A INTOLERÂNCIA É FRUTO DE NOSSA FORMAÇÃO: O egocentrismo e a ganância pelo poder aniquilam o outro, simplesmente pelo fato de ser diferente. (da série: Direitos e humanos: entre o convívio e a intolerância – tópico I)

A história da humanidade foi edificada sobre disputas constantes por sobrevivência, como se não houvesse espaço físico e político para todos. Nisso, sempre houve a sobreposição do mais forte a partir de medidas extremamente intolerantes com os vencidos, submetidos as suas vontades e determinações.
Ainda é assim. Neste contexto o direito, que em tese seria o instrumento de pacificação e acomodação da insaciável insatisfação humana, tem servindo como lenimento para fazer valer a supremacia dos mais fortes, e apenas como arremedo aos menos favorecidos, principalmente pelo discurso dos direitos humanos, porque concedido somente na medida exata para se permitir uma convivência. Quando se percebe que a dosagem é pouca, em razão de manifestações insurgentes em busca de novas conquistas, resiste-se enquanto pode, para, prestes a romper, conceder aumento na dosagem de direitos somente no limite suficiente para aquietação.
De fato. Somos intolerantes e somente apreendemos a conviver em sociedade por uma necessidade premente de sobrevivência. E esta intolerância é fruto do egocentrismo e da inadmissão às diferenças. Somos dotados de inteligência, porém proporcional e significativamente mais frágeis que outros seres vivos. Conquistamos cada canto do planeta terra, mas só e ainda assim existimos, graças às engenhocas que desenvolvemos. Fosse para viver naturalmente como outros animais já seríamos espécie extinta, dada a nossa fragilidade.
Nem por isso, e mesmo sabendo disso, não deixamos de buscar a própria extinção, se é que se pode exagerar um pouco na análise. A nossa intolerância já nos causou experiências extremamente trágicas, tudo motivado pela não aceitação do outro e pela ganância insaciável de poder. As barbaridades ocorridas e dramas vividos não serviram de lição para uma convivência mais pacífica, não sob a ótica do limite da tolerância, mas dentre de uma perspectiva solidária que se imagina como resultado da própria razão da existência humana.
Em regra, nosso parâmetro do tolerável é exatamente o mínimo essencial para um convívio social aceitável, sempre restrito nos nossos egoísmos. Como observa Bauman, não reconhecemos o outro e não sabemos lidar com as diferenças como fundamento da mútua convivência.
Assim vivemos aos atropelos num mundo de intolerâncias, de desrespeito e de rejeição do outro. E isso não é consequência de nossa natureza, mas de um aprendizado que fez de nós, seres inteligentes, também manipuladores e egocêntricos, sempre insatisfeitos com nossas conquistas, sempre ávidos para novos desafios, ainda que para isso seja necessário atropelar, literalmente, o próximo. E isso decorre da ganância por poder furtivo e maledicente. O poder que satisfaz não o bem comum, mas o desejo único e exclusivo dos próprios interesses.
O poder, e com ele a intolerância, rende e faz crescer a economia, aumentar o prestígio e status social, embora subjugue multidões à miséria. O poder utilizado de modo indevido, autoritário e em beneplácito de poucos, e que determina rumos políticos de nações inteiras, restringindo direitos dos seus cidadãos, rompendo tratados internacionais e descumprindo compromissos históricos e éticos.
Essa busca insana por este poder nos distancia da solidariedade e do reconhecimento do outro. O que aguça este sentimento é a insatisfação contínua com o que se tem e com o que se conquistou, como se houvesse uma necessidade incontrolável para novos horizontes numa infinidade de possibilidade e objetivos a serem atingidos.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “A INTOLERÂNCIA É FRUTO DE NOSSA FORMAÇÃO: O egocentrismo e a ganância pelo poder aniquilam o outro, simplesmente pelo fato de ser diferente. (da série: Direitos e humanos: entre o convívio e a intolerância – tópico I)

  • Renata

    Ótimo texto, entretanto devo discordar de você em seu ultimo parágrafo, talvez a busca insana pelo poder no distancie da solidariedade sim, mas toda essa busca gira em torno de um ideal, de um reconhecimento, que de fato se é conquistado por todos ao nosso redor sim, ou então qual seria o sentido em eu querer ser a melhor no que faço se não houvesse reconhecimento dos demais. As pessoas veneram quem está no poder, algumas vezes de forma inconsciente, mas ainda assim as veneram. Percebendo isso eles buscam cada vez mais reconhecimento, até porque a qualquer momento pode surgir alguém melhor do que ele tomando o seu “trono”, vejo isso como uma coisa boa no ser humano, pois alojar-se ao que se é dado é confortável demais, é comodo demais.