DECISÕES SOCIOLÓGICAS (?) (da série: Aforismos jurídicos)

O social existe num plano próprio, além do estímulo material (o aguilhão do sexo, da fome, das intempéries e determinações do meio), mas igualmente aquém de uma resposta automática a todos esses elementos. Trata-se de uma região intermediária, onde é possível apropriar, medir, domesticar, perceber, negociar e assim reagir ao chamado mundo natural externo e interno. O social é, pois, uma espécie de miolo entre o estímulo e a resposta, entre a natureza e o grupo, entre o grupo e a pessoa. É um plano onde a consciência se pode realizar, já que “tomar consciência” é, fundamentalmente, focar a atenção sobre um elemento, deixando de lado os outros.

Roberto DaMatta: Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro.

 

Outro dia um colega magistrado disse-me que minhas decisões eram muito sociológicas (?!?!).
Entre o estarrecimento da afirmativa, porque claramente seu autor nada sabia do que estava dizendo, aliás, a muito se habilitara a encher balões com frases feitas ou palavras desconexas que buscava conectar, num exercício fútil de uma linguagem que se diz jurídica enfadonha e arrogante, e o espanto em perceber o quão distante que ele, também julgador, estava dos fatos sociais, fiquei sem palavras.
Também pudera! Como gastar palavras com alguém que não consegue enxergar além de suas próprias ambições, porque seus olhos são direcionados unicamente para o norte (e o norte já é expressão deste preconceito de quem não reconhece minorias), tal qual o animal de tração que tem acobertado lateralmente suas ventas para não se assustar com o giro do mundo ao seu redor, foi docilmente adestrado para não ver.
São estes que se apoderam destes falsos axiomas jurídicos (verdade real, neutralidade judicial, decisão justa) e que acreditam ser imprescindíveis à garantia da ordem pública, da paz e harmonia social (outros falsos axiomas), precisando então reproduzirem imperfeitas fórmulas desenhadas alhures, por alguém também com iguais tapumes, ou preparado para vender este tipo de ideia, e que apenas encontram-se a alguns passos adiante do mesmo projeto pessoal de ambições.
São estes que, apesar de não seres donos do mundo, agem como se o fossem, alimentados pela doce ilusão dos mimos que lhes são oferecidos, e que inconscientes (porque não se pode afirmar consciente quem age por vilania) contribuem de modo decisivo para aumentar a falta de paz e harmonia social, e que somente poderão ser compreensíveis no acervo das garantias que dignificam todo ser humano.

Anúncios

Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Os comentários estão desativados.