Arquivo da categoria: Série: Assim se fez a história e algumas estórias mais!

01 DE ABRIL DE 1964. Nada de mentira: Golpe! (da série: Assim se fez história e algumas estórias mais!)

A data escolhida pelos golpistas para tomarem o poder político no Brasil não foi casual. Primeiro de abril é o dia internacional da mentira e, portanto, muitos não acreditaram nas notícias do levante militar para tomada do poder político, imaginando estarem diante de uma anedota da data e que de tão escabrosa não tinha sequer o condão de enganar. Nesta quietude e indiferença, as forças antidemocráticas moviam-se rapidamente para assegurar a eficácia do golpe. Quando houve a percepção dos fatos, as ações já estavam bastante avançadas, sendo então impossíveis suas reversões.
Jango se viu acossado e sem nenhum apoio das casernas para compelir os golpistas, sendo obrigado a abandonar o posto e sair do país às pressas, como um bicho escorraçado de dentro de casa.
No mais, todos os argumentos dos usurpadores do poder para suas missões inconstitucionais eram sim frutos de tremendas mentiras, implantadas sob a peja do risco do Brasil tornar-se com Jango um país comunista: salvar a pátria em perigo, livrando-a do jugo vermelho (palavras do general Kruel, um dos coordenadores do golpe).
Para emplacar a tomada do poder, os militares contaram com o apoio das oligarquias políticas brasileiras, dos movimentos conservadores, inclusive da igreja, disseminando a paródia de que o regime comunista comia criancinhas, dos EUA e da grande mídia reacionária, afeta aos interesses coorporativos do capital.
Nunca se teve estória de 1º de abril tão bem aplicada na história como esta de 1964.


A COPA 2014 VEM AÍ! 190 milhões, pra frente Brasil….! (da série: Assim se fez a história e algumas estórias mais!)

- Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção!

E assim, no auspício do regime ditatorial no ano de1970, ajunta militar que desgovernava o Brasil para longe dos direitos humanos, incitava o espírito patriótico e o orgulho do povo aproveitando o embalo e sucesso do escrete canarinho (a propósito, na delegação estava o irreverente Dada Maravilha, de habilidade bastante duvidosa, mas que só foi convocado por imposição do presidente Médici).

Na vibração de mais um mundial de futebol, podia-se, sordidamente, endurecer os rigores do regime e a repressão política. No embalo de pra frente Brasil as ordens dadas pelo poder central aos batalhões militares eram de partir com o mesmo vigor da seleção de futebol e não dar nenhuma chance para o adversário. Era marcação ferrenha e nada de jogo limpo. Ataque sistemático e organizado, com muita artilharia e boladas (melhor, “baladas”) nos adversários. A missão era vencer a qualquer custo, com todas as artimanhas inescrupulosas que nenhum jogo permite.

Nisso, aqueles que não foram computados na contagem dos 90 milhões em ação, alheios à campanha brasileira no México, sofriam os sangrentos sacrifícios nos porões da ditadura militar. Muito, mais muito pior que os adversários humilhados e surrados num jogo sujo. Mas o que são alguns, num universo de mais de 90 milhões?

Enquanto durou o entusiasmo da Copa e, sobretudo do título, poucos se preocuparam com os perseguidos pelo regime. Depois, passada à euforia, já era tarde, diversos brasileiros tinham desaparecido (desapareceram com eles) ou fugido do país (fugiram com eles); outros tantos foram torturados e mortos (morreram com eles).

Do escrete canário de 1970, que para vários apaixonados por futebol, até os dias de hoje, foi o melhor time que o mundo já viu (há controvérsias!), todos tem saudades e vivas lembranças, rememoradas constantemente com as reprises dos gols, dribles e jogadas daquela equipe que tinha Péle, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Carlos Alberto, entre outros.

Enquanto isso, vários perseguidos, desaparecidos e mortos pelo regime ditatorial foram sendo esquecidos, salvo na memória de seus familiares e amigos, cuja lembrança coletiva do tricampeonato mundial passou a ser-lhes o reavivamento de um martírio.

Às portas de uma nova copa do mundo, agora terra brasilis, o governo brasileiro, em especial a governança carioca, faz, tantos outros dengos aos organizadores, uma limpeza social em torno do estádio do Maracanã, com a instalação das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), evocando o argumento de pacificação do Rio de Janeiro. Conduto, para o êxito (na forma concebida) destas “operações” adota táticas de guerra e cerceam direitos civis da população – superação do princípio do estado de inocência, permitindo-se revistas pessoais sem qualquer pretexto dos comunitários; invasões de residências sem ordem judicial ou em situação de flagrante; apreensão de objetos sem ordem judicial ou sequer indício de fruto de pratica criminosa (quem guarda nota fiscal ou comprovante de pagamento de bens que possui em casa?); ocupação militar das vias públicas inclusive com equipes das forças armadas e veículos de guerra; toques de recolher, etc. – que sequer em situação excepcional de Estado de Sítio se permitiria.

E nós de cá, assistindo a tudo, ao vivo, num reality show bancando pelas emissoras de televisão, aplaudindo afeito foquinhas amestradas o que se diz sucesso das “operações de ocupação”.

De copa em copa os excessos acontecem (e nos seus intervalos também). A grande diferença de agora é que estamos num regime democrático, porém de joelhos e cabeça baixa diante das exigências ditatoriais da FIFA, que mais que um Estado estrangeiro, juntamente com seus patrocinadores, já invadiu nosso território. Primeiro, impondo-nos a construção e realização de obras – a despeito do interesse público e ganhos sociais que representaram, aliás, muitas delas serão espólios abandonados, feitos elefantes brancos num cenário de miseráveis –, ditando o formato e os fornecedores, tudo  a serem realizadas com dinheiro público. Segundo – e isso está em curso no Congresso – exigindo modificações na nossa legislação, com rompendo de princípios e direitos conquistados pela sociedade brasileira.

Para estas tarefas, agora feitas de inopino, inclusive diante da proximidade do evento (e os atrasos foram propositais justamente para forçar atropelos no momento certo), governantes e parlamentares, adulados com mimos de credenciais e camarotes para os jogos, rendem-se a tudo, cedendo sem nenhuma dificuldade as exigências, tudo sob a justificativa da importância do evento para o país (importância para quem?)…mas, quem se importa.

- Cento e noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salvem os selecionados (no gramado e fora dele)!


INDEPENDÊNCIA OU MORTE! Ou seria: independentemente, morte! (Da série: Assim se fez história e algumas estórias a mais!)

O Grito do Ipiranga, 1888. Pedro Américo (Brasil 1843- 1905).

Três séculos de exploração e um legado para continuá-la:
- Independência ou morte!
O carreiro que tudo assistia, na tela de Pedro Américo, cujo nome a ninguém interessou, não teve tempo de espalhar a notícia, antes de tudo continuar sendo apoderado nas mãos daqueles de sempre.
Assim, com os invasores ficou a independência, mantendo-se as possessões e todos os bens por aqui assenhorados.
Aos invadidos, aos degredados, aos escravizados, resistentes e insurgentes ao novo domínio, a morte que ainda hoje os persegue prematuramente.


DIABOS VELHOS: Bandeirantes, os exemplos de heróis brasileiros! (da série: Assim se fez a história e algumas estórias mais!)

Monumento ao Bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, em Goiânia, Capital de Goiás.

Tratamos os bandeirantes como heróis por suas bravuras e destemor por terem embrenhando o sertão brasileiro, povoando e disseminando o progresso, pouco importando os custos humanos destas incursões, sobretudo ao gentio que traquilamente habitava estas paragens.

É! Não é de hoje que temos a mania de valorar as obras humanas pela valentia sangrenta, esquecendo-se que estes desbravadores formaram um verdadeiro batalhão de assassinos, assacadores, grileiros, exploradores dos nativos.

Talvez seja essa a herança cultural que nos impede de valorizar os direitos humanos.

Bartolomeu Bueno da Silva é um desses.

Apelidado pelos indígenas de Anhanguera, que em tupi-guarani significa “diabo velho”, passou para a história como o bandeirante desbravador do Brasil central (à época sertões) rumo ao oeste. Narra-se que fez render os índios sob o encanto do fogo no prato de álcool, ameaçando incendiar os rios.

O que a história não revela é que o pavor do nativo não era pelo ilusionismo (até porque o fato é mais lendário do que real), mas a diabrura que lhe rendeu o apelido deveu-se ao fogo expelido do seu bacamarte e de seu séquito, tombando cada índio que se interpunha em seu caminho ou que se negava a revelar o local das riquezas da terra, com o ouro em abundância.

Hoje, pouco ou nada se fala sobre a história destes indígenas caçados feito bichos no Brasil Central, principalmente em Goiás. Anhanguera, ao contrário, é herói brasileiro homenageado com nome de cidade, vias rodoviárias importantíssimas, redes de televisão, universidades, ruas e avenidas com  busto de valentão exposto por aí para que ninguém o esqueça.


ZÉ TRISTEZA, MAIS UM NÃO ANISTIADO. Embora traga no corpo e na alma as marcas da repressão. (Da série: Assim se fez história e algumas estórias mais)

Zé Tristeza é assim conhecido porque ninguém o vê sorrir ou falar de sua história. Mas, o que importa se é um codinome, se apelido de família ou que lhe foi atribuído por seus algozes. O fato é que foi preso e torturado pelo regime militar, porque num dia qualquer, de um mês qualquer, num ano qualquer (entre o dia 31/03/1964 a 31/03/1979), juntamente com alguns amigos quaisquer, pichou no pedestal da estátua de Duque de Caxias, numa cidade qualquer, a expressão ABAIXO À DITADURA.
Ficou preso durante mais de 10 meses, sem processo, mas sofrendo todo tipo de violações físicas e psicológicas. Das primeiras restaram-lhe cicatrizes em todo corpo, como quem fora atropelado por um caminhão; da segunda, traz no íntimo marcas indeléveis e que o fez perdido sem identidade e sem família.
Como nada mais sabe sobre si, senão a memória apavorante das torturas, Zé não pode receber a indenização prevista na Lei como vítima regime ditatorial. As cicatrizes que são plenamente visíveis a qualquer pessoa não servem de testemunho. Um pequeno recorte de jornal, sem data de edição ou nome, onde aparece a foto da pichação sendo realizada, mostra três rapazes de costas sendo abordados pelos militares. Nem ele sabe exatamente se está entre os detidos e, se está quem é entre eles. Sequer sabe o porque guarda aquele recorte, embora o preserve sempre consigo.
E assim, passados mais de 30 anos da Lei da Anistia (1979), os torturados ainda tem que provar que foram vítimas para ver se recebem um indenização, sem pedidos de desculpas.
Quanto aos torturadores, muitos, alcançados pela aposentadoria compulsória, foram para reserva carregando consigo, no mínimo, uma patente a mais. Outros, que ainda continuam no serviço militar, estão somando divisas com a certeza de quem já foram imunizados legal (pela Lei de Anistia) e judicialmente (pelo STF).


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