VÔO DA MUAMBA, DO PASSADO PARA O FUTURO. Mas quem haverá de se importar se o caneco é (for) nosso? (da série: Assim se fez a história e algumas estórias mais!)

Em julho de 1994 a torcida brasileira estava eufórica. Depois de sucessivos fracassos em edições anteriores da Copa do Mundo, desde o mundial de 1970, o Brasil apesar de não ter apresentado um futebol encantador, sagrou-se tetra campeão do mundo, isolando-se de todos os demais países em número de títulos.
A torcida se aglomerava no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, na expectativa de ver o retorno dos craques (alguns nem tanto!) e principalmente o troféu do campeonato mundial de seleções. É a glória suprema do futebol, este esporte que absorve muito do interesse e empolgação da população mundial, e com ele, cifras quase inimagináveis aos nossos pueris desejos de dinheiro nos contratos de atletas, patrocínios, premiações, etc.
Mas eis que um empecilho quase impede o pouso da aeronave. É que juntamente com o caneco a delegação trazia consigo 17 toneladas de muamba de produtos importados. Óbvio, sem a pretensão de pagar a tributação de importação.
Depois de muita pressão do Sr. Presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que se posta até hoje como um verdadeiro agente com status da diplomacia brasileira, enaltecendo o ato heróico dos jogadores, ameaçou desviar o vôo para outro aeroporto, se a delegação tivesse que se submeter as inspeções e vistorias de práxis, como deve ocorrer com todo aquele que desembarca no país.
Diante de tamanha ameaça, de alguém que naquele momento se sentia mais importante e poderoso que o próprio Presidente da República, ninguém da delegação foi importunado e todo o acervo de importados e bugigangas contrabandeados foram liberados sem nenhuma inspeção alfandegária e sem o pagamento de nenhum vintém de tributos.
A esse tempo os jogadores de futebol integrantes daquele escrete já faturavam somas inacreditáveis para qualquer trabalhador brasileiro. Além disso, deixavam invejosos todos os amantes do futebol por fazer o que gostam e ainda serem tratados como celebridades.
Enquanto isso a população miserável, ansiosa para ver o caneco, não se preocupava com a demora para ovacionarem os heróis nacionais.
Agora, passados mais de 16 anos, o Sr. Ricardo Teixeira tenta se livrar da condenação criminal proferida em 05/08/2009, na 22ª Vara Criminal da Justiça Federal do Rio de Janeiro, para poder continuar negociando com patrocinadores e estes, por sua vez, verbas públicas para a edição da Copa no Brasil em 2014. Pode ser que consiga, afinal o caneco é nosso!
O tempo passa e a data da Copa vai se aproximando, com todo atraso nas edificações e infra-estruturas necessárias e comprometidas. Os dirigentes e políticos dizem que está tudo dentro do cronograma. Só não dizem que é preciso atrasá-las para que, na última hora, tudo seja feito sob o regime de emergência, com subfaturamento, sem licitações e fiscalizações, e pior, com utilização de muito, mais muito mesmo, dinheiro público.
Mas quem se importará se no final o caneco for nosso?

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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