O QUE EXISTE EM COMUM ENTRE SARNEY, COLLOR, FHC E DILMA ROUSSEF?

Para aqueles que temiam e esperavam da Presidenta Dilma Roussef uma pessoa rancorosa e que pretendesse vingar o passado, como vítima que foi do regime ditatorial e dos governos contrários as suas convicções políticas que sucederam, se enganaram completamente. Decepcionaram os que acreditavam nesta hipótese e torciam para que isso ocorresse, como forma de passar a limpo tudo de ruim que lhe fizeram e à nação, como também os que temendo estes efeitos, no fundo desejavam que fosse esta a conduta da Presidenta para instigar o confronto e fazer repercutir uma imagem negativa de radical e extremista.
Não, nada disso se deu. Aliás, sua postura política tem se mostrado de muita discrição e em tom apaziguador, diferentemente do seu antecessor que fazia questão de se mostrar constantemente e se precisasse não rejeitava o confronto.
Esta capacidade de perdão, aparentemente de superar suas amargas lembranças pessoais (se é que seja possível!) em prol do interesse coletivo, é extremamente admirável e louvável, não só pelo ato pessoal (sabe-se lá a que duras penas), mas, sobretudo como chefe máxima da nação. Gestos desta natureza devem ser referenciados e servirem de exemplo para o diálogo e o entendimento numa sociedade de pessoas quase sempre impacientadas e prontas para desavenças, incompreensão e aceitação do outro como ele é.
Porém, noutra perspectiva, não se pode negar a vontade coletiva que sobrepõe esta capacidade de composição, sobrepondo aos interesses de todos e com a qual boa parte dos eleitores de Dilma (se não todos) sonhou em ver realizado. Justo por acreditar na possibilidade de alguém que, tendo sofrido na carne as agruras perpetradas pelo regime militar, ocupando o posto de Presidenta, pudesse revirar de vez este passado para colocar tudo em prantos limpos.
Por certo, não existe nada em comum nas biografias políticas de Sarney, Collor de Melo, Fernando Henrique Cardoso e Dilma Roussef. Não que com isso não possa se respeitar e manter admiração de um pelo outro. Mas ainda não é disso que se refere. Na demonstração de encerrar desavenças e fumar o cachimbo da paz, somente a Presidenta tem cedido. E como tem.
Os acenos de Dilma para FHC, certamente com o propósito de apaziguar o mínimo do que resta de liderança na oposição, começaram com o convite não recusado para que Fernando Henrique participasse do jantar oferecido pela Presidenta a Barak Obama em sua visita ao Brasil no início do ano. E Dilma ainda fez mais. Colocou FHC, como os demais ex-presidentes presentes – Sarney e Collor – , na mesma mesa em que ela e o homenageado se encontravam. Agora, aproximando das 80 velinhas de FHC, e já por isso sendo quase jogado de lado pelo próprio partido, Dilma envia-lhe uma carta cheia de cortesias e gentilezas, como se vê deste trecho:
Em seus oitenta anos há muitas características do Senhor Presidente Fernando Henrique a homenagear. O acadêmico inovador, o político habilidoso, o ministro-arquiteto de um plano duradouro de saída da hiperinflação e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômico. (http://colunistas.ig.com.br/guilhermebarros/2011/06/11/fhc-foi-decisivo-para-a-estabilidade-economica-diz-dilma-rousseff/)
– Menos, Presidenta! Menos! Não passaria por má educada ou rancorosa sem esta bajulação.
Em relação aos dois outros ex-presidentes – Collor e Sarney – seus aliados no Senado, que vendem caras suas colaborações, ao tempo que deveriam render homenagem a Presidenta e ao menos pedir-lhes desculpas pelo fato de ter sido vítima de um regime no qual participaram ou ascenderam politicamente. Sarney como herdeiro legítimo do regime militar, negociado como candidato a vice na chapa de Tancredo para se aceitar o fim deste período de exceção. Collor foi o verdadeiro jabuti em árvore. Era governador de um Estado nordestino pequeno, sem partido político, mas que, pela imagem – jovial, destemido, capaz de atos de agressividade incontida contra adversários, principalmente em relação ao ex-presidente Lula com chances de vitória, com discurso moralizante e de desmonte da estrutura pública e caça aos “marajás”, temas vendidos com maestria à opinião pública – era o representante ideal das elites políticas e econômicas que ainda resistiam ao um regime de liberdades, até porque não havia como temer as condutas de filho de sangue de um dos imperialismos alagoano, crescido durante o regime militar. Porém não completou o mandato e só caiu porque feriu o brio e rompeu com alguns compromissos com aqueles que ali o puseram (eis a vantagem de se colocar um jabuti em árvore!).
Pois bem (aliás, nada bem!). Como estes dois nos dias de hoje ainda se colocam como mandachuvas no cenário político – não pela biografia de ex-presidentes, porque estes fatos, como se viu, não contribuem muito. O primeiro entregou o país literalmente quebrado, com inflação beirando aos três dígitos mensais; o outro, foi deposto legitimamente pelo impeachment na metade do mandato. Ambos ferrenhos combativos do partido da Presidenta quanto governantes – , conjuntamente pressionaram e conseguiram da Presidenta a promessa de retirada do apoio e do regime de urgência ao projeto de lei enviado no governo de Lula (no qual Dilma era o braço direito no Gabinete Civil, e por isso com sua orientação) para regulamentar a limitação de prazo quanto ao sigilo de documentos.
Observem que o projeto não prevê abertura imediata de documentos, o que por si já é uma lástima, depois de mais de ¼ de século do final do regime militar. O que se prevê é que, para alguns documentos o prazo mínimo será ainda de mais ¼ de século, podendo ser estendido a metade de século. Isso significa mais de 2 gerações.
Valha-nos os verdadeiros princípios democráticos! Por quanto tempo ainda será necessário realimentar nossas memórias para não se cair no esquecimento, como enganosamente se imaginam. Iludem aqueles que acreditam no brocardo: “o tempo curas as feridas”. Ao contrário, feridas abertas não se cicatrizam, como disse Michele Bachelet, ex-presidente chilena e que em seu governo assumiu compromisso com a apuração da verdade durante o regime ditatorial de Pinochet.
O que querem então os ex-presidentes? Bem ao estilo ditatorial, querem que estes determinados documentos de toda história passada, seja do regime militar, da velha república e de preferência todos de seus governos, nunca sejam abertos. Mas o que tanto temem? A própria democracia que assegura o direito à publicidade e a informação, sobretudo quanto às questões atinentes aos direitos fundamentais de seus cidadãos? Em relação aos documentos que deixaram trancafiados, certamente não querem dar-lhes publicidade para não revelar mais do que já se é sabido de suas passagens inglórias no comando do Planalto e ainda para que não se apresentem segredos de uma ditadura inacabada.
Será que aquilo que se fez durante o Estado ilegal (Vladimir Safatle) – situação típica na ditadura – pode ser preservado e escondido por seus documentos tidos como intocáveis, mesmo depois de superado e retomado o Estado o rumo da legalidade? Se houve o rompimento com este Estado, que compromisso faz preservar ocultas suas ações? Por que tanta força nestes resquícios ilegais a ponto de impedirem a revelação de suas ações, e o que tanto fazem questão de esconder? Será que num regime verdadeiramente democrático não existe legitimidade para se conhecer as atrocidades do regime ditatorial?
Dirão alguns que no jogo político exigem-se alianças. Isso é certo. Todavia, para fazê-las, a Presidenta não pode renunciar a matriz do pensamento que a fez chegar ao posto máximo da nação. Ao contrário, aqueles que querem aderir e se encontram sem bandeiras, é que necessitam de estar do lado dela para sobreviverem politicamente, sem direito a exigir contraprestação. Os vencidos é que devem aliar-se as ideias vencedoras no pleito eleitoral.
Para além da vontade de apaziguar ânimos (entenda-se, interesses pessoais em locação de seus apaniguados em postos estratégicos na composição da administração pública federal, em troca de apoio político no congresso), sob o argumento de tornar factível seu governo ainda que ao custo de alianças espúrias, a Presidenta – e aqueles que a orientam a engolir sapos – não pode se afastar de suas promessas de campanha e de sua história de vida. Quem lutou e enfrentou a dureza do regime militar no passado, sobrevivendo com dignidade a tudo isso, tem postura moral, política e credibilidade popular o suficiente para invocar as efetivas mudanças necessárias, a começar pela revelação deste passado nebuloso, como prometido.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “O QUE EXISTE EM COMUM ENTRE SARNEY, COLLOR, FHC E DILMA ROUSSEF?

  • Tiago Oliveira

    Denival, parabéns pelo texto.

    Confesso que o estilo de condução e figuração no poder utilizado pela Presidente aparenta ser bem mais adequado aos contornos de uma república democrática.

    Contudo, o ideario midiatico doutrina a população nos moldes dum imperialismo-paternalista, onde a figura do lider profético e carismático (webber) é aclamada entre as gentes.

    Penso que Dilma, embora atue corretamente nesta questão, poderá sofrer as pedras do caminho por adotar uma postura mais recolhida.

    De outro lado, estou decepcionado com o fato de que a presidente não tenha usado a enorme aprovação popular do início do mandato para propor as reformas imprescindíveis que o país necessita. Sua fama de “grande gestora” a cada dia fica mais distante de minhas crenças e já estou temendo por dias piores.

    Vou esperar o fim desse capítulo!