REFLEXÕES. Do mundo ao avesso.

  • O gari diariamente limpa as ruas da cidade. Não de toda a cidade, porque quando volta para casa, situada nas regiões longínquas do centro, sem nenhuma visibilidade e reclamos que possam ser ouvidos pelas autoridades, encontra ruas empoeiradas, dejetos e esgotos a escorrem a céu aberto em valas sulcadas pela enxurrada, e a imundice de tanto lixo espalhado.
  • A baba não foi trabalhar, porque seu filho ardia em febre. Como não tinha como comunicar à patroa, o filho desta senhora ficou sem seu passeio matinal, enquanto a mãe perdeu seu horário na academia. Falha imperdoável que deve resultar em sanção adequada: demissão.
  • A cozinheira prepara o almoço regado a saborosas guloseimas. Dele não desfruta. Não que os padrões não permitam. É que sua consciência não concebe que se alimente enquanto tem dúvidas se em casa seus filhos, esquecidos forçadamente, estarão se alimentando.
  • O policial, mal remunerado, sobe o morro durante o dia fardado e de arma em punho. Ao final do seu turno de trabalho, esconde seus apetrechos de guerra e, quase secretamente, sobe novamente o morro para o descanso merecido em casa. Com a remuneração que tem, não há como morar noutra localidade. Para completar seu salário, alguns vão fazer uns bicos de segurança privada, por vezes para grandes contraventores.
  • O trânsito flui como a densidade do magma do vulcão: lento, quente, perigoso e a qualquer pretexto, incendiário. Enquanto isso a indústria automobilística, os agentes financeiros, o modelo de crescimento econômico desenhado pela globalização, continua a expelir veículos, créditos que individam ainda mais a já famigerada classe média, como o vulcão enfurecido a despejar lava, incontidamente.
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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “REFLEXÕES. Do mundo ao avesso.

  • Abel

    Mais uma vez venho parabenizá-lo pela excelente reflexão,, é uma realidade nua e crua. Denival, sou advogado, e creio que o curso de direito me preparou apenas para passar na OAB ou concurso (quando muito), ficando devendo e muito sobre a realidade social, sobre o que é o direito, a dignidade da pessoa humana. Hoje faço uma pós graduação em filosofia política e jurídica, para tentar suprir essas deficiências, buscar algumas respostas para o direito muito além dos códigos e dos manuais. Abraços.