A MISÉRIA, PARA QUEM A EXPERIMENTA, NÃO TEM DIA. 17 de outubro, “dia internacional de combate à miséria”.

Celebra-se no dia 17 de outubro o “dia internacional de combate a miséria”. Poucos de nós sabemos disso ou damos importância a isto.  Mas não deveria haver dia especial, mas compromisso contínuo de combate enquanto persistir situações de miséria. E não é por impossibilidade de sua eliminação, mas por falta de vontade política. O indivíduo em situação de miséria vivencia isso diariamente e não pode aguardar a cada ano a lembrança (e nem assim) de seu infortúnio. O miserárel é carente de tudo, sobretudo de voz, respeito e reconhecimento enquanto ser humano.

Para não passar também desapercebido, repriso texto de Marcus Brose, muito preciso para nossas reflexões.

A guerra que não podemos perder

Markus Brose*

“A única guerra legítima, é a guerra contra o subdesenvolvimento e a miséria”, foi o que disse Dom Helder Camara. Mas, se estivesse vivo neste Dia Internacional de Combate à Pobreza, comemorado em 17 de outubro, infelizmente, ele notaria que esta é uma guerra que não temos ganhado, e uma guerra que recebe pouca prioridade no mundo.

Em 1997, a ONU estimou que seriam necessários US$ 80 bilhões por ano para acabar com a pobreza em 10 anos. Tais recursos não foram disponibilizados, apesar de na última década a chamada “Guerra ao Terror” ter consumido aproximadamente US$ 4 trilhões, 50 vezes mais. Nos últimos anos, outra estimativa da ONU chamou a atenção: segundo a FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations), para acabarmos com a fome seriam necessários US$ 30 bilhões por ano aplicados em programas de agricultura. Mais uma vez a comunidade internacional não se sensibilizou, apesar de no mesmo ano em que esta estimativa foi divulgada (2008), os Estados Unidos terem aprovado um pacote de US$ 700 bilhões para o salvamento dos bancos. Estas estimativas não deixam de ser uma evidência sobre as prioridades dos países desenvolvidos.

Felizmente, nos últimos anos, o Brasil seguiu outro caminho. Nosso país tem tido grandes avanços nesta área de combate à pobreza, avanços que são consequência principalmente da inclusão via mercado de trabalho e não apenas de programas de assistência, como apontou o IPEA recentemente. Programas de caráter assistencial são importantes, mas não garantem o desenvolvimento.

As causas estruturais da pobreza não estão ligadas apenas ao nível de renda. Para eliminá-la é necessário trabalharmos com a pobreza em todos os seus âmbitos: a pobreza de capacidades, a pobreza política, a pobreza de educação, a pobreza de instituições, a pobreza de serviços etc. O que Amartya Sen, um dos criadores do Índice de Desenvolvimento Humano, definiu como “pobreza multidimensional”.

O combate à pobreza deve partir do reconhecimento de que suas causas estão ligadas aos nossos comportamentos, padrões de consumo e produção, e nossas instituições. A pobreza é um legado de nosso passado e um aspecto de nosso presente. Para conquistarmos um futuro onde possamos erradicá-la, devemos compreendê-la como parte do que somos e, com isso, realizar as mudanças necessárias para transformarmos a sociedade.

Os países desenvolvidos estão enfrentando uma grande crise, e assistem passivos sua situação social mudar. Hoje a pobreza estrutural esta novamente presente na Europa e nos Estados Unidos. As soluções econômicas apresentadas parecem ignorar as populações mais vulneráveis, e as consequências elas sofrerão com uma nova recessão.

No Brasil a situação está diferente, mas não é por isto que devemos relaxar em nossos esforços. Uma nação que tenha um forte compromisso pela erradicação da pobreza, um compromisso que se reflita em suas práticas e políticas, com certeza será uma nação mais preparada para enfrentar qualquer crise que possa chegar.

A luta contra a pobreza deve ser uma luta diária, constante e tenaz. Apenas com a consciência de que todos nós somos responsáveis pela pobreza é que poderemos alcançar um mundo onde a pobreza esteja realmente erradicada.

* Markus Brose é diretor executivo da ONG CARE Brasil, agrônomo com especialização em agroecologia, mestre em Gestão Pública e doutor em Sociologia

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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