CELEBRAÇÃO DOS 500 ANOS DE BRASIL. Conflitos, agressões, naufrágios e muita politicagem. Nada mais adequado para esta comemoração. (da série: Assim se fez a história e algumas estórias mais!)

Para comemorar os 500 anos do achamento, o governo brasileiro preparou uma bela festa a ser realizado em Porto Seguro na Bahia, local do desembarque dos primeiros portugueses em 1500.
Construiu uma nau, na qual consumiu mais de R$ 500.000,00 de dinheiro público, para sair de Salvador e chegar a Porto Seguro no dia 22/04/2000, dia em que os portugueses botaram os pés aqui, há 500 anos atrás.
Ninguém disse e ninguém também teve a curiosidade de perguntar se este valor de R$ 500.000,00 foi mera coincidência ou tinha outra simbologia: o gasto de R$ 1.000,00 por cada dia de nossa história de colonizadores e colonizados?
Enfim… Sob os olhares frustrados de todos a naus não saiu do cais. Deu água, naufragando com os R$ 500.000,00. O incrível é que desprezado o fiasco da forma comemorativa programada, com todo conhecimento de engenharia para construção de embarcações, a réplica da embarcação dos “descobridores” não conseguiu flutuar, embora há 5 séculos tenha atravessado o oceano, a base de bússola, vela, vento e remo.
Para amenizar o mico, levaram-na então rebocada. Afinal, que diferença faz se o essencail era cumprir o percurso? (ou seria gastar os R$ 500.000,00 do dinheiro público!). Não! Tudo isso são detalhes diante da importância da representação histórica, a vivificação de uma embarcação da época do achamento, com suas velas estendidas no mar de Porto Seguro demonstrando a todos como fomos encontrados.
Festas foram realizadas em Porto Seguro, com nobres convidados europeus, chefes de Estado e a alta sociedade brasileira. Nisso, para não atrapalharem os folguedos, os porto segurenses (muitos descendentes de indígenas e escravos) e os legítimos índios pataxós, habitantes da época do achamento, ainda em condições rudimentares, como se fossem bichos de exposição, foram restritos de caminharem por suas próprias vias, ruelas e becos.
Para os festejos nenhum destes recebeu convite.
Mas como, se a festa montada foi em suas próprias casas? Não, não poderiam ser ocultados. Esta era a oportunidade esperada para serem reconhecidos e vistos pela comunidade internacional, na esperança de serem contemplados com um verdadeiro achamento, agora com a exposição de suas realidades e do que representou a história de 500 anos para suas vidas. Com este propósito os habitantes de Porto Seguro organizaram movimentos pacíficos, com desejo de transitarem por ruas impedidas, mas onde se encontravam as comitivas internacionais, com o fim de chamar a atenção para suas situações de descaso e abandono.
Em acolhimento a suas manifestações, receberam a repressão policial, sob o comando dos anfitriões nacionais, com bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e balas de borracha.
Bagunçaram a festa, foi o que se ouviu nos salões vistosos. E então, a sua Excelência, o Ministro de Estado da Cultura, com nome de gringo, Weffort, veio a público dizer-se envergonhado (não dos miseráveis e de suas penúrias), mas do “papelão” que o povo local encenou diante dos convidados (estrangeiros).
E então disse, com ar de lorde inglês:
– Cuspiram no prato que comeram!
Nada mais expressivo para comemorar 500 anos de opressão!

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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