MORREU OSAMA BIN LADEN. Mas que falta fará?

Morreu Osama Bin Laden. E agora, quem vai ser o procurado da vez? A quem os EUA atribuirão os riscos constantes de uma sociedade global que deve ser controlada cotidianamente sobre o manto do medo? Como justificar a permanência bélica no Afeganistão, Paquistão, Iraque, e em todos os locais onde a caçada justificava a necessidade de permanência? Como argumentar a premência de novas invasões e supressão da soberania de outras nações, vigiadas como se fossem ninhos de terroristas? Como continuar satisfazendo os interesses da indústria bélica – “indústria do bem” (armas para defesa e segurança, não para guerra) – se não houver necessidade do consumo? E o que fazer com os armamentos e munições estocadas?

Desde o fatídico 11 de setembro de 2001 – quando o mundo ouviu falar de Bin Laden, embora já fosse a este tempo persona non grata dos EUA e outros “países aliados” –  a promessa de captura do maior terrorista do mundo, passou a ser uma novela que elevou a popularidade do presidente Bush (segundo), nos momentos de maior comoção, como também serviu para reduzi-la diante das fracassadas incursões e missões nesta tarefa.

O fato é que de tão longo este enredo novelesco já não tinha mais o interesse da população americana e mundial, desligada das regras de temor que a tragédia impunha. O grande vilão temido, a ponto de pessoas imaginarem um avião comandado por terroristas explodindo em seus casebres, já não provocava mais os sentimentos populares que os papéis dos não-mocinhos destinam provocar.

Na verdade, a infindável e eterna procura já havia dado o que tinha que dar. E agora, de tragédia a melodrama interminável, estava provocando efeito inverso, trazendo desprestígio e dúvida quanto ao real poderio americano: como alguém, desprovido de recursos, meios tecnológicos sofisticados, transporte, arsenal bélico moderno, condições de habitação, alimentação, vivendo em regiões áridas como nas montanhas do Afeganistão ou do Paquistão, onde diz ter sido eliminado, poderia se esconder dos olhos espaciais, dos espiões terrestres, das recompensas ofertadas pelo governo americano, e todo aparato sabido e não sabido por nós reles mortais, por tanto tempo? Ou a eficiência americana não tanto quanto se anuncia; ou havia interesse de preservá-lo, neste pega-pega de gato e rato.

Mas que falta fará Bin Laden!

Nenhuma! Bin Ladem foi eliminado – como dizem que foi – porque realmente já não servia mais a tudo aquilo. Era o momento de renovação de elenco, de criar outros vilões e que, aliás, já estão em cena. Kadafi e outros dirigentes políticos de países de língua árabe estão aí para legitimar isso.

Kadafi é a bola da vez e que sirva de exemplo aos demais. Como o ditador líbio – título que só lhe foi dado depois do rompimento de interesses comerciais com países europeus, principalmente França e Itália, diante da incerteza do seu futuro político – já incitou seus seguidores para contrarreagirem no território inimigo às agressões dos “países aliados”. Este gesto apenas reforçou a necessidade de caçá-lo de vez e imediatamente. Como não fica bem dois vilões num único enredo, Bin Ladem poderia ser eliminado para que outro, neste caso Kadafi, assumisse a condição de perseguido da vez, com todos os contornos dado ao vilão deposto.

Assim como Bin Laden teve um dia negócios com os EUA e familiares do governo Bush (primeiro), os inimigos de agora, até pouquinho, mas pouquinho mesmo, eram camaradas (aliados, na linguagem dos sempre invasores) da “coalizão do bem”. Entenda-se: EUA, países europeus, e outros “países periféricos” que não desejam sair mal na fita.

Serviram, ao seu tempo, como tinham que servir. Atenderam os interesses comerciais e geopolíticos na região aos EUA e aos países europeus. No momento em que a população local se insurge contra estes regimes perenes, os “países aliados”, únicos detentores do modelo ideal de democracia, com o aval expresso da ONU, se apresentam como defensores dos civis indefesos e, em nome dos direitos humanos (entenda-se, preservação dos interesses comerciais), para bombardear severa, implacável e irrestritamente o país onde se esconde o novo vilão.

Para isso vale tudo, inclusive matar civis os quais se estar sendo protegidos pelas ações militares aéreas (apenas efeitos colaterais) e parentes do procurado, inclusive crianças, como aconteceu com os netos de Kadafi em recente ataque.

O comércio internacional das grandes corporações agradece. A indústria petrolífera aumenta seus preços. O capital volátil sai em busca do aumento de juros em países como economias fragilizadas. As instituições financeiras acrescem o custo das suas operações, pagas pelos clientes, como consequências dos riscos internacionais. A indústria bélica agradece a demanda por seus produtos, podendo elevar o preço e desenvolver projetos de armamentos e equipamentos mais eficazes.

Ao final, todos os que lucraram nesta ciranda financeira, ou que ainda não faturaram, mais que visualizam uma promessa de lucro, principalmente com a necessidade de reconstrução do que foi destruído pelos bombardeios, recompensarão bem os dirigentes políticos – sejam vilões ou mocinhos – contribuindo fartamente para suas campanhas políticas e para mantença do poder, até não servirem mais, num verdadeiro círculo vicioso.

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Sobre denivalfrancisco

Meu nome é Denival Francisco da Silva. Formado em direito pela PUC-GO e mestrado em direito pela UFPE. Juiz de direito e professor universitário. Poeta e cronista, às vezes. A angústia em conviver com tantas distorções sociais, indiferenças, injustiças, ofensas aos direitos fundamentais, desprezo ao semelhante, e tantas outras formas de indignidade, exige de todo aquele que se incomoda, um lugar de fala. E que bom será se esta fala puder ressoar e se abrir mundo afora. A internet propicia isso, e os blogs têm sido ferramentas extraordinárias para a verdadeira liberdade de expressão, onde cada um coloca em discussão seus temas prediletos. Não inovarei em nada. Com toda certeza outros o fazem melhor. E não ouso afirmar que minha fala, lançada neste espaço cibernético, vá percorrer fronteiras e atrair simpatizantes. Não tenho este poder e jamais esta pretensão. Quero mais a liberdade de expressão e a consciência bastante para enxergar, mesmo no obscurantismo, para não me aquietar diante de farsas. O título do blog – sedições – enseja de início a contraposição. Não significa, porém, que haja uma necessidade simples de divergir, de contrariar, de opor. Sedições, misturando suas letras, dá também decisões que aqui se propõe invertidas ao modo que se vê correntemente. O que pretendo é, não mais, desaguar as palavras que alvoroçam em mim, em burburinhos loucos para serem ouvidos, como quem vê, pensa, reflete e necessita replicar suas críticas e percepções. Espero que os visitantes compartilhem comigo críticas e discussões sobre política, sociedade, direitos humanos, justiça e um pouco de prosa e poemas. Sejam bem-vindos! Ver todos os artigos de denivalfrancisco

2 respostas para “MORREU OSAMA BIN LADEN. Mas que falta fará?