A INTOLERÂNCIA NO MUNDO GLOBALIZADO: entre a retórica e a prática há sempre o estorvo das intolerâncas. (da série: Direitos e humanos: entre o convívio e a intolerância – tópico III)

A intolerância cresce no mundo na mesma proporção das medidas e ações que violam os direitos fundamentais. O século XX foi o período das grandes guerras e com elas dos enormes genocídios, o período mais sangrento da humanidade que vitimou em torno de 90 milhões de pessoas só nos conflitos armados[1]. Somadas as vítimas indiretas destes conflitos vê-se que a barbárie é muito maior, tendo a carnificina atingido cerca de 191 milhões de pessoas mortas.[2]

E o século XXI começa quase no mesmo ritmo. Quando se esperava avanços humanitários em decorrência de experiências amargas sofridas, a intolerância contínua firme e destemida.

Neste contexto e acompanhando estes arranjos e desarranjos geopolíticos e imperialistas, o sistema punitivo global (modelos copiados), geridos pelas forças de segurança internas e pelos sistemas de justiça, ano após ano, tem expandido suas ações, ultrapassando as fronteiras de conquistas políticas em termos de liberdades humanas, representando um verdadeiro retroceder histórico. O Estado policial cresce velozmente, a partir da propaganda do medo disseminada com precisão, tentando remediar com maior austeridade a redução da participação do Estado social, que é a própria causa da escalada generalizada da insegurança objetiva e subjetiva em todos os países.[3]

O espaço de convívio só é tolerável enquanto não há invasão do espaço dos interesses individuais. A tolerância, desde que não ascenda sobre meus interesses, é o ponto limite e o argumento para justificar a não aceitação. Permite-se, mas não se aceita. Convive-se, mas não se respeita. No mais, o Estado policial está de prontidão para socorrer os eleitos lesados.

Apesar disso tudo, não há evidências de que tenha aumento os motivos para a intolerância nos últimos tempos, apesar desta análise ser fruto de mera especulação não empírica e quase utópica. Na verdade a capacidade de aceitar é algo que se adquiri e por ser fruto de uma conquista pessoal e coletiva ardorosa, não pode estar sujeita a intempéries ou refluxos, porque não se perde pelo caminho ou regride com o tempo. O que tem acontecido com o aparente aumento da inquietação na sociedade é apenas a revelação das intolerâncias hibernadas, que assim se encontravam a par de um convívio confortável, sem incômodos. A partir do instante que as minorias se apresentam e começam a reclamar direitos igualitários, a fera entocada ressurge, fazendo romper o sono da passividade.

É neste contexto que são delineadas as políticas públicas, com o aumento da intervenção policial e do sistema punitivo. Para isso o Estado não falha, até porque busca satisfazer aos interesses dos seus mandantes. Este acréscimo é, portanto, a estatização da intolerância das maiorias políticas, com poderes decisórios, e que se vêem de repente, na iminência de ter que compartilhar espaços e direitos. Para isso não precisa de muito esforço. A indústria do medo e da punição, e por consequência da intolerância, é bastante eficiente, até porque também altamente rentável.


[1] No transcorrer das duas guerras mundiais do século XX a humanidade perdeu mais de 70 milhões de vidas: a partir de 1945 até a queda da União Soviética, os 40 anos de Guerra Fria, morreram no planeta cerca de 17 milhões de pessoas em conflitos armados e de 1990 até 2003 as guerras levaram mais de 3 milhões de vidas (Marshall: 2003). No total os conflitos armados do século XX provocaram cerca de 90 milhões de vítimas fatais. In: CHAHAB, Martín. A Tendência dos Conflitos Armados. Tradução Vera do Val. http://www.achegas.net/numero/29/martin_chahab_29.htm . Pesquisa em 30/08/2011.

[2] A Organização Mundial de Saúde, em Outubro de 2002, revelou as contas desta barbárie. No século XX, os conflitos armados provocaram, directa ou indirectamente, a morte de 191 milhões de pessoas, mais de metade dos quais eram civis. In: Confrontos: o olhar sobre nós o outro. Estas estatísticas, segundo os relatores do documento da OMS, estão longe de contabilizarem todos os mortos, dado que a maioria dos actos de violência são cometidos longe de qualquer olhar. http://confrontos.no.sapo.pt/page5.html. Pesquisa em 30/08/2011.

[3] WACQUANT, Lóic. As prisões da Miséria. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. p. 07.

Anúncios

Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Os comentários estão desativados.