A INTOLERÂNCIA NO MUNDO GLOBALIZADO: a intolerância comandada pelos EUA que se colocam como os xerifes do mundo. (da série: Direitos e humanos: entre o convívio e a intolerância – tópico II)

No orçamento proposto pelo presidente estadunidense Barak Obama, mesmo em tempos de contenção de recursos públicos e de cortes orçamentários, destinou-se a cifra de 84 bilhões de dólares para modernização do armamento atômico (In: FERNANDES, Marco. O Orçamento Militar Americano É Maior Do Que O Resto Do Planeta Somado. Portal Luis Nassif. http://blogln.ning.com/forum/topics/o-orcamento-militar-americano?xg_source=activity. Pesquisa em 30/08/2011). Estamos falando de uma proposta orçamentária encaminhada pelo presidente que assumiu o posto com a promessa de novas relações internacionais e esperança de mudança na política externa, a ponto de receber precipitadamente o prêmio Nobel da Paz.

De outro lado, de acordo com levantamentos da ONU, seriam necessários 80 bilhões anuais para se atingir as Metas do Milênio até o ano de 2015 (http://www.pnud.org.br/milenio/). Trata-se de uma quantia, em termos globais, relativamente pequena diante dos objetivos almejados, ao mesmo tempo soma astronômica para um único país, ainda que sejam os EUA, dada aos fins a que são destinados.

Norberto Bobbio, no final da década de 1970, fez uma análise apocalíptica da política de armamentística desenfreada, num cenário de guerra fria, cujos valores estavam muito aquém do que agora se propõe. Dizia ele: não há razões para não prever que nos próximos vinte anos a potência destrutiva das bombas não possa desenvolver-se com o mesmo ritmo; pelo contrário, há razões para afirmar que o ritmo se torne cada vez mais acelerado e o alvo dessa corrida seja, cedo ou tarde, a arma absoluta. (in: BOBBIO, Norberto. O problema da guerra e as vias da paz.  1979. Tradução Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora da UNESP, 2003. p. 65).

Por sorte nossa as previsões do autor até então não se concretizaram. Não pela ausência das armas, que se intensificaram, modernizaram e se qualificaram, porque estão por aí em número mais do que suficiente para o extermínio total de toda vida e destruição do planeta. Porém, certamente em virtude da desproporção nesta corrida armamentista dos EUA com outras ex-potências, principalmente depois do fim do império soviético, há uma quietude que não deixa de ser ainda inquietante, posto que não se pode dormir sossegado sobre bombas-relógios.

Voltando aos valores apontados pela ONU para as Metas do Milênio, não significa com isso que os EUA deva assumir a conta sozinho para o seu cumprimento. Contudo, poderiam contribuir nas duas pontas. Primeiro, como nação mais rica, devem sim ter maior participação com as questões globais, não como interventores, mas como contributos para solidificação efetiva de um mundo de paz e de redução das desigualdades.  E não precisaria sequer ser na mesma proporção dos danos e conflitos que causam mundialmente. Segundo, se reduzissem seu empenho bélico, por certo conteriam muito a própria intolerância de quererem resolver os problemas mundo afora, quando afetam seus interesses geopolíticos e econômicos, na diplomacia dos mísseis. Não se faz política internacional e de relações fraternas sob o império de armas e do poderio militar. O que se obtém daí e subserviência, medo e irresignação.

No conjunto das medidas previstas nesta política de intervenção, os EUA querem ditar o modelo de democracia para o mundo, sob o argumento de preservação dos direitos humanos, como se fosse o padrão ideal a ser seguido por todos, ou como se internamente não descumprissem a pauta dos direitos humanos, inclusive de seus cidadãos. Neste trajeto, desrespeita culturas e hábitos milenares, suplantam tradições, relações locais, a religiosidade, costumes e inferiorizam todo o modus vivendi que diverge dos seus, para ao final quererem implantar sua fórmula, inclusive com seus acervos mercadológicos, midiáticos e daquilo que chamam de valores de uma sociedade livre e democrática (consumismo, liberdade de mercado, expropriação das riquezas locais, tudo em prol de suas companhias, em grande medida financiadoras de suas sagas invasoras).

Noutra ponta, e na condição que próprio se deram de xerifes do mundo, os EUA incentivam e cobram dos demais países para que reforcem seus sistemas de fiscalização e punição, de modo a coibir a criminalidade organizada no mundo e as ações terroristas, na mesma medida que provocam as desordens e conflitos, instigando e fomentando as intolerâncias (In: CHAHAB, Martín. A Tendência dos Conflitos Armados. Tradução Vera do Val. http://www.achegas.net/ numero/29/martin_chahab_29.htm. Pesquisa em 30/08/2011). Para isso, disseminam o medo e o terror com operações militares e investigações longe de quaisquer parâmetros humanitários, principalmente depois do fatídico 11 de setembro de 2001, como se estas ações não fossem também criminosas e terroristas. Os riscos que próprio criaram são difundidos como pavores globais, inclusive para que nunca cutucou “caixa de marimbondos”.

Assim, ao modelo estadunidense, ainda que a miséria esteja cada dia mais visível e próxima dos quintais dos grandes palácios, não incomoda um pingo a consciência dos dirigentes políticos dos países ricos que mantêm a política da filantropia para as causas sociais e humanitárias, enquanto aumentam os orçamentos para “as guerras” internas da segurança pública, bem ao modo de um verdadeiro Estado de exceção.

No plano internacional, a ampliação orçamentária para fins militares é justificada pelo discurso de manutenção da paz. Todavia, há nisso uma grande bravata. Não se propaga a paz pela intimidação. O que se extrai daí é apenas o sufocamento das insurgências e a opressão dos combalidos e que em determinado momento explodirá. Este método não condiz com a própria ideia de pacificação que exige a convergência ou no mínimo a tolerância e não a submissão servil e obediente.

Em complemento aos planos de segurança pública e de pacificação social, instituem-se políticas com o fito de expelirem das redondezas dos grandes centros os indesejáveis. Para tanto, disseminam-se a xenofobia e a intolerância, aumentando as restrições à circulação e ingresso de pessoas nos países ricos, retendo assim as liberdades humanas e reduzindo recursos para as políticas sociais. Enquanto se quer portas abertas para o caminho invertido, sejam para pessoas ou, principalmente, mercadorias manufaturadas.

Ainda no mesmo passo, as agências internacionais, comandados pelos EUA e os demais países ricos, ou por eles, interferem nos governos dos países periféricos, impondo-lhes uma pauta econômica a ser seguida.  Em contrapartida, aqueles ricos subsidiam suas atividades primárias, sufocando as economias dos países em desenvolvimento e pobres que praticamente vivem da atividade agrícola. Quando há necessidade de contenção de gastos públicos, as principais verbais atingidas são aquelas destinadas a satisfação de direitos sociais, enquanto se avolumam recursos – e ainda assim sempre insuficientes – para as áreas da segurança (de Estado e pública) e para as intervenções militares.

É por meio destas ações belicosas que os EUA tentam barrar, por exemplo, o tráfico de drogas. Todavia, pequena parcela do montante disponível para combate ao narcotráfico na Colômbia – maior produtor de coca e maconha – seria suficiente para financiar, não com subsídios, a produção agrícola neste país, garantindo aos pequenos e médios produtores a possibilidade de desenvolverem uma cultura voltada à produção de alimentos e de produtos lícitos no mercado local e internacional (ver: CHOMSKY, Noam. O Lucro ou as Pessoas: neoliberalismo e ordem global. 5ª edição. Tradução Pedro Jorgensen Jr. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.). Para tanto, bastaria aos EUA suprimirem os subsídios a sua agricultura que sufoca a produção nos países com baixa tecnologia ou sem este aparato governamental, assegurando ainda uma política internacional de mercado para os produtos agrícolas com garantia de preços justos, com condições de escoamento e estocagem, para que houvesse substancial queda no cultivo de coca e maconha, principais produtos destinados ao tráfico internacional de entorpecentes, já que a atividade lícita também se apresentaria rentável.

Mas não é por falta de percepção destes desvios e custos econômicos nas operações de combate ao narcotráfico que a política intervencionista é modificada. Rigorosamente os objetivos são outros e o combate ao tráfico é apenas mais uma justificativa para o imperialismo local, como forma de rastrear e vigiar de perto os países latino-americanos, sobretudo diante do interesse sobre os recursos amazônicos.

E assim, seguindo o modelo e o exemplo estadunidense, vamos todos, cada um com seu quinhão de intolerância e indiferença, transformando o planeta num grande paiol repleto de barris de pólvora, sobre o qual as rusgas e atritos faíscam a todo instante.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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