A AUTOFAGIA DO MODELO ECONÔMICO. Ainda chegará o dia que terá que regurgitar!

  • Numa democracia verdadeira, é o modelo econômico que se subordina ao modelo cívico. Devemos partir do cidadão para a economia e não da economia para o cidadão.
    Milton Santos (emérito professor com reconhecimento e título em diversas universidades no mundo; um dos maiores intelectuais e pensadores do Brasil no século passado e início deste – falecido em 2001)

Ouvimos – mais uma vez (agosto/2011) – com grande apreensão as notícias que circundam o mundo sobre a iminência de uma nova crise econômica, ou a acentuação de uma crise que já perdura há 3 anos e que neste tempo foi maquiada com soluções políticas e com dispêndio de muito dinheiro público, mas que ainda assim não confortou plenamente os interesses daqueles que efetivamente a causaram: as grandes corporações e instituições financeiras.

Neste momento, como se diz em bom economês, é necessário ver a tendência do “mercado” (essa coisa abstrata que consegue arrebatar os recursos limitados de governos ditos democráticos e soberanos, mas que ficam a mercê das intempéries e humor dos sempre ávidos por maior lucratividade), buscar o equilíbrio das contas públicas, com ajuste fiscal (aumento de tributação para os menos favorecidos, redução dos gastos sociais, prioridade no pagamento de credores a fim de manter a credibilidade), menor ingerência do estado na coordenação e execução de políticas públicas (falsos dogmas resolvem este dilema: Estado mínimo; reserva do possível, entre outras), contenção da inflação (com a fórmula imutável, ao menos entre nós, aumentando a taxa de juros para bancar a agiotagem e especulação financeira internacional), etc.,etc.

Tudo isso sob o tecnicismo e a frieza de um discurso unificado, cheio de termos distantes de nossa compreensão (seres normais, num mundo de extravagância econômica), tudo para dissuadir nossa possibilidade, inclusive, de perquirir.

Diante deste cenário se ouve falar de cifras inimagináveis, de transações incontroláveis, de medidas acima de quaisquer deliberações parlamentares, sem o mínimo respeito à soberania das nações; de commodities (ao invés de produtos), de pontos na bolsa (ao invés de valores especulativos), de números e índices (ao invés de pessoas). Enfim, linguagem dominada com exclusividade por daqueles que controlam tudo sem nenhuma preocupação com o ente humano, colocado na última escala das prioridades. Há um olhar centrado somente no crescimento econômico, independentemente de seu custo social, como se vivêssemos num planeta com recursos e possibilidades de ascensões infinitas.

Tudo tem limite (e não é o céu). Enquanto o ser humano não for colocado no centro dos interesses globais, os movimentos de crises – ou meros anúncios proféticos de suas chegadas – serão apenas táticas bem elaboradas para transferência de mais recursos públicos para estas grandes corporações financeiras que devoram as economias mundo afora e com elas as pessoas, seja aqui ou em qualquer parte do planeta.

No fundo, o problema está neste modelo econômico global, insaciável, autofágico, que de tão guloso se autodestruirá, explodindo de vez de tão obeso, ou, antes disso se começar a regurgitar.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

2 respostas para “A AUTOFAGIA DO MODELO ECONÔMICO. Ainda chegará o dia que terá que regurgitar!

  • Estagiário

    Concordo em grau, número e gênero!

  • Tiago Oliveira

    A grande questão que observo de tais fatos é qual o caminho tomará o nosso jamais concretizado “Estado de bem estar social”.
    Ciente de que não condiciona nem regula o mercado e que não pode, portanto, assegurar os direitos elementares dos individuos, o Estado perde cada vez mais sua legitimidade fundante, pois a promoção do bem comum torna-se um apêndice da vontade econômica.

    De fato, o medo é a nova fonte de legitimidade do Estado, pois em último caso a única função que lhe restaria é a promoção da segurança e nesse contexto ele mesmo fará questão de gerar a (in) segurança, para tornar-se cada vez mais arraigado e legítimo.

    O Estado nação chegou ao limite do que lhe é possível (e isso é muito pouco) e agora vai inventar o impossível (criar terror) para livrar-nos do terror.
    Vamos mudar o pai nosso: “Mas livrai-nos do terror, amém”.