A MAGISTRATURA E O SACERDÓCIO. Não sabemos da missa a metade!

Ouvi muito durante minha carreira que a magistratura é um sacerdócio.
No princípio, afoito e mais ainda encantado com o status do cargo desempenhado, cheguei a acreditar nesta baboseira (apenas mais uma de tantas outras que nos martelam assiduamente até ver se pega).
Porém, mesmo assim, confesso (… mas o sacerdote não é o confessor?) que nunca entendi direito está expressão, repetida exaustivamente quase que um dogma (assim como a própria fé).
Mesmo sem temer o que se é sacralizado, objeto de aceitação cega sem questionamentos, não me contive em querer enfrentar este assunto que sempre me incomodou.
Primeiro tive que espargir em mim a ideia de que eu seria um sacerdote, até porque não tenho a grandeza para assumir os votos necessários do celibato e da renúncia aos bens materiais.
Aliás, como não existem estas semelhanças entre ambos os ofícios cheguei a pensar em determinando momento que o comparativo devia-se à preocupação com o tema da justiça social. Entretanto, logo percebi, empiricamente, que tanto lá, quanto cá, salvo por ações e condutas isoladas de alguns de seus abnegados membros, isso não é uma realidade institucionalizada, ainda que as instituições se proponham a estes compromissos. O vício não está, em verdade (e aqui vai propositadamente uma expressão biblíca), nas instituições em si, mas no que elas concedem de poder aos seus dignitários e que acabam desvirtuam seus reais propósitos.
Neste calvário de inquietações continuei a via crusis em penitências, buscando justificar o nominativo de sacerdote utilizado ao magistrado que por derradeiro poderia significar uma heresia, sem que ninguém ainda o tivesse percebido.
Nesta procura da própria identidade, na tentativa de ser um magistrado atuante e preocupado com temas por vezes incomuns nos átrios forenses, assim como muitos temas também não passeiam pelas naves eclesiásticas, cheguei a ser repreendido, tratado com indiferença e certo rancor por integrantes das cúpulas judiciárias. Era como se eu houvesse fugido do catecismo ou rompido com as liturgias, deixando de atentar para toda ritualística descrita nos abreviários missais.
Imaginei-me, imediatamente, como o sacerdote que é censurado por seus superiores, repreendido por ter enaltecido sentimentos de contestação, de enfrentamento às injustiças sociais, e outros temas por vezes relegados em face à necessidade dita de uma humildade servil dos fiéis em menosprezo ao verdadeiro sentido cristão.
Assim, embora não admitindo a ideia de que o ofício do juiz seja de um sacerdote, compreendi que há um ponto em comum de onde decorre, certamente, o empréstimo do nominativo, de forma velada ou ao menos não tida ao baixo clero, embora o inverso não ocorra. Trata-se de uma obediência hierárquica incontida, de um temor quase que divino aos mandamentos advindos dos membros superiores das instituições, que faz tanto do sacerdote, quanto do juiz, seres dóceis e obedientes às ordens, independentemente do que isso representa as relevantes missões que desempenham.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

Uma resposta para “A MAGISTRATURA E O SACERDÓCIO. Não sabemos da missa a metade!

  • Maria Francisca dos Santos Lacerda

    Caro colega, seu artigo é interessante. Nunca achei que a magiustratura fosse um sacerdócio. Concordo com você quanto às desemelhanças, portanto, mas discordo quanto à semelhança, porque o sacerdote faz voto de obediência e o juiz, ah! se o faz, é no seu íntimo, apenas, e por fraqueza.
    Grande abraço,
    Francisca