A COPA 2014 VEM AÍ! 190 milhões, pra frente Brasil….! (da série: Assim se fez a história e algumas estórias mais!)

– Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção!

E assim, no auspício do regime ditatorial no ano de1970, ajunta militar que desgovernava o Brasil para longe dos direitos humanos, incitava o espírito patriótico e o orgulho do povo aproveitando o embalo e sucesso do escrete canarinho (a propósito, na delegação estava o irreverente Dada Maravilha, de habilidade bastante duvidosa, mas que só foi convocado por imposição do presidente Médici).

Na vibração de mais um mundial de futebol, podia-se, sordidamente, endurecer os rigores do regime e a repressão política. No embalo de pra frente Brasil as ordens dadas pelo poder central aos batalhões militares eram de partir com o mesmo vigor da seleção de futebol e não dar nenhuma chance para o adversário. Era marcação ferrenha e nada de jogo limpo. Ataque sistemático e organizado, com muita artilharia e boladas (melhor, “baladas”) nos adversários. A missão era vencer a qualquer custo, com todas as artimanhas inescrupulosas que nenhum jogo permite.

Nisso, aqueles que não foram computados na contagem dos 90 milhões em ação, alheios à campanha brasileira no México, sofriam os sangrentos sacrifícios nos porões da ditadura militar. Muito, mais muito pior que os adversários humilhados e surrados num jogo sujo. Mas o que são alguns, num universo de mais de 90 milhões?

Enquanto durou o entusiasmo da Copa e, sobretudo do título, poucos se preocuparam com os perseguidos pelo regime. Depois, passada à euforia, já era tarde, diversos brasileiros tinham desaparecido (desapareceram com eles) ou fugido do país (fugiram com eles); outros tantos foram torturados e mortos (morreram com eles).

Do escrete canário de 1970, que para vários apaixonados por futebol, até os dias de hoje, foi o melhor time que o mundo já viu (há controvérsias!), todos tem saudades e vivas lembranças, rememoradas constantemente com as reprises dos gols, dribles e jogadas daquela equipe que tinha Péle, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Carlos Alberto, entre outros.

Enquanto isso, vários perseguidos, desaparecidos e mortos pelo regime ditatorial foram sendo esquecidos, salvo na memória de seus familiares e amigos, cuja lembrança coletiva do tricampeonato mundial passou a ser-lhes o reavivamento de um martírio.

Às portas de uma nova copa do mundo, agora terra brasilis, o governo brasileiro, em especial a governança carioca, faz, tantos outros dengos aos organizadores, uma limpeza social em torno do estádio do Maracanã, com a instalação das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), evocando o argumento de pacificação do Rio de Janeiro. Conduto, para o êxito (na forma concebida) destas “operações” adota táticas de guerra e cerceam direitos civis da população – superação do princípio do estado de inocência, permitindo-se revistas pessoais sem qualquer pretexto dos comunitários; invasões de residências sem ordem judicial ou em situação de flagrante; apreensão de objetos sem ordem judicial ou sequer indício de fruto de pratica criminosa (quem guarda nota fiscal ou comprovante de pagamento de bens que possui em casa?); ocupação militar das vias públicas inclusive com equipes das forças armadas e veículos de guerra; toques de recolher, etc. – que sequer em situação excepcional de Estado de Sítio se permitiria.

E nós de cá, assistindo a tudo, ao vivo, num reality show bancando pelas emissoras de televisão, aplaudindo afeito foquinhas amestradas o que se diz sucesso das “operações de ocupação”.

De copa em copa os excessos acontecem (e nos seus intervalos também). A grande diferença de agora é que estamos num regime democrático, porém de joelhos e cabeça baixa diante das exigências ditatoriais da FIFA, que mais que um Estado estrangeiro, juntamente com seus patrocinadores, já invadiu nosso território. Primeiro, impondo-nos a construção e realização de obras – a despeito do interesse público e ganhos sociais que representaram, aliás, muitas delas serão espólios abandonados, feitos elefantes brancos num cenário de miseráveis –, ditando o formato e os fornecedores, tudo  a serem realizadas com dinheiro público. Segundo – e isso está em curso no Congresso – exigindo modificações na nossa legislação, com rompendo de princípios e direitos conquistados pela sociedade brasileira.

Para estas tarefas, agora feitas de inopino, inclusive diante da proximidade do evento (e os atrasos foram propositais justamente para forçar atropelos no momento certo), governantes e parlamentares, adulados com mimos de credenciais e camarotes para os jogos, rendem-se a tudo, cedendo sem nenhuma dificuldade as exigências, tudo sob a justificativa da importância do evento para o país (importância para quem?)…mas, quem se importa.

– Cento e noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salvem os selecionados (no gramado e fora dele)!

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “A COPA 2014 VEM AÍ! 190 milhões, pra frente Brasil….! (da série: Assim se fez a história e algumas estórias mais!)

  • Batista

    Denival,

    Faça críticas mais diretas também. Quem colocou artigo sobre a responsabilidade integral da União, no Projeto de Lei Geral da Copa, em caso de qualquer dano durante o evento, foi um deputado petista. O PT, que durante vinte anos, fez um discurso de extremo rigor ético, parece não se preocupar mais com o que já pregou. E salvem Ricardo Teixeira e a FIFA.