ZÉ TRISTEZA, MAIS UM NÃO ANISTIADO. Embora traga no corpo e na alma as marcas da repressão. (Da série: Assim se fez história e algumas estórias mais)

Zé Tristeza é assim conhecido porque ninguém o vê sorrir ou falar de sua história. Mas, o que importa se é um codinome, se apelido de família ou que lhe foi atribuído por seus algozes. O fato é que foi preso e torturado pelo regime militar, porque num dia qualquer, de um mês qualquer, num ano qualquer (entre o dia 31/03/1964 a 31/03/1979), juntamente com alguns amigos quaisquer, pichou no pedestal da estátua de Duque de Caxias, numa cidade qualquer, a expressão ABAIXO À DITADURA.
Ficou preso durante mais de 10 meses, sem processo, mas sofrendo todo tipo de violações físicas e psicológicas. Das primeiras restaram-lhe cicatrizes em todo corpo, como quem fora atropelado por um caminhão; da segunda, traz no íntimo marcas indeléveis e que o fez perdido sem identidade e sem família.
Como nada mais sabe sobre si, senão a memória apavorante das torturas, Zé não pode receber a indenização prevista na Lei como vítima regime ditatorial. As cicatrizes que são plenamente visíveis a qualquer pessoa não servem de testemunho. Um pequeno recorte de jornal, sem data de edição ou nome, onde aparece a foto da pichação sendo realizada, mostra três rapazes de costas sendo abordados pelos militares. Nem ele sabe exatamente se está entre os detidos e, se está quem é entre eles. Sequer sabe o porque guarda aquele recorte, embora o preserve sempre consigo.
E assim, passados mais de 30 anos da Lei da Anistia (1979), os torturados ainda tem que provar que foram vítimas para ver se recebem um indenização, sem pedidos de desculpas.
Quanto aos torturadores, muitos, alcançados pela aposentadoria compulsória, foram para reserva carregando consigo, no mínimo, uma patente a mais. Outros, que ainda continuam no serviço militar, estão somando divisas com a certeza de quem já foram imunizados legal (pela Lei de Anistia) e judicialmente (pelo STF).

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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