes), sobretudo porque sempre foram gentis contigo e preocupados com sua saúde.

Apenas concordei.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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