…ALÉM DE TUDO O JUIZ É VISTO COMO ALGUÉM DOENTE?

Hoje tive a triste constatação de que os juízes são vistos como pessoas doentes.

Conto.

Estava trabalhando na mesa da sala de audiências, concentrado nas decisões e despachos a serem proferidos. Como tenho por hábito, não estava usando paletó e tampouco gravata. Nisso adentra um estagiário que, sem pedir licença ou ao menos cumprimentar-me (aliás tem sido assim a conduta dos aprendizes que, colocados como office boys despachantes de serviços diversos nas escrivanias e nos gabinetes, são lançados a estas tarefas sem nenhuma orientação e preparo), foi logo destrinchando uma conversa cheia de prolegômenos, datas venias, juridiquês, etc., como se fosse ele o advogado da causa:

– “É porque nós pedimos a antecipação de tutela e o juiz negou…; “… de fato não entendemos o que aconteceu para que fosse indeferido; …. precisamos falar com o juiz para que ele revogue a decisão…”; “… esta decisão está causando prejuízos ao nosso cliente…”, “blá, blá, blá, blá!”.

Quando, por fim, deu uma pausa, pude finalmente me apresentar:

– Pois não, você está falando com o juiz!

O estagiário não se fez de rogado e não amenizou o tom de suas evocações.

– Então, como dizíamos, é preciso reformar a decisão porque…

Já havia entendido o que ele não sabia e não entendia. Interrompi:

– Espere um pouco. Primeiramente, é importante que você saiba, por questão de boa educação, que quando chegares num local onde as pessoas estejam trabalhando é importante pedir licença antes de interrompê-las. Depois, e logo em seguida, é de boa conduta cumprimentar o seu interlocutor. Terceiro, certamente seu chefe sabe que da insatisfação quanto a decisão judicial cabe recurso, e que não pode ser oral, muito menos apresentado por quem não é advogado.

Agora no seu normal, sem aquela entidade causídica a possuir-lhe o corpo, o jovem estagiário, um pouco sem jeito e um tanto acanhado, engolindo toda aquela empáfia e vocabulário mal empregado até a pouco expelido (parece que veio decorado do escritório), justificou:

– Eu não sabia que o senhor era o juiz, porque o senhor não está internado!

– Ãh?!

– É o senhor não está usando terno.

– Olha, peça ao seu chefe para vir pessoalmente acompanhar este caso.

Foi a única resposta que tive.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

2 respostas para “…ALÉM DE TUDO O JUIZ É VISTO COMO ALGUÉM DOENTE?