TERRA À VISTA! Do achamento do Brasil. (da série: Assim se fez a história e algumas estórias mais!)

Quando ecoou da naus postada no horizonte antes nunca navegado, o som estridente de “terra à vista”, o índio pataxó, que até então era o possuidor livre destas terras, sem nenhum desejo de destruí-la e dela se apoderar como senhor absoluto, no sossego da imensidão de suas praias, matas, animais, temeu a si e a todos os viventes deste paraíso.
Então, em ressonância, ecoou de cá um gemido de dor.
Pacuy-niē, um índio graúdo e líder dos guerreiros de sua tribo, enlouqueceu. Não com a miragem surgida no mar nunca antes avistado, mas com o terror preanunciado, porque viu no horizonte de sua mente matanças, saques, dizimação, doenças, escravidão e toda forma de espoliação humana.
– É o fim do paraíso; é o fim de nossa gente.
E então Pacuy-niē embrenhou-se na mata e ninguém mais o viu.
Conta-se, no entanto, que de tão louco que ficou, transformou-se num Urutau para proteger o seu povo do perigo dos predadores. Raramente é visto e só quem não tem maldade no coração pode enxergá-lo mimetizado entre os galhos de árvore. É por isso chamado de pássaro-fantasma, e seu pio triste pressageia a morte de algum familiar.
Quando um dos seus tenta melhor sorte na cidade grande, porém não encontra sequer uma árvore para se ocultar, pia incessantemente na mata escura, enquanto o fogo queima a carne daquele que foi dormir num banco de praça.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

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