AS TROPAS ESTÃO NAS RUAS, corroendo nossa democracia.

Com este texto comemoro meu centésimo post. Queria festejar a marca com um texto leve – quem sabe com uma crônica ou poema – sem muita sediciosidade.  Mas os últimos acontecimentos não me deixam passar em branco. O autoritarismo reinante nos aflige, atingindo em cheio nossa democracia, demonstrando o quanto ainda precisamos caminhar para solidificá-la.

As tropas estão nas ruas e não estão para brincadeira. E polícia militar nas ruas, quando o objetivo não é para cumprir o papel de policiamento ostentivo, é coisa séria. Existe uma orquestração política para defenestrar os movimentos sociais. É só surgir uma manifestação e a repressão vem imediata, com a transferência sintomática dos problemas para a esfera da segurança pública, quando a rigor estas demandas são reflexos de questões sociais não atendidas.

Os governos estaduais, justos pelas omissões em relações a estes temas candentes, e por outro lado compromissados com outros setores da sociedade, em especial econômico, não têm a mínima tolerância com os tais movimentos sociais, com os indivíduos lançados nas sarjetas de prédios abandonados, em grande medida resultado da falta de uma política urbana séria e comandada pela especulação imobiliária, dos inoportunos aos olhos de todos – sobretudo dos turistas – e com a própria violência urbana, que é tratada com táticas de combate e enfrentamento de guerra.  

Não há mais espaços para diálogos e negociações. É preciso manter “a lei e a ordem”. É preciso afugentar a escória e expelir os “maus” dos espaços destinados às “pessoas de bem” (aquelas que todo dia olham no painel do impostometro, coisa inventa pelas elites paulistas, para saber quanto o governo federal arrecadou de seus rendimentos, sem se preocupar que os impostos deveriam ter destinação ao cumprimento dos interesses comuns).

A orientação é manter “a lei e a ordem” a qualquer custo. Pouco importa se a nossa democracia periga e diminui a cada gesto de agressão e violência das forças oficiais.

Em Teresina e Recife, forças militares estaduais entraram em confronto com estudantes que manifestavam contra o aumento das passagens de ônibus urbanos. A receita foi uma só: tropas de choque nas ruas, com formação de agrupamento, gás lacrimogêneo, munição de borrachas, cacetetes em punho e escudos. Bom, basta o comando e partir para o ataque com todo este aparato. Limpeza das vias públicas para circulação de veículos – porque ninguém é obrigado a suportar manifestação alheia –, inclusive dos ônibus com os novos preços e o lucro das empresas, que não sofrem nenhuma sanção pela péssima qualidade dos serviços prestados.

Em Goiás, como em muitos outros Estados, as blitze policiais sem nenhum motivo, senão para intimidação da população, principalmente mais simples, com a exposição de seus uniformes especiais, de cores bem escuras e brasões de caveira e armas cruzadas. Os autos de prisões em flagrantes forjados, como verdadeiras fórmulas de demonstração de autoritarismo e discriminação. Apurações infundadas, resultantes de puros preconceitos e truculências.

No Rio, e isso não é de hoje, as tropas militares locais, com o auxílio permanente das forças de segurança nacional, subindo os morros com carros blindados, atropelando tudo e todos, em nome da pacificação. Estas ações só ocorrem no cinturão em torno do Estádio do Maracanã e de outros pontos importantes que deverão ser limpos o mais rápido possível, para atender aos comitês organizadores da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Não há um mínimo de respeito aos residentes nestas localidades. Todos são suspeitos de envolvimento com o tráfico e crime organizado, pelo simples fato de residirem ali. Não tem conversa, todo mundo com as mãos encostadas na parede para o baculejo. Para suspeito em potencial não existe meio termo, primeiro, e imediatamente, bordoada, depois interroga-se, se tiver sorte, porque pode acabar morrendo antes com “troca de tiro”, mesmo que não porte arma.

Em São Paulo as forças policiais militares avançaram sobre os estudantes universitários na mais conceituada instituição de ensino superior do país. Resolvidos os problemas naquela praça acadêmica – ou melhor, deixado mais confusão do que quando iniciaram estas ingerências, sob a encomenda da administração da instituição – partiram para a “cracolândia” em pleno centro da cidade. Ali, como quem desentoca animais acoados, botam para fugir verdadeiros zumbis sem rumo algum, usuários de crack esquecidos de toda assistência social. Só faltou a sonografia de Michel Jackson, com Thriller, para que aqueles moribundos saíssem dançando.

Para complementar a saga do discurso de “lei e a ordem”, cujo lema é enfática e rotineiramente repetido pelo governador Alckmim, agora, neste final de semana (21 e 22/01/2012), a eficiente polícia militar de São Paulo novamente saiu a campo, em São Jose dos Campos, interior do Estado. Em plena madrugada de domingo cercaram e invadiram a favela do pinheirinho para arrancar a fórceps milhares de famílias, com crianças, pessoas idosas, cumprindo ordem judicial de desocupação. Tudo acompanhado pelo representante do judiciário, sua Excelência juiz de direito que por certo não consegue diferir o que é justo, apenas exibe o mandado em punho e as justificativas no mais puro juridiquês. As cenas são bizarras, chocantes. Mães com crianças no colo fugindo das chamas que queimam os barracos abandonados às pressas, sobre ordens severas dos militares que ali estão para cumprir “a lei e a ordem”.

Em todos estes palcos lá estão os coletes azuis, não com a missão de paz, mas para reproduzirem a farsa do autoritarismo dos governantes disfarçados de líderes democráticos. Os coletes azuis, falando em rede nacional, noticiam o sucesso das operações policiais, com a fúria de quem vê o próprio veículo em chamas. Para vingarem ou reproduzirem o que lhes são de costume, enquanto os resistentes são anunciados como vândalos, os policiais são glorificados como heróis. Para comprovar o que dizem, separam uma ou outra cena de enfrentamento, conforme a versão oficial de que a força policial fez o que deveria ser feito, somente contrarreagiu às agressões e focos de resistências, como se não fosse legítimo alguém resistir a própria tentativa de supressão da dignidade.

Na entrevista oficial os comandantes aparecem dizendo que foram utilizados os meios necessários, proporcional e gradativamente, chegando às  balas de borracha, cacetetes, “bombas de efeito moral” e prisões. Parecem não saber que mesmo sendo de borracha, estes projéteis podem matar ou causar ferimentos graves, principalmente quando o alvo é qualquer um “dos resistentes” em pânico, inclusive crianças e idosos. Em relação “as bombas de efeito moral”, é impressionante como em pleno século XXI ainda se utiliza este conceito para bombas de gás lacrimogêneo, copiado de tempos árduos da ditadura militar. Estes artefatos são lançados no meio desta multidão em alvoroço, sem nenhuma preocupação com quem está ali. O gás, por sua natureza, não escolhe a quem agredir. Atinge todos que estão ao seu redor: adultos, homens, mulheres, crianças, velhos, asmáticos e outras doenças, pessoas literalmente inocentes nesta balbúrdia provocada pelas forças policiais. Somente os atiradores, com suas máscaras é que não sucumbem diante da infestação do gás imoral.

Nesta corrida autoritária assistimos de cá, quase ao vivo, ubilubilados.  Cada militar fardado, com seu cacetete e arma em punho, partindo para o ataque de pessoas do povo, violenta nossas consciências. Em cada bomba de gás lacrimogêneo lançada, ofende a moral pública e avilta nossa honra. Em cada espancar de inocentes e expulsão de mães com filhos no colo, viola nossa dignidade. A cada batalhão nas ruas, em nome da defesa “da lei e da ordem”, em detrimento aos clamores sociais, reduz nossa democracia.

As tropas estão nas ruas, típica manobra de governos autoritários. Enquanto isso nós…?

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “AS TROPAS ESTÃO NAS RUAS, corroendo nossa democracia.

  • Sergio Badjano

    Denivaldo nós vivemos uma pseudo democracia [ou democracia de Arake] e se não fosse bastante as escolas não ensinam a criança a ser um cidadão e sim um marginal no que diz respeito a cidadania, enfim sem união só fica na opinião.