HOMENS VISÍVEIS E SUAS VESTES TALHARES (quantos homens tornam-se invisíveis por suas vestes rudimentares)

Mote

Constituição Federal: Art. 7º, IV

Art. 7º. São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

IV – salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim; (grifei)

HOMENS VISÍVEIS E SUAS VESTES TALHARES

(quantos homens tornam-se invisíveis por suas vestes rudimentares)

 

Fernando Braga Costa.

Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social.

Entramos pela porta principal, eu e o Antônio (um dos garis). Percorremos o piso térreo, as escadas e o primeiro andar. Não fui reconhecido. E as pessoas pelas quais passávamos não reagiam à nossa presença. Talvez apenas uma ou outra tenha se desviado de nós como desviamos de obstáculos, objetos. Nenhuma saudação corriqueira, um olhar, sequer um aceno de cabeça. Foi surpreendente. Eu era um uniforme que perambulava: estava invisível, Antônio estava invisível. Saindo do prédio, estava inquieto; era perturbadora a anestesia dos outros, a percepção social neutralizada. […]

Para quem o uso do uniforme é obrigatório existe um lugar social específico. Naqueles trajes, os varredores, todos eles, aparecem como se tivessem uma só identidade: “Nem dá para saber quem é um, quem é outro”. Para “os outros”, não aparecem como pessoas. Aparece o uniforme. Desaparecem os homens.

Eu estava no elevador privativo (em plena República Democrática!), quando adentraram dois colegas juízes com seus ternos impecáveis.

Aguardei um cumprimento, um aceno, nada.

Chegando ao meu andar, antes de sair, fiz questão de cumprimentá-los, no que fui correspondido com surpresa e mil desculpas por não terem me notado:

– Mas, também, “você não está trajado de juiz”![1]

– Pois é!

Sorri e fui caminhando pelo corredor até o gabinete: camisa de manga curta, calça jeans e sapato esportivo.

Sentei e comecei a trabalhar.

Os homens visíveis, pelo que ouvi da conversa no elevador, em seus ternos rigidamente engomados, iam visitar outros gabinetes a procura de iguais em vestimentas para seus conchavos.


* Do livro: SILVA, Denival Francisco da. Poemas Reconvencionais: inverso e reverso das coisas. Goiânia: Kelps, 2011.


[1] Se o padrão estético no vestir fosse essencial para o ato de julgar,  o Judiciário deveria fazer concurso para estilista e não para juiz.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “HOMENS VISÍVEIS E SUAS VESTES TALHARES (quantos homens tornam-se invisíveis por suas vestes rudimentares)

  • Batista

    Excelente, Denival. Há quem adora medir o caráter alheio pela vestimenta. Hoje tudo é aparência e nada essência. A mediocridade está vencendo.