DO LADO DE LÁ DO MURO. Qual é o verdadeiro muro que nos separa?

Nada pode ser pior do que estar do lado de lá do muro. O lado de lá, para quem está trancafiado, é o local público, “terra de ninguém”, é o espaço livre para os devaneios e as ações dos vândalos. É o lugar onde tudo aconteceu e resultou no seu aprisionamento, desde a vida pregressa esquecida, ao escárnio e ojeriza do ocorrido. É o vácuo do direito e o direito no vazio das liberdades de todos e em suas contenções.

Do lado de lá do muro é a liberdade sem poder usufruí-la. É o querer ter, o necessitar, a precisão material de bens, a possibilidade de desfrutar de atenção e cuidados, mas não poder se esbaldar de nada disso, porque as condições econômicas e sociais não lhe permitem ou o exclui destes devaneios.

Mas, nada pode ser pior do que estar do lado de cá do muro. O lado de lá, para quem está de cá trancafiado, não limita o pensamento, a indignação, o ódio contra as injustiças ainda que tenha que entregar o corpo em pelo para as chibatas. Ainda que ressoe em suas estruturas o grito dos oprimidos e o pavor do pelourinho, ainda haverá a possibilidade da leveza dos sonhos e a esperança de um horizonte. O lado de lá quer expiação, arrependimento, pedido de perdão, mas o faz com fúria dos Titãs.

O fato é que os muros de arrimos não servem para separar, apenas para acentuarem as diferenças. Os muros dos presídios escondem a escória, o dejeto humano que quem está do lado de cá quer camuflar, embora permaneçam presentes diante de nossas vistas para que saibamos que existem. A solidão do xadrez e o seu amontoado, não é maior que o pavor dos muros de arrimo que cercam todos, dentro e fora, desta bestialidade humana.

Muros condominiais, acoplados com suas cercas elétricas, câmeras de vigilâncias, guardas fardados, guarnecem as posses de alguns, mas não os livram da convivência dos desiguais e despossuídos. Todos os dias domésticas, jardineiros, serventes, encanadores, garis e tantos outros serviçais colocados no fim da linha da escala laboral, adentram estes espaços e ocupam seus domínios, com a advertência de que ali são chamados para servi-los, tão somente. Ao final do expediente todos são lançados fora, para o sossego madrigal das potestades patrimoniais, mas com a tensão constante do aprisionamento de ter no dia seguinte que sair destes limites.

Muros de Berlim, entre o capital e o socialismo, ruíram no tempo, embora as divisões permaneçam neste emaranhado de entulhos. Muralha secular como da China, que no passado prendeu mais operários nos seus rebocos do que o cerco aos virtuais rivais, servem hoje apenas ao deleite do turista, para ser visto inclusive do espaço. E se a China não é toda esta dimensão territorial como única nação, não é por este marco divisório, mas em razão das dicotomias sociais que ascendem diariamente, entre um misto cada vez mais progressivo de uma elite milionária e uma população de miséria incontida, explorada nas relações de trabalho, mas que produz toda sanha consumista para o mundo ocidental; entre uma cultura milenar cheia de rituais e tradições e um ambiente hóstil de urgências e que se diz moderno.

Os muros das lamentações aparam os clamores de tantas outras divisões, mas não se rompem para a passagem das divergências de outras tantas desigualdades. Suas frestas, de tanto desejo enfiado, por tantas cobiças e individualidades, já foram tapadas para o mais tênue sopro de paz entre povos irmãos.

Muros políticos e ideológicos apropriam-se dos bens públicos e sucumbem a maioria da população aos seus desmandos. Martirizam os direitos sociais e deixam morrer a míngua pessoas sem acesso a saúde e educação. Expulsam os invasores de seus casebres numa sociedade em que o poder público não assegura o direito fundamental à moradia, causando um contrassenso sem igual, ainda com a desfaçatez de preservar os bens comuns e interesses coletivos exclusivamente para um nicho social.

Os verdadeiros muros que nos cercam e que nos separam são invisíveis. São muros sem tijolos e cimento, embora mais sólidos que as muralhas da China e tantos outros paredões que já bloquearam e ainda bloqueam nosso livre trânsito. São muros sobre nossas consciências, nossos preconceitos. Muros que não se implodem, mesmo com avanços tecnológicos e científicos, com a avalanche do tempo, com as amargas experiências históricas de conflitos e sacrifícios humanos em nome de divisões bestiais.

Como haverá de ser o lado de lá deste muro? Penso que fica depois da linha do horizonte, dos sonhos encantados, dos sorrisos sinceros das crianças, da temperança dos idosos, da parcimônia e alegria dos adultos numa roda de amigos. É um recanto sem cobiça, sem preconceitos e discriminação, de igualdade de direitos na multiplicidade de culturas, de crenças, de ideologias, de convicções… Alguns chamam este lugar de paraíso; outros de mundo possível, a depender da nossa vontade!

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “DO LADO DE LÁ DO MURO. Qual é o verdadeiro muro que nos separa?

  • celma Maria bizzotto

    um poema meu pra vc

    INSÔNIA

    Noite fria escura e sombria
    Os problemas se agigantam
    Se não os tem, passa a ter, você os cria
    Numa intensidade até então desconhecida.
    Seus sentimentos emparelhados, cúmplices
    Com terror dessa paisagem
    Sim, não é noite do enamorado
    É noite do desesperado, do agoniado.
    Seu corpo já esgotado do fazer do dia
    Pede clemência, que alivia
    Sua mente quer asas que guiam.
    Você sabe que amanhã o sol há de surgir
    Você sabe o tudo não mais existir
    .Você sabe, também vai repetir.

    Celma Maria bizzotto