SOBRE PAIS E FILHOS. CRIANÇA E ADOLESCENTE, SUJEITOS DE DIREITOS: Entre a crítica à proibição da palmada e sua regulação há sempre a postura autoritária e deseducadora.

 

Certa vez lecionei num curso da academia de polícia para formação de soldados, onde se discutia direitos fundamentais. Dentre os temas tratados, constava do programa informações básicas sobre os direitos da criança e do adolescente. Antes de qualquer abordagem em relação ao tema, indaguei o que achavam do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990).

Era a deixa que queriam. A turma, de uns 40 a 50 alunos, foi quase uníssona afirmando que agora não se pode mais educar filhos porque a lei não permite sequer dar umas palmadas. O curioso é que a referência imediata em relação ao ECA, em qualquer grupo não acadêmico e técnico que se queira discuti-lo, é sempre tratando da punição, desprezando que antes de tudo isso é importante destacar que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos.

Entre o desapontamento desse tipo de reação, porém já esperado (a pergunta já trazia consigo esta capciosidade), entrei em campo com a intenção de inverter o jogo. Como os ouvintes eram soldados recém ingressos na polícia militar, com faixa etária inferior a 30 anos, certamente poucos já com a experiência paterna (mas com a perspectiva de que o pai tem poder supremo sobre o filho, inclusive com o dever de aplicar castigos corporais), lancei um desafio. Perguntei quem tinha cachorro em casa. Um bom número se apresentou. Continuei indagando para saber a raça dos animais. Encontrei alguns que tinham animais da raça pit bull ou rottweiler, raças sabidamente agressivas se não forem bem adestradas.

Ah, os primeiros elementos estavam postos!

Quis saber então como lidavam com seus cachorros, se utilizam de espancamentos e agressões, ou, se assim não fosse, porque não os puniam com surras para conseguirem domesticá-los? A resposta foi agora unânime: tratavam com afetos seus animais e sabiam perfeitamente que se agissem de modo diverso suas crias poderiam transformar-se em feras indomáveis.

Pronto, chegaram onde eu queria.

Pois bem. Se têm a capacidade de perceber que com os cães, seres irracionais, o tratamento tem que ser de docilidade e afeto, porque do contrário serão agressivos e violentos, o que me dizem do filhote humano que tem cognição, é extremamente dependente (diferente dos demais animais), possui inteligência racional e está em face de aprendizado para discernimento do que é certo ou errado (do ponto de vista moral de quem educa e do que se quer socialmente), para compreender as relações humanas de afeto e rejeição, e, por isso tudo, é muito mais sujeito as influências do meio em razão de estarem em fase de desenvolvimento da personalidade?

Emudeceram!

Sugeri, então, aos pais presentes (e futuros), possuidores de cães em especial, que chegassem em casa e colocassem os filhos no canil, talvez assim pudessem dispensar-lhes amor e afetividade de modo a proporcionar-lhes a formação de um ser humano que não venha a se tornar também numa besta fera.

Para alguns parece que a ficha caiu. Outros, nem tanto, achando a comparação uma bizarrice (como era bizarro alguém querer intervir no modo em que pretende (des)educar os filhos).

O fato é que este sentimento de posse, e em razão deste equívoco achar que podem fazer o que bem entendem com seus filhos, inclusive descarregar as frustrações pessoais sobre eles, é um vício que ainda acompanha gerações, independentemente da posição social. A relação de muitos pais com seus filhos é às vezes pior que com animais que têm em casa. Até o tempo de convivência com seus animais de estimação superam em muito o tempo que dedicam aos filhos. No fim, justificam que não deixam faltar nada e que não compreendem porque os filhos agem assim ou assado.

Esquecem-se, todavia, de que não só de pão vive o homem (a criança)! E que é mais fácil encontrar alguém fora de casa, que supra a necessidade de comida, do que a carência de amor.

Somado a isso, existe uma cultura nefasta, uma relação de vingança. Muitos relevam um sentimento rancoroso e extremamente autoritário ao tentar justificar estas práticas com argumentos do tipo: “….quando eu era criança apanhei muito do meu pai e da minha mãe; …se não colocar limites, depois de adulto ninguém controla; não quero que meu filho vire bandido, por isso é necessário corrigir agora; … tem situações que somente dando umas boas palmadas para resolver; … eu quero o melhor para o meu filho é por isso é necessário corrigi-lo agora, enquanto é tempo.” E por aí vai.

Tentei, a partir destas lembranças nada positivas, porque recordavam com muito rancor das surras que levaram (alguns faziam inclusive questão de revelar a injustiça que sentiram), o quanto aquilo em nada contribuiu para suas formações, ao contrário, só deixou amargor. O fato de terem seguido uma vida com retidão e responsabilidades não foi, com toda certeza, em decorrência destas falsas “correções” recebidas em casa. Porém, se aquelas agressões ainda lhes atormentavam, porque então, agora como adultos e capazes de se defenderem, não procuravam os próprios pais para superar estes traumas do passado? O certo é que ninguém ali, e nenhum de nós, conceberia a hipótese de chegar para os pais para resolver na pancada as surras tomadas no passado, embora houvesse um equilíbrio de forças físicas e de discernimento. Mas não viam iguais absurdos quando se davam o direito de utilizar dos mesmos métodos, surrando os próprios filhos, como que rememorando o fato de terem apanhado enquanto crianças, agredindo seres indefesos e em processo de formação e desenvolvimento.

Enquanto se discute a possibilidade de dar ou não palmadas, apenas um neologismo para permitir o ato de violência contra os próprios filhos, não se estende a preocupação com as responsabilidades afetivas e educadoras dos pais. E não é pela baixa lesividade da palmada, mas em virtude do seu simbolismo de agressão e forma de solução dos conflitos que se prepara o indivíduo para também sentir-se no direito de dar porrada, ou se acanhar de vez diante de seus obstáculos, fechado em seus temores.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “SOBRE PAIS E FILHOS. CRIANÇA E ADOLESCENTE, SUJEITOS DE DIREITOS: Entre a crítica à proibição da palmada e sua regulação há sempre a postura autoritária e deseducadora.

  • Elizabeth

    E lá vou eu de novo meu caro Meritissimo!
    Como ja falei em post anterior, tenho um filho de 14 anos e pouquissimas vezes precisei puni-lo com algum tipo de violencia fisica, todavia sou adepta de que uma boa palmada, numa determinada hora funciona. Não pela agressão, mas pelo susto que a criança toma naquele momento. Meu filho é bem cordato ate pela idade dele, mas há momentos que ele não controla as emoções, acho que em função da idade, adolescencia, não é criança nem adulto, ele fica, digamos, malcriado e por mais que eu e o pai dele conversemos, e temos conversa franca, clara e objetiva com nosso filho, não funciona. Aí sim sou adepta de uma boa palmada, e é palmada mesmo porque ele é maior do que eu, portanto não é a agressão fisica, mas o susto que ele toma, age como se pegasse no tranco. Neste momento, ele cai em si e nota que passou dos limites. Não se trata de posse sobre meu filho muito menos descarregar frustações nele. E meu filho é um menino pacifico, so brigou na escola uma unica vez e porque eu autorizei, ele tinha 8 anos e vinha sempre para casa machucado, pois não revidava as agressões sofridas, porque eu o criei, dizendo que não é com briga e porradas que se resolve alguma coisa. Eu avisei à escola que estava autorizando meu filho a revidar e que se ele voltasse para casa machucado iria leva-lo a exame de corpo de delito e processar a escola. No dia seguinte, alguns meninos vieram agredi-lo ele revidou e o problema acabou, nunca mais ele precisou brigar na escola.
    Quando falo aqui sobre a palmada, não estou dizendo ser adepta de “espancamentos” em crianças ou qualquer outro ser. Vi coisas absurdas quando fiz meu estagio no Hospital Municipal Souza Aguiar, pois sou administradora com especialização em Administração Hospitalar, profissão muito desrespeitada no Brasil, mas fiz porque amo o que eu faço, e isto não é a questão no momento.
    Mas acho sim, que colocar um limite “sério” num filho, nos livra de problemas bem maiores adiante. Porque a vida bate bem mais do que uma palmada dada pela mãe.