COMPROVANTE DE ENDEREÇO. Depende dos fins a que se destina. (da série: Os destinatários do direito penal)

João fez até a 5ª série do ginásio. Isso já faz uns 10 anos. Parou os estudos por uma série de motivos que não cabe aqui contar. Como mora numa invasão urbana, não tem comprovante de endereço, por isso (e por tantas outras desculpas do mercado de trabalho) não consegue emprego.

João sequer pode receber um cartão de natal, ainda que fosse daqueles chatos de propagandas de coisas que sequer poderia desejar, quanto menos adquirir.

João é negro, meio vesgo e de semblante sério (melhor, sem razão para sorrir).

João não dispõe de nenhum serviço fornecido pelo poder público. Os serviços de água e energia foram providenciados por ele, assim como para muitos de seus vizinhos, fazendo uns “gatos” que as companhias prestadoras de serviços desconhecem, porque seus prepostos não se arriscam a verificar naquelas imediações. É com estes bicos que leva a vida, embora sua clientela se encontre na mesma miséria sua. Por vezes o ganha pão de um afeta o pão de cada dia do outro e então os bicos ficam somente pelo obrigado e quando muito uma xícara de café.

Na sua última procura por emprego viu que num posto de gasolina num bairro vizinho, numa avenida bastante movimentada, estava selecionando frentistas. Apresentou-se como candidato. Embora o gerente tenha anotado seus dados, percebeu logo que não teria chances quando lhe pediram o comprovante de endereço. Ainda assim insistiu para o gerente anotar seu paradeiro caso fosse necessário para o cadastro:

Faça o favor moço, anote aí o local onde moro. É aqui perto. Pode ir lá ver.

Para não fazer desfeita e se livrar daquela situação e até porque se viu temeroso diante daquele homem, o gerente registrou a informação:

– Moro na via da ladeira, perto do ponto de comércio do Zé Tudo Há, duas casas depois da oficina de bicicleta do Tião Ribeira, na segunda porta dos fundos, na Invasão do Sultãozinho.

Naquela mesma noite o posto foi roubado por dois ladrões, um deles negro. O gerente não teve dúvidas. Foi à Delegacia de Polícia fazer ocorrência e forneceu logo o nome de um dos suspeitos, com endereço.

Sem muita presa, no dia seguinte, o delegado representou pela prisão preventiva do suspeito, anotando que o “elemento” reside na via da ladeira, perto do ferro velho do Zé Tudo Há, duas casas depois da oficina de bicicleta do Tião Ribeira, na segunda porta dos fundos, na Invasão do Sultãozinho.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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